domingo, 19 de setembro de 2021

UM ANO SEM ELE

 Por Luiz Figueiredo

 

Meu irmão Fran foi um ser humano admirável! Inteligente, de posições firmes, generoso e de temperamento forte. Era o quinto filho de Concita e Chiquitinho, dos doze irmãos.

Seu nascimento foi uma festa. Era verão, campos secos e ventos fortes. As palmeiras na frente da nossa casa em São João Batista, balançavam fortemente, ao som do canto dos japis que ali faziam os seus ninhos.

Era 22 de outubro de 1948, e pela madrugada logo que mamãe sentiu as primeiras contrações meu pai mandou um dos seus auxiliares de confiança, em um bom cavalo apanhar a parteira Nhadu, que morava a muitos quilômetros, mas não tardou a chegar na garupa do possante animal. Não demorou muito já se ouvia o choro daquele bebê e que para alegria do pai era um menino.

Acordei ao ouvir o ronco de um avião teco-teco, era João José, aviador amigo de papai que se preparava para aterrissar na pista de pouso em frente a nossa casa. O movimento lá em casa já era grande, nascera mais um filho de Chiquitinho, que muito alegre atendia a todos e recepcionava os visitantes que acabavam de chegar.

Como criança acompanhava tudo, mas sem participação direta, apenas curtindo com os demais irmãos e outras crianças a alegria do momento. O interesse maior era pelo avião de João José, um avião marrom diferente dos outros que ali pousavam e que metia um certo medo também pelo seu barulho mais forte, assim, logo estávamos debaixo das asas daquela grande atração.

Em casa Jonoca já providenciara o reforçado lanche para todos, e aqueles que gostavam de um drinque já se aproximavam do alambique para um gole da cachaça, Inspiração, naquele dia fabricada por Breco, um dos trabalhadores de maior confiança e amigo de papai.

O dia avançava e o movimento festivo continuava do jeito bem característico daquela nossa casa. A verdade é que foi um dia abençoado!

Como era de costume, quarenta  galinhas já estavam separadas para alimentação de nossa mamãe, na quarentena. A famosa “galinha de parida”.

Encerradas as comemorações do dia, acendia-se o petromax, para as visitas da noite que não faltavam em todos os momentos, dentre eles Zequinha Saraiva, Marciano, Zé Pescada, João Sousa, Merval e outros, que conversavam sobre política até tarde, e Chiquitinho firme e alegre com a chegada do seu filho Fran.

Esse menino foi crescendo e sempre se destacando em tudo que fazia. Gosta de organizar festas, desfiles e brincadeiras com os jovens da época.

Fundou e construiu com os amigos Lifinha, Zico, Peroba, Bairon e Simão Pedro, o Clube dos Jovens.

Revelou-se um grande orador ao fazer um discurso na convenção para escolha do primeiro candidato a prefeito Merval Figueiredo.

Daí pra frente não parou mais, enfrentando as dificuldades naturais, até “bulling” por ser muito magro e alto, superou tudo.

Formou-se em Direito, exerceu o cargo de Diretor do Tribunal de Justiça até partir para Brasília, onde prestou concurso para o Senado, sendo ali respeitado pelos senhores senadores, e continuou lá até se aposentar. Foi também Conselheiro Federal da OAB onde destacou-se por pareceres firmes e grande oratória.

Só tenho a agradecer por tudo que fez pela nossa mãe; a dedicação, os cuidados, os passeios ao pôr do sol, os lugares frequentados, lanchonetes, restaurantes e tudo o que era possível para torna-la mais feliz, enfim é um filho exemplar

A reunião da Família Fraterna foi uma iniciativa bastante elogiada que nos deixou muito felizes. Numa demonstração de amizade e fraternidade reuniu todos os irmãos, cunhadas, cunhados, sobrinhos e amigos num ambiente de total descontração e harmonia. Sua generosidade foi o ponto forte do encontro, presenteou a todos e serviu um coquetel muito bem preparado sob a orientação da mana Elma. Uma reunião maravilhosa!

Meu irmão era uma pessoa integra, gostava das coisas certas, não aceitava injustiça.

A nossa amizade foi muito fortalecida ultimamente e estava sempre disposto a tê-lo ao meu lado como amigo e conselheiro.

Um ano de Saudades !!!

terça-feira, 27 de julho de 2021

A ACADEMIA JOANINA DE LETRAS, CIÊNCIAS E SABERES CULTURAIS

 Por Marcondes Serra Ribeiro

Faz certamente bem mais que dez anos, desde o dia em que eu e o nobre conterrâneo e amigo, Professor Batista Azevedo – mui respeitosamente, um grande profissional da área educacional, particular expoente e orgulho da terrinha - conversamos, muito empolgados, sobre a criação da Academia Joanina de Letras.

Na oportunidade, as considerações feitas primavam pelo propósito de reunir nossos intelectuais para tratarmos coletivamente, com cuidadoso carinho, sobre as questões contemplativas de nossa língua, com especial enfoque às produções literárias, incentivo à arte de escrever, apoio às manifestações culturais, e reconhecimento da qualidade valorativa de seus membros, o que aconteceria através de eventos, homenagens e premiações. Outra assertiva colocada em pronta evidência naquela oportunidade, e muito valiosamente fortalecedora do intento, foi a funcionalidade da “academia” como uma instituição voltada à preservação de nossa memória, zeladora do acervo reconhecidamente criativo dos cidadãos joaninos. 

Não nego que o compartilhamento da ideia criativa da academia seja contemplativa de minha vontade em ser um dos acadêmicos, com a necessária humildade que me caracteriza, sem o esplendor de “tornar-me imortal”, à exemplo daquilo que ocorre com a maioria dos membros das instituições congêneres. Embora seja uma vaidosa intenção, tenho consciência de que há necessidade de enquadramento aos critérios estatutários estabelecidos mediante as discussões em reuniões com os demais envolvidos, pessoas que, desde o primeiro momento, foram inclusas em uma listagem de convidados para apreciação da ideia, também seguindo os moldes das academias existentes. É claro que eu e o amigo Batista Azevedo tínhamos em mente a justa certeza de que não deveriam existir precedências privilegiáveis de algum membro. 


Na ocasião, ainda sabíamos muito pouco sobre o assunto, mas conhecíamos alguns importantes itens do estatuto da Academia Brasileira de Letras, como por exemploaquelequeestabeleceaoscandidatos àvaganainstituição, anecessidade de ser brasileiro nato e ter publicado, em qualquer gênero da literatura, obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livros de valor literário. Esse detalhe levou-me a dedicação mais resolutiva da edição de meu primeiro livro, Revérbero Amarelo, que se fez realidade, embora com alguns pormenores pendentes quanto ao ISBN, pois a gráfica relaxou este importante detalhe, mas que está em trâmite, junto à Câmara Brasileira do Livro. Apressei-me na divulgação, pelas redes sociais, de alguns trabalhos que habitualmente faço com dedicada paixão: escrever e postar meus textos reflexivos, notas e poemas – retratos de mim em aproveitamento da inspiração que o dom instiga e o hábito constrói, mesclando as qualidades e defeitos de todos os artistas.

Depois de algumas investiduras, ao longo destes anos, juntamo-nos a outros expoentes joaninos e caminhamos, determinados e bem confiantes, para a elaboração do estatuto e criação da então nominada “Academia Joanina de Letras, Ciências e Saberes Culturais”.     Estão conosco, os respeitáveis futuros acadêmicos, perfis do mais puro ajuste aos preceitos institucionais: Manoel Martins, Edinete Alves, Gracilene Pinto, Flavio Braga, Sharlene Serra, Damasceno Júnior, Raimundo Cutrim, Evando Cutrim, Dilercy Adler, Gilberto Matos Aroucha, José Eulálio Figueiredo, Jersan Araújo, Raimundo Correia Cutrim, Ana Márcia Ferreira, entre outros profissionais que também labutam com as artes, ciências e os saberes culturais, componentes iniciais de um quadro que estará completo até o dia previsto para a fundação e que se seguirá preenchendo condignamente o número de cadeiras, na medida em que surgirem candidatos a atenderem os requisitos. 

Todos nós comungamos as ideias mais promissoras quanto à promoção da literatura, leitura, educação, defesa consciente do meio ambiente, dos patrimônios artístico, cultural, histórico, turístico, paisagístico de nosso município, além de nos mostramos desejosos de investir na manutenção de intercâmbios com as demais entidades nacionais, realização de seminários, cursos, encontros que congreguem expoentes das atividades culturais, proporcionem condições de produtividade e livre debates de ideias.

Até o momento, temos definidos alguns nomes para Patronos das Cadeiras Acadêmicas. Personalidades escolhidas para    serem inicialmente as homenageadas, por terem expressivo destaque e marcado verdadeiramente a história joanina: José Maria de Araujo, Francisco Figueiredo, Antônio Santos Jacinto, José Ribamar Dominici, Onezinda Castelo Branco, Fran Figueiredo, José Souza Martins, Iracema Ferreira de Araújo, Arthur Marques Figueiredo, Creusa Costa Araújo, Maria Creusa Santos Jacinto, Padre Domingos Tibúrcio, Padre Dante Alligiere Lasagna, Suvamyr Viverkananda Meireles, José Brígido da Silva Neto, entre outros.

Em reuniões conectadas, nós, os membros fundadores, conhecedores das limitações do nosso município quanto à militância puramente literária, resolvemos ampliar o leque de abrangência da academia, certos de estarmos investindo em uma expressiva referência no mundo cultural de nossa cidade, porque a academia simbolizará o assento da historicidade de nosso povo, preconizando um caminho venturoso para aqueles que se empenham nas artes, ciências e nos saberes e divulgação da cultura como grandes ideais de suas vidas!

A fundação e posse dos primeiros acadêmicos está prevista para o dia 29 de outubro – Dia Nacional do Livro, em sessão solene, com a honrosa presença das autoridades municipais e convidados, podendo se constituir, talvez, com o apoio de representantes do Poder Público e de empresários locais, um dos mais significativos eventos da nossa querida São João Batista!

Nós merecemos!

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Mais um Junho sem tambores...

 Por Marcondes Serra Ribeiro

 

Mês de junho começa com as tristezas acumuladas ao longo desse exasperante período de pandemia e entristece-nos bem mais, pois sabemos que as diversões desta época festiva, tão particularmente joanina, maranhense, e “baixadeira", não poderão acontecer mais uma vez. Continuamos medrosamente aquietados em necessário distanciamento físico. A pandemia do Covid-19 estende-se sobre 2021, sequenciando nossas preocupações, contenções, perdas doridas e transformações significativas da vida.

Os fogos e as fogueiras, os espaços arraialescos, largos decorados em multicores, as diversas e cativantes danças e folguedos, as manifestações folclóricas próprias da época - animadas, eufóricas, contagiantes - as típicas comidas regionais que atiçam a gula e a curiosidade gastronômica, embelezando, e enriquecendo a cultura brasileira, principalmente a nordestina, sobremaneira a maranhense, permanecerão aquietadas.

A fogueira pandêmica sabreca nosso mês festeiro - curtido pela maioria, especialmente pelos turistas que escolhem estas plagas buscando diversão e satisfação de curiosidades; silencia tambores, matracas, orquestras, sanfonas, pandeirões e as vozes de nossos típicos cantadores; aquieta as coreografias diversas das caprichadas e empolgantes danças; acomoda as panelas nos armários, tripés e prateleiras,  guarda os ingredientes e os temperos que resultariam em comidas deliciosas; eclipsa o brilho e a profusão das cores, paetês, miçangas, canutilhos, cetins, acetatos e chabu nos fogos de artifícios e bombinhas;  inibe a criatividade, a alegria de um povo que espera junho com toda disposição em ser feliz! Frustra nossa cultura em sua pujança mais admirável, deixa-nos esperançando o festivo retorno, sem data, forçosamente “sine die”, até que esse maldito vírus seja definitivamente vencido, pelos poderes de Deus Pai!

Toda esfuziante alegria hibernará em lamentoso sufoco, à espera do ano vindouro, para acontecer com diversão dobrada, descontando a quietude forçada desde o ano passado. Amante de junho, meu mês preferido, lamentoso, eu me pergunto: até onde se estenderá os malefícios do COVID-19? Faço uma prece aos santos juninos e peço-lhes que redobrem as forças celestiais contra essa amaldiçoada e calamitosa pandemia!

terça-feira, 1 de junho de 2021

DOEGNES SOARES, como não sentir saudades?

 Por Ana Creusa

 


Vem, Doegnes, cante pra gente“, assim foi a recepção dos anjos celestiais a um dos maiores ícones da cultura popular maranhense, Doegnes Soares, faleceu na manhã desta segunda-feira, 31 de maio, vítima da Covid-19.

A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace. (Victor Hugo)

O artista pinheirense foi internado na última semana tendo seu caso agravado. Ele foi entubado na UTI do Hospital Macrorregional da Baixada, onde veio a óbito.

Doegnes cantou e encantou a Baixada Maranhense. Dono de uma voz inconfundível. Era carinhoso e amigo. Sempre vestido em cores vibrantes, que resplandeciam a beleza de seu coração puro. O seu público sempre o recebia com o tradicional: “Vem, Doegnes, cante pra gente”.


Doegnes Soares era filho de José Martins Soares, que atendia pela alcunha de Zé Macaco, e Dona Catarina Amorim. Filho de uma família de 7 irmãos. Sua esposa é conhecida carinhosamente como Dona Bebel. Deixa 3 filhos: Guiguito, Júnior e Diná.

Desde garoto percebeu que nascera com um dom raro. Segundo a sua mãe, Doegnes  iniciou a vida artística tocando tambor, com o pai, que era motivo de grande alegria ao seu José Martins.

Certa noite, depois de uma de apresentação, o pai de Doegnes disse à sua esposa, se referindo ao filho:

Ah, minha mulher, agora eu posso me despreocupar porque eu já tenho quem fique no meu lugar, porque meu filho tocou 3 marchas de tambor que eu chorei demais, foi a coisa mais linda que eu já vi na minha vida.

Seus cantos não demoraram invadir os carnavais e diversos festivais. Integrou a Super Banda Miragem. Participou de bandas e grupos musicais de Pinheiro e de toda a região. Recebeu propostas de outros estados, mas preferiu não deixar sua família, seus amigos, seu torrão. o artista sempre se orgulhou da arte da qual fez sua profissão, e repetia com orgulho:

Eu nasci com um dom do canto. E que, modéstia à parte, também faz parte da História de Pinheiro e que se adaptou à evolução da cidade.

Doegnes passou a ser presença marcante e indispensável nas apresentações na Baixada Maranhense, para a qual dedicou a sua vida e arte. Deixa saudades. O consolo é que a sua obra está imortalizada  nos corações e mentes da Nação Baixadeira.

domingo, 30 de maio de 2021

CORPO SÃO, MENTE NEM TANTO

 Por José Carlos Gonçalves

 

Em minhas andanças, invariavelmente ministrando aulas e imbuído de tamanha curiosidade, travei conhecimento com algumas crendices e práticas, que vieram somar-se às conhecidas de minha infância e adolescência e que se cristaliza(ra)m num "patrimônio inestimável", principalmente, do "povo baixadeiro".

O início de tudo, assustador, na minha infância, foi eu ser submetido ao sulfato de sódio, às primeiras horas, para que se processasse uma limpeza no corpo, e esperar ... "a reação".  Estava, assim, condenado a "não botar a cara pra fora de casa".  No entanto, o que mais me intrigava era a função infalível da chave da porta principal da casa, guardada firmemente, na mão, com o intuito de evitar o "baldear". Quão horríveis eram aquelas situação e "gororoba"!

Mas ... "há gosto pra tudo", e crenças para todos os gostos!

Fácil, então, é entender por que no nosso cotidiano, "as manias" sucedem-se. E uma das mais comuns, que nos acompanha, a bem da verdade, é o temor/terror de perdemos nossa mãe, por deixarmos a "chinela emborcada"! Quando não muito, pode causar-nos um "baita azar". Logo, é melhor não "se arriscar-se"!

 Nesse amálgama de sensações, encontram-se algumas situações bem pitorescas como uso de "chás de bosta de cachorro e de cu de barata", que "se não matam, engordam".

Um papel de destaque, nesse cenário, têm as crianças (e suas diligentes mães), já que são protagonistas de uma série de "procederes", que se apresentam fantásticos. De forma que se encontram mães desesperadas, "sem saber mais o que fazer" com as suas mijonas. Porém, isso é "moleza": basta que as banhem debaixo de suas "redinhas", quando lavadas e “sorvadas" "à buraçanga", para não mais encharcá-las nas frias madrugadas. Outras mães buscam socorro no pilão, "socando" os seus "pequeninos", por três vezes, às sextas-feiras, visando desencambotar-lhe as pernas. Há as mães que colocam um "pintinho" nas bocas dos rebentos, permitindo, assim, que "desenrolem" a fala. Já as mães, que precisando amansar a brabeza,  dão-lhes um banho com água dormida "ao sereno". Como diziam os mais velhos, "é batata!"

Entretanto, não acabou o "arsenal"! Deparo-me, constantemente, com o "lado" médico-científico, que socorre as mães e salva as crianças, "aos montes". "Um verdadeiro tratado de medicina", em que as mães se apoiam contrita e sabiamente. Assim, cura-se a "rutura do imbigo", passando um pano, um "cueiro", "enroladinho”, por cima do umbigo, e depois o deixando (o pano) debaixo de um "pote". Para acelerar a cicatrização do umbigo, usa-se "a casa do marimbondo", invólucro feito com terra, que em três dias o milagre está feito. Ninguém duvida da infalibilidade da folha de coentro, morna, em forma de "um charutinho”, que, colocada dentro do ouvido, ameniza, se não elimina, os incômodos causados pela otite. Já as crianças, com dor de cabeça, são curadas com o leite e as folhas, "novinhas", de pião roxo, colocados em suas "fontes". As sementes de mamão, sim, senhor, são o melhor antídoto para lombrigas; e a "tosse braba" é curada pelos "bons fluidos" de um cordão feito com pedaços de tamboeira, do milho (...)

Infelizmente, algumas práticas estão desaparecendo com o avanço da tecnologia, que torna cada um de nós um cientista, um incrédulo, um indiferente. Por isso, já não se cospe no fogo, ao degustar a deliciosa melancia, evitando a "enjoada" dor de barriga; nem se toma, em jejum, "mijo" de vaca preta, curando a sufocante asma; nem se "caça" melão de São Caetano, para eliminar a "pira de cachorro"; nem se planta arruda, para,  embebida na cachaça ou tiquira, quebrar o mal olhado, desaparecer com a "izipra", erguer a  espinhela caída, fechar a arca aberta; ou chá de buchinha, com suas mil e duzentas utilidades; ou  ... o uso do  chá do bico do pica-pau!

Bom, isto é assunto para outra crônica!

(*) José Carlos Gonçalves é professor e escritor.

sábado, 3 de abril de 2021

MALHAÇÃO DE JUDAS

 Por Marcondes Serra Ribeiro

 

Romper a aleluia era um temor em meus tempos de criança, porque não sofríamos castigos durante a semana, até a chegada do sábado, quando pagávamos pelas traquinagens praticadas até a sexta-feira. Qualquer falha cometida, merecia de papai a dura observação: “Sábado a gente rompe a aleluia é cedo!”. Eu sofria por antecipação, pois sabia que aquela promessa seria penosamente cumprida e rezava para que fosse da forma menos padecente, entre a palmatória, a corda de sisal molhada e a pitanga, nem sei qual preferia.
  A Semana Santa, de banhos nos campos, deliciosas tortas e os castigos da aleluia, também tinha outros esperados atrativos!

Recordo-me dos tempos em que no Sábado de Aleluia, também chamado de Sábado Santo, acontecia a tão esperada Malhação de Judas ou Queima de Judas - um festejo popular que representava a morte de Judas Iscariotes, o discípulo que traiu Jesus Cristo e, por isso mesmo, mereceria a vingança representada folcloricamente por dolorosa morte.

Era uma comemoração alegre, bem articulada em sua extemporaneidade e transposição à realidade, onde a representatividade do ato da traição revestia-se de ansiedade e muita curiosidade em saber qual figura ou personalidade da vida pública seria contemplada com a vingança popular e amanheceria enforcado, pendurado em poste ou árvore de local movimentado, com a devida placa de identificação, para ser “malhado”, em ritual de queimação do boneco.

Os escolhidos pelos organizadores da tradicional brincadeira eram especialmente as autoridades, os políticos identificados como traidores da população, por seus atos corruptos e merecedores de serem representados por bonecos de panos, confeccionados caprichosamente, com detalhes na indumentária e nos acessórios, que os lembrassem bem.

Para dar mais ênfase à brincadeira, era comum colocarem bombas no enchimento do boneco, que explodiam durante a queima, sob a gritaria dos presentes. Interessante e bem aguardado antes da queimação do Judas era a leitura de seu testamento, com as últimas vontades quanto à disposição de seus bens, contemplativo de algumas pessoas da comunidade, com itens especialmente adequados à cada uma.

Assim, eram “deixadas” dentaduras - para quem estivesse banguela; dinheiro – para quem tivesse dívidas a pagar; cintos – para quem andasse com as calças caindo; óleo de peroba – para quem tivesse pouca vergonha; cuecas – para quem tivesse sido flagrado com as suas rasgadas; óculos escuros – para quem gostasse de exibir-se com um e outras coisas que se ajustassem ao herdeiro ou herdeira. Era uma alegre festividade popular que não deveria estagnar no tempo!

Se a brincadeira prosseguisse e chegasse aos dias atuais, não faltariam elementos que preenchessem os requisitos da “homenagem vingativa”, pois autoridades corruptas existem em profusão – verdadeiros “Judas”, traidores que caem no desagrado do povo.

sábado, 20 de março de 2021

Considerações sobre a nossa Educação

Por Marcondes Ribeiro Serra

É necessário lembrar, a priori, que nosso Brasil é um dos maiores países do planeta, o quinto em área territorial e o sexto em população - grandezas que realçam a profunda diversidade vivida pelos brasileiros, em muitas expressões. A educação tem sido um grande problema, consequência direta da desigualdade social onde uma minoria é favorecida e a maior parte, prejudicada, que se arrasta sob o peso das soluções paliativas mantidas por gestões fraudulentas, incompetentes e desumanas.

Em 2020, nos últimos dias de fevereiro, quando o surto pandêmico repentinamente nos atingiu, sentimo-nos sem condições de iniciar o ano letivo, previsto para a primeira quinzena de março, situação diferente de algumas localidades e algumas instituições educacionais, que suspenderam as atividades e puderam montar um esquema funcional obediente às orientações preventivas, retomando o processo educacional de forma remota – o que lhes dá créditos para a discussão do significado e operacionalidade do ensino conectado.

Fazemos parte do grupo que atendeu precariamente a necessária mudança. Um quantitativo ínfimo de nossos alunos participou das escassas atividades impressas propostas, visto que a falta de recursos tecnológicos por parte de muitos alunos e o conhecimento adequado das ferramentas, por parte de muitos professores, influenciaram na condução das aulas conectadas. Faz-se mister colocar que já tinham atendimento escolar muito inferior ao desejado. Com o surto do Covid-19, o resultado para nosso alunado foi desastroso. Essa situação conduz-nos à obviedade de que precisamos de um Plano de Trabalho para 2021 que implique em atenuação dos efeitos pandêmicos, minimize as perdas resultantes do ano passado não trabalhado, diferentemente daqueles que fizeram alguma coisa. Temos a distinta obrigação de empregar todo esforço possível no disciplinamento da prestação do trabalho professoral, acompanhar a funcionalidade de nossas escolas, adapta-las estruturalmente, para ofertarmos a melhor educação - a maior ferramenta para a formação do cidadão.


Enquanto durar a pandemia, não poderemos ter aulas presenciais nos moldes de antes. Se a opção for o processo híbrido, precisaremos ter todos os cuidados na aplicação dos protocolos preventivos, isto todos sabem, como também são conscientes que a forma de ensino à distância contrasta com a presencial, porque ocorrem dúvidas no processo comunicativo propensas à não identificação do professor e consequente prejuízo no aprendizado. Presencialmente, o docente tem muito mais possibilidades de perceber quando não há entendimento do assunto exposto e condições de promover explicações e exemplificações que esclareçam as dúvidas constatadas, engrandecendo mais facilmente o aprendizado. É de grande conveniência a observação quanto a ausência de recursos suficientes por parte das escolas e de muitos responsáveis dos alunos para implementação das estratégias de educação a distância e isto implica em exclusão, situação que desconfigura a aplicação democrática do direito à educação.

Poderíamos aproveitar a situação imposta pela necessidade de mudar a forma de condução do processo educacional e extinguirmos as classes multisseriadas. Muitas escolas de nossa rede ainda trabalham com esse sistema - uma forma organizacional de ensino na qual o(s) professor(es) trabalha(m), na mesma sala de aula, com várias séries do Ensino Fundamental ao mesmo tempo, atendendo alunos com idades e níveis de conhecimento diferentes. Ainda é adotado no Brasil em significativo número de localidades e total de alunos, mas não é exclusividade brasileira. Países como o Canadá e alguns europeus adotam o sistema, para permitir que a população de áreas rurais tenha acesso à Educação, fundados em explicações como dificuldade de acesso, baixa densidade demográfica de algumas regiões e o consequente pequeno número de alunos, que inviabilizam a criação de turmas voltadas ao atendimento de séries ou anos específicos.

 Julgo a necessidade de manutenção do sistema como um problema que emperra o progresso da educação nacional, especialmente a joanina, porque o aprendizado é bem mais lento, muito conturbado, quase inexistente. Os desafios enfrentados são grandes, sobremaneira a prática docente, onde o professor precisa “se virar no turno” para dar conta de vários níveis de aprendizagem, aplicar as atividades de cada ano, resultando em muitas ações para um espaço de tempo que se torna exíguo. Classes diferentes ocupam o mesmo espaço, a mesma sala de aula, algumas vezes com professores diferentes. Enquanto um fala, o outro cala! Mas a situação típica do processo é como a nossa, em que o mesmo professor tem a responsabilidade de trabalhar com todas as séries – o que resulta em menos aproveitamento dos conteúdos.


Seria até aceitável a composição de uma classe com alunos de duas séries, no máximo. Mas a manutenção do sistema, com três ou mais séries, é improdutivo e absurdo. Temos classes multisseriadas com crianças da Educação Infantil e outras dos primeiros anos do Ensino Fundamental. Um verdadeiro despautério!

Em ambas as situações, há inconveniências e dependências de maior preparo e esforço dos professores. É muito difícil trabalhar em uma sala extremamente heterogênea contemplando todos os alunos, independentemente do nível de conhecimento de cada um. É difícil estabelecer uma divisão do tempo didático eficazmente. Enquanto uma parte da turma, constituída por alunos de determinada série está recebendo explicações ou desenvolvendo uma tarefa, os alunos de outra série estão desocupados e mesmo que tenham uma atividade para desenvolver, ficam desconcentrados, pela interatividade que o professor tenta exercitar com a série que trabalha naquele momento. A concentração fica limitada e o processo além de ser lento, acaba sendo prejudicado, pois não há como desenvolver um assunto sem interrupções. Como professor, afirmo que não é fácil para as crianças se concentrarem em uma tarefa com a professora explicando matérias diferentes aos colegas.

A maioria dos professores tem dificuldades de realizar atendimento individual aos estudantes e planejar as aulas de várias séries e diferentes níveis do Ensino Fundamental para uma mesma turma. A falta de material didático e bibliotecas no ambiente rural também é um entrave rotineiro na realidade das classes multisseriadas. O resultado é exatamente aquele que vem se perpetuando e crescendo ao longo de cada ano letivo: déficit de aprendizado.

Os professores do Ensino Médio são testemunhas do quão desprovidos de conhecimentos fundamentais são os jovens egressos das escolas públicas, que chegam a este nível mais avançado, tanto aqueles que provém do seriado, quanto do multisseriado, mesmo quando compõem classes de número reduzido de alunos. Normalmente, as classes do Ensino Médio têm número elevado de alunos e essa realidade quantitativa dificulta o trabalho nesta etapa, acarretando no insucesso da Educação Básica, o que leva os poucos interessados e os possuidores de melhores condições financeiras a implementarem seus estudos, com vistas ao ingresso no Ensino Superior em aulas particulares e dedicadas horas de estudo.


Com convicta certeza, o aprendizado poderia ser melhor se erradicássemos o sistema de classes unificadas em um só espaço. Se cada turma ocupasse uma sala de aula, seria bom para o professor e para o aluno, bom para a EDUCAÇÃO.

O sistema multisseriado interfere no processo de aprendizado de forma prejudicial. Onde for possível a instalação do seriado, que seja feita. É de bom alvitre o reconhecimento de que é melhor que nada, mas deve ser mantido somente onde lamentavelmente funcionalidade do seriado seja difícil, no entanto, com a implantação de programas e projetos de letramento, melhor capacitação dos professores que atuem nessas classes e reforço com professor de apoio, como alternativa de melhorar seus resultados.

Aproveitemos as necessárias mudanças no processo educacional e erradiquemos nossos problemas cruciais, a fim de evoluirmos. Mudar é para gente inteligente, desprendida e aberta ao racional empreendedorismo, afinal, os bons resultados sempre promovem a felicidade de todos!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

A ascenção do caboclo mamador

 Por Antônio Francisco de Sales Padilha (*)

 

A tarde findando, passando o bastão para a noite que espreitava o momento de entrar em cena. O sol refletia seus exuberantes raios avermelhados nos coqueiros da casa de Luís Brenha. Os coqueiros balançavam como se estivessem dançando para anunciar que a noite seria clara, a brisa leve e quem sabe as estrelas cintilariam e clareariam a mente de Rodolfo, um belo mancebo, que além da beleza, gabava-se de sua arguta inteligência. “Tudo que quero, eu consigo” afirmava sempre, orgulhoso de sua tenacidade, que, às vezes, podia lhe colocar em situações embaraçosas, mas sempre resolvidas da melhor maneira plausível, o que lhe levou a pensar que além da beleza, seria o mancebo mais inteligente daquelas plagas.

Eduardo, sabedor de que Nizete, afamada mãe de santo da cidade, estaria mandando bater tambor nessa noite, convidou Rodolfo para assistirem à cura, pois, na roda do candomblé, sempre acontecia “cura” de alguém que se encontrava enfermo - mais de doenças psicológicas do que físicas, quando o doente recebia umas boas baforadas de charutos, acompanhadas de rezas, benzimento e era envolvido pelas energias dos seres espirituais (encantados) atraídos pelos chamamentos e que costumavam baixar no terreiro.

Rodolfo arrumou-se, vestindo uma calça bem colada, a la Dória, apertada o suficiente para lhe deixar andando todo empinado e uma camisa polo, onde ficavam evidentes seus músculos peitorais avantajados, resultado de boas horas de treinos na academia de Lulu (o atleta). Arrumou seu cabelo, corte imitado do Dr. Hollywood, benzutado com uma generosa quantidade de creme de pentear para preservar a mecha de cabelo caindo no fugaz olho verde esquerdo, borrifou seu perfume Cabrochard , adquirido no mercado Ver o Peso em Belém do Pará, que exalava o aroma da floresta amazônica, lhe deixando irresistível, tal qual o Boto em dia de lua cheia.

A uns trezentos metros do terreiro de Izete, já se podiam ouvir o tilintar dos tambores, palmeados com energia e sensibilidade, principalmente por Nhô Nhô, que não somente tocava o seu atabaque como, tal qual o Maestro Herbert von Karajan, dirigia grupo de músicos que compunha a orquestra do terreiro, orgulho de Nizete, que fazia questão de dizer: nenhum terreiro tem uma parelha de tambor como a minha.

Rodolfo, ao chegar, chamou à atenção das meninas que gostam de meninos e dos meninos que gostam de meninos, tanto bela beleza física, pela calça apertada, que mostrava o contorno da cueca e de outras coisas mais e pelo aroma do Cabrochard que inundou o recinto, abafando e intimidando o fraco cheiro do defumador que tinha sido lançado no ar, antes do início dos trabalhos, para purificar o ambiente.

A certa altura, Nhô Nhô deu entrada para a orquestra, que prontamente respondeu ao seu gesto atacando a tempo o ponto (intróito convidatórium) de entrada das mães, pais, filhos e filhas dos santos, que em passos processionais, adentraram no centro do terreiro.

Todos vestidos de branco, com exceção de Ivete e Alzira, uma jovem branca, de 1,65 cm de altura, com seus 50 kg bem distribuídos, bunda arrebitada, pernas grossas, olhos verdes, lábios carnudos e com os seios protuberantes bem à mostra, o que despertava os instintos mais primitivos de acasalamento de qualquer homem que aprecie e goste de mulher, que vestiam vermelho escarlate.

Alguns dos pais e filhos de santos que gostam de homens, já tinham até pedido para Mãe Ivete que não aceitasse Alzira na roda do tambor, pois ela desviava à atenção dos visitantes do terreiro da verdadeira função do culto, pois ninguém prestava atenção nos trabalhos, pois todos ficavam inebriados com a beleza e a leveza da dança de Alzira. Rodolfo não foi exceção. Ao olhar os seios de Alzira, foi tomado por uma excitação tão forte que não se conteve, nem titubeou e afirmou ao Eduardo:- queres apostar quanto como vou chupar o peito daquela mulher? Indicando Alzira como a escolhida.

Eduardo, conhecedor dos princípios que regem um ritual de terreiro, e sabedor que isso seria impossível, afinal Alzira era casada, não teve dúvida. - Aposto 300 reais como tu não consegues. Trato feito, afirmou Rodolfo, já revirando os olhos e tremendo o corpo como se estivesse sido tomado por um ataque de epilepsia. Jogou-se no chão de terra batida, deixando empoeirada a bela cabeleira e a calça, que por pouco não se partiu. Alguém gritou: - ele tá no santo, ele tá no santo.

Como um animal, que se finge de morto para enganar seu algoz, Rodolfo deu um salto tão alto que pareceu mesmo que estava no santo, quem sabe um caboclo pulador, e após uns três rodopios no terreiro começou a cantar:- “eu sou o caboclo mamador, eu sou o caboclo mamador, eu vim prá mamar, eu vim prá mamar, eu vim prá mamar, eu vim”. E a cada vez que entoava seu canto, agora mais portentoso, com um arranjo feito incontinenti por Nhô Nhô, que percebeu a importância daquele momento, Rodolfo se aproximava dos seios de Alzira, que não se sabe se, em respeito ao santo ou, inebriada pelo Cabrochard de Rodolfo e pelo seu hálito de cravinho, que ele costumava mascar para deixar o hálito agradável, quando ia encontrar uma parceira, permitia que Rodolfo, vez por outra encostasse muito de leve o nariz em seu peitoral.

Os assistentes da performance percebendo a intenção de Rodolfo, começaram a comentar: esse caboclo vai mamar; ora se vai; ninguém pode impedir um santo de fazer o que ele quer quando ele baixa. A cada volta que dava no terreiro, Rodolfo rodopiava e se aproxima mais e mais de Alzira, que nada poderia fazer a não ser abaixar um pouco o vestido vermelho e deixar o mamilo à mostra para que o caboclo mamador cumprisse o seu desiderato. Manequinho, marido de Alzira, começou a se incomodar com aquela situação. Como ficaria sua reputação se o caboclo mamador conseguisse seu intento?

Lembrou de Raimundo de Dico que, apesar de casado, saia toda noite para a parte do quintal onde ficava o pergolado de madeira para sustentar a plantação de maracujá e a mulher desconfiada, em uma noite de lua cheia, seguiu e encontrou Mamede montado em cima dele. A mulher, estupefata, perguntou: - o que é isso, seu safado? O marido, se soltou de Mamede, levantou a calça e fingindo que estava no santo respondeu:- não sou eu, mulher, é caboclo do maracujá. Mesmo assim, a mulher não respeitou o santo e lhe encheu de bordoadas com o cabo de vassoura e ele ficou muito falado na cidade. Por onde ele passava ouvia algum engraçadinho dizer:- lá vai o caboclo do maracujá. Ora, Ora, todo mundo vai me chamar de corno de santo, pensou Manequinho. Não, não posso deixar isso acontecer.

Como que tomado por um insight inconsciente freudiano, Manequinho caiu no terreiro tão desajeitado, pareceu mais um saco de batatas, mesmo assim, não se fez de rogado, foi se levantando lentamente e meio desengonçado começou a dançar. Manequinho rodopiou e conseguiu chegar bem perto de Rodolfo que estava praticamente com a cabeça bem posicionada para atingir os seios de sua esposa e se dirigindo bem pra perto do ouvido de Rodolfo, iniciou seu ponto: eu sou o caboclo comedor, eu sou o caboclo comedor, eu vim pra comer eu vim pra comer o fiofó do caboclo mamador. Rodolfo, ao perceber a enrascada que tinha se metido, afastou-se de Alzira e se estatelou no chão, revirando os olhos e começou a gemer. Os presentes começaram a gritar: “tira ele da roda, tira ele da roda que o santo foi embora”.

Rodolfo, discretamente, com os olhos entreaberto viu Alzira deslizando no chão batido, parecia agora uma bailarina dançando a morte do cisne (ou seria do guará?) de Camille Saint Saëns   ”a cada instante, devemos morrer, e deixar morrer aquilo que já não tem mais sentido dentro de nós, guardando a devida beleza de termos feito parte do grande espetáculo da Vida”.

Rodolfo teve que deixar morrer a sua prepotência de que tudo ele podia e que era mais inteligente de que os outros, pois, nesta vida, sempre haveremos de encontrar alguém mais inteligente que nós, onde a gente menos espera.

(*) Natural de São Bento, escritor, maestro, professor e Doutor em Música.

sábado, 23 de janeiro de 2021

AS VELAS DO RIO PINDARÉ

 Por Expedito Moraes (*)



Na minha infância passava horas e horas espiando a subida dos barcos no rio Pindaré.

Surgiam de repente no estirão, quase que na preamar, e o rio se transformava em uma imensa passarela com espetaculares desfiles de barcos. Não sei de onde apareciam tantos. Vinham em bando, um atrás do outro, deslizando silenciosamente com seus panos (velas) de lona triangulares em cores diversas: azul, encarnada, amarela, branca, verde, marrom; com seus cascos bem crenados e pintados com tintas de tons fortes; com nomes escritos com letras bem desenhadas de santos, de estrelas, de mulheres, de peixes, de amores... era um colorido fantástico.

Estes barcos, não motorizados, dependiam das forças da natureza ou das mãos humanas. Hora empurrados pela força das marés (pororocas) que invertiam a corrente do rio e, dependendo das fases da lua cheia ou nova, a velocidade da correnteza rio a cima era muito maior e permanecia durante quase 3 horas elevando a lâmina d'agua até o cimo da barreira, principalmente entre os meses de setembro a dezembro. Nesses dias, entre às 11 e 12 horas da noite ou do dia, quando a pororoca vinha ouvíamos o ronco da “bicha” à distância. Era um "Deus nos acuda". Vinha "lambendo barreira" com mais de cinco metros de altura.

Outras horas eram empurrados rio a cima pelo vento que, quando forte, estufava seus panos e imprimia maior velocidade. E, dependendo do sentido que sopravam, em cada estirão singravam as águas em reta ou bolinando, movimento que consiste ir de uma margem a outra aproveitando a força do vento e que exige do governante uma destreza enorme de lidar com o leme e a mudança do pano de um lado para outro no momento da manobra, que não sendo sincronizados pode causar sérios acidentes, inclusive o naufrágio ou encalhamento da embarcação.

Na falta do vento os barqueiros o chamavam com assobios agudos. E quando este não vinha o jeito era usar a força dos braços vogando ou empurrando à vara. As varas de mais ou menos 7 metros eram usadas pelos barqueiros com o barco abeirando as margens até uma profundidade máxima da metade da vara, de modo que a ponta ficasse à altura do peito e apoiada na mão em concha sobre o tórax empurravam o barco rio acima e contra a correnteza.

Esses tipos de embarcações eram lentos e subiam o rio carregados de sal grosso, querosene, pedras de amolar e outras mercadorias. Passavam dias e dias viajando entre a "Cidade" - expressão ribeirinha interiorana para se referir a SÃO LUÍS -  e o Pindaré. Por onde passavam vendiam suas cargas. Comprávamos o sal em latas de querosene, depois socávamos no pilão pra salgar peixes, carnes, que depois pendurávamos na ponta de um caibro do lado de fora da casa para escorrer a salmoura.

Saudades disso. Não existe mais.

(*) Expedito Moraes é natural de Cajari. É administrador e ex-Deputado Estadual.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

TOMOU A VACINA AMARRADO QUE NEM GADO CONTRA AFTOSA

 Por Nonato Reis

 

Imagem ilustrativa/O Globo


As cenas de pessoas vociferando contra vacinas anti-Covid-19 e até maluquices como achar que, recebendo o seu princípio ativo no organismo, o sujeito pode sofrer mutações, a ponto de se transformar em réptil, remetem, inevitavelmente, a um tempo distante no Brasil, quando os moradores eram vacinados à força.

Isso aconteceu em 1904, no Rio de Janeiro, com a primeira campanha de vacinação em massa no país, para combater a varíola, que grassava na cidade. O episódio, considerado épico pelo seu ineditismo, fora patrocinado por agentes sanitários, que invadiam as casas e vacinavam as pessoas que nem gado.

Culpa do governo federal que não teve o cuidado de preparar a população, informando-a devidamente sobre a vacina e a sua importância no combate à epidemia. Boa parte da população não sabia do que se tratava e temia ser infectado pelo vírus da doença a partir da injeção, e essa desinformação acabou por provocar uma grande reação popular, que entrou para a história como a “Revolta da Vacina”.

A origem das vacinas remete ao século 10, na China, quando surgem os primeiros vestígios do uso de imunizantes, com a introdução de versões atenuadas de vírus no corpo humano. Só que a técnica aplicada nem de longe lembrava os métodos atuais. Os chineses trituravam cascas de feridas provocadas pela varíola e assopravam o pó, com o vírus morto, sobre o rosto das pessoas.

O termo “vacina” surgiu pela primeira vez, em 1798, a partir de uma experiência do médico e cientista inglês Edward Jenner. Ele ouviu relatos de que trabalhadores da zona rural não pegavam varíola, por haverem contraído a versão bovina, de menor impacto no corpo humano. Então introduziu os dois vírus em um garoto de oito anos e percebeu que aquilo tinha de fato uma base científica. A palavra vacina deriva justamente de Variolae vaccinae, nome científico dado à varíola bovina.

O certo é que, apesar de comprovadamente eficazes, e de produzirem reações mínimas no organismo das pessoas, as vacinas, até hoje são recebidas com desconfiança por parcelas da sociedade. Só para se ter uma ideia do tamanho dessa resistência, uma pesquisa de 2014, feita a pedido do Ministério da Saúde, mostrou que a média de vacinação no país era de 81,4%, enquanto que entre os mais ricos ficava em 76,3%.

 Se nas grandes cidades há rejeição contra as vacinas, imagine-se nas localidades da zona rural de difícil acesso. No Ibacazinho dos anos dominados pela luz do querosene, tomar vacina era um drama. Eu mesmo atravessei toda a infância sem receber um soro imunizante, sequer. Não por que temesse algum efeito colateral, mas por sentir pavor de injeção. Só de olhar uma seringa com agulha eu tremia feito vara verde.

Lembro de uma campanha de vacinação contra sarampo levada a efeito no início dos anos 70. Os moleques eram resgatados de dentro do mato, como se fossem rês desgarradas do rebanho. Sebastião Xoxota, personagem do romance “A Saga de Amaralinda”, deu show. Quando os agentes chegaram na casa dos pais dele com aquelas caixas de isopor a tiracolo. Tião fugiu por uma das janelas e desapareceu no mato. O pai, esbravejando, ordenou para os outros filhos: “peguem esse moleque”. Os irmãos se lançaram em perseguição a Tião, rasgando a floresta de cipó e cauaçu, que guarnecia a entrada da casa.

Tião acabou capturado em pleno Cemitério dos Anjos, quando tentou escapulir do cerco pulando entre duas sepulturas, escorregou e caiu. Os irmãos, tendo à frente “Cajueiro, o Grande”, amarraram os pés e as mãos dele com corda de prender garrote e o levaram até a presença dos agentes, que, assim, puderam vaciná-lo. Concluída a operação, um dos técnicos quis saber se a picada doera, ao que Tião reagiu, os olhos faiscando. “Meta um ferrão desse na bunda e o senhor vai ver se dói”.

 

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Djalma Campos, um jogador político.

 Por Nilo Dias

Djalma Campos foi um dos maiores jogadores surgidos no futebol maranhense, em todas as épocas. Nasceu na cidade de Viana e ainda pequeno mudou-se com a família para o bairro do Desterro, no centro histórico de São Luiz. Com apenas 12 anos de idade já mostrava muita intimidade com a bola. Deu seus primeiros chutes no campo frente à igreja do Desterro, junto de outros garotos que se destacaram no futebol do Maranhão, como Santana, João Bala, Jovenilo e Fifi. Jogou depois no São Cristóvão, no Santos e Botafogo do Anil, do “seu Chuva” e no segundo quadro do Esporte Clube Desterro, que era dirigido por seu pai, Djalma Gomes Campos.

A habilidade que mostrou nos campos de futebol foi adquirida nas quadras de futebol de salão. Desde garoto, com 16 anos já se sobressaia no Atenas, time do bairro do Desterro. Quando o Sampaio montou sua equipe juvenil, ele foi convidado a fazer parte dela. Era a época de times como Vitex, Elmo, Flamengo (Monte Castelo), Real Madri e ainda o Drible.

Em 1968, quando já era jogador profissional foi convidado a jogar a Copa do Brasil de Futsal pelo Drible, tendo sido inscrito com o nome do seu irmão Delmar. Como o time não se preparou adequadamente não venceu nenhum jogo, mas ainda assim Djalma foi considerado o melhor jogador da competição. Ele era incomparável com a bola nos pés, não dava chutes à toa e costumava desmoralizar os goleiros com colocadas geniais. Apesar de ter marcado inúmeros gols, sua maior preocupação era armar as jogadas para outros artilheiros.

A primeira oportunidade que Djalma teve para jogar em um dos “grandes” do futebol maranhense foi através do goleiro Campos, que o levou para o Maranhão Atlético Clube (MAC), junto com os amigos João Bala, Santana, Fifi e Jovenilo. Mas não deram sorte, o técnico Calazans nem se dignou a assisti-los jogando. E o quinteto foi parar no Graça Aranha F.C., e por lá permaneceu por um bom tempo.

Anos depois, Calazans teve a humildade de reconhecer que errou ao barrar Djalma no início de sua carreira como jogador. Mas depois conviveu com ele no Sampaio, por isso dizia que o jogador nasceu numa época e no lugar errado: “Se Djalma Campos tivesse jogado num grande centro, com certeza teria sido o dono da camisa 7 da seleção brasileira”.

Em 1968 Djalma já era já era o destaque do time do Graça Aranha, chamando a atenção do desportista Guido Bettega que comprou seu passe e o deu de presente ao Moto Clube. Por jogar no adversário do Sampaio Corrêa, a família inteira de Djalma virou-lhe as costas. Naquele mesmo ano o Moto foi campeão estadual e campeão do Norte. O time formava com Vila Nova – Paulo - Alzimar - Alvindaguia e Corrêa - Ronaldo - Santana - Djalma e Amauri - Pelezinho e Ribamar. Em 1969 o Moto perdeu o título para o Maranhão Atlético Clube.

O Sampaio, que não fazia boa campanha no “Nordestão”, resolveu lançar o “Sampaio Setentão”, um projeto para montar um grande time. O primeiro contratado foi Djalma que ganhara passe livre no Moto Clube. Finalmente, aos 23 anos de idade o jogador vestiu a camisa do time da sua família. E não deixou por menos, encantou a todos, dirigentes, torcedores e imprensa. Era a época dos dirigentes José Carlos Macieira, Humberto Trovão, Ari e Zé Barbosa. O presidente era Rupert Macieira, que substituiu Walter Zaidan. O técnico era o paraibano Edésio Leitão.

Uma curiosidade, é que Djalma, mesmo tendo jogado profissionalmente pelo Moto Clube, não se adaptava ao uso de chuteiras. Para resolver o problema, passou a andar em casa de chuteiras. No gramado, após os treinos ficava sozinho cobrando faltas e aperfeiçoando seus chutes. Mas o Maranhão conquistou o bicampeonato.

Em 1970, já consagrado como um verdadeiro craque foi convidado a concorrer a Câmara Municipal de São Luis. E foi eleito com mais de 2.500 votos. Passou então, a dividir suas atenções entre a política e o futebol. O Sampaio tinha um timaço, onde se destacavam Edimilson Leite, Gojoba e Pelezinho, mas ainda assim o campeão foi o Ferroviário.

Em 1972 o Sampaio Corrêa foi campeão do “Brasileirinho” (2ª Divisão), derrotando o Campinense da Paraíba, no jogo final. Naquela época, o Campeonato Brasileiro da Segunda Divisão não era oficial e não dava acesso à primeira divisão, já que os times disputavam o Brasileirão por convites da antiga CBD, hoje CBF.

Djalma teve oportunidade de se consolidar como o grande ídolo da torcida. Sob o comando do técnico Marçal Tolentino Serra, o time campeão formou com Jurandir - Célio Rodrigues - Neguinho - Nivaldo e Valdecir Lima - Gojoba e Edmilson Leite – Lima – Djalma Campos - Pelezinho e Jaldemir. Destes, Valdecir também já é falecido.

Aproveitando o sucesso, Djalma se candidatou a reeleição na Câmara Municipal. E ai aconteceu um verdadeiro clássico nas urnas. O jogador Faísca, do Moto também concorreu. Todos queriam saber quem venceria esse duelo político. Deu Djalma, que conquistou mais de 4.500 votos, contra 3.100 de Faísca, que também se elegeu.

Depois da conquista do “Brasileirinho” a meta do Sampaio Corrêa era o título estadual. No jogo decisivo contra o Moto aconteceu o inesperado: o goleiro Jurandir pediu dispensa e o reserva Campos estava doente. O atacante Zezé teve que ser improvisado no gol. O resto do time tinha Ferreira – Neguinho - Nivaldo e Eraldo (Valdecy - Gojoba e Edmilson Leite – Lima – Djalma - Pelezinho e Jaldeny (Vamberto). O empate em 1 x 1 deu o título de campeão maranhense de 1972 ao Sampaio Corrêa.

Em 1973 Djalma deu um passo maior na política, concorrendo a deputado estadual. E se elegeu com facilidade, foi o terceiro mais votado, com quase 14 mil votos. No futebol, o Sampaio montou um grande time para disputar o Campeonato Nacional: Orlando (Portuguesa) - Marinho (Paraná) - Moraes (bi-campeão pelo Cruzeiro) - Raimundo e Santos (Portuguesa) - Lourival (Sudeste) - Sérgio Lopes (Curitiba) - Buião (Atlético MG) - Dionísio (Flamengo) - Ailton (São Paulo) e Djalma. Técnico: Alfredo Gonzalez. Preparador Físico: Gualter Aguirre.

Os resultados positivos apareceram de imediato. Jogando em São Luiz o Sampaio Corrêa derrotou todos os times cariocas que enfrentou: Vasco da Gama, 2 X 0, Botafogo , também 2 X 0, Fluminense 3 X 1 e América, 1 x 0. Nesse jogo, já em fim de carreira, Djalma foi autor de uma jogada inesquecível: aplicou uma “barata” (enfiou a bola entre as pernas) do jogador Ivo, que recentemente havia sido convocado para a seleção brasileira. Ivo, até que tentou evitar o vexame, mas não conseguiu. O inesperado sempre fez parte dos desconcertantes dribles de Djalma. O Sampaio, não alcançou classificação porque fora de casa perdeu todos os jogos.

Djalma parou de jogar em 1974. No ano seguinte, quando já era presidente do Sampaio, foi obrigado a voltar aos gramados, porque às vésperas da decisão estadual o meia Joel adoeceu e não havia substituto para ele. Atendendo pedido do técnico Rinaldi Maya, Djalma passou a presidência do clube ao vice-presidente Chafi Braide e voltou a jogar, ajudando o time a vencer o campeonato estadual.

Na decisão contra o Moto o Sampaio venceu por 1 x 0, gol de Acy, quebrando um tabu de dois anos e 11 meses sem vitória sobre o time rubro-negro. Em 1976 Djalma deixou definitivamente os gramados e reassumiu a condição de presidente. O Sampaio sagrou-se bicampeão maranhense.

No Campeonato Brasileiro, o Sampaio contratou para técnico o famoso Djalma Santos. Quando de um jogo no Rio, o treinador deu entrevistas à imprensa falando mal do trabalho desenvolvido pelo clube. Foi demitido na hora. E nem assim os bons resultados apareceram. Pelo contrário, o vexame de duas goleadas seguidas: 5 x 0 para o Volta Redonda e 7 x 1 para o Flamengo. Sobrou para o presidente Djalma Campos que assumiu a culpa pelo fracasso e renunciou ao cargo.

Em 1978 concorreu a reeleição de deputado estadual, mas não venceu. Por volta de 1985, quando Antônio Bento Farias, já falecido vendeu quase todo o time profissional do Sampaio, Djalma foi convidado a ficar no banco de reservas. No segundo tempo entrou em campo e apesar da idade, mostrou toda a técnica que o consagrou como o melhor jogador do futebol maranhense em todos os tempos.

Levantou o público, dando um verdadeiro show com a incrível habilidade que Deus lhe deu, herança dos seus tempos de futsal. Naquela época a televisão não dava a cobertura esperada aos jogos de futebol. Por isso seu talento ficou reservado apenas aos que o viram jogar. Djalma foi um atleta completo. Além de se dedicar inteiramente à prática desportiva, não fumava e não ingeria nenhuma bebida alcoólica.

Em 1988 concorreu às eleições para prefeito de sua terra natal, Viana e venceu. Ao longo de sua vida pública foi ainda diretor executivo e vice-presidente do Instituto de Previdência do Estado do Maranhão (Ipem). Em 2005, como assessor da presidência da Assembleia Legislativa, por gratidão ao deputado Manoel Ribeiro, resolveu assumir ao lado de Humberto Trovão, o departamento de futebol do Sampaio Corrêa.

Por desentendimentos dentro do clube, Djalma se afastou do Sampaio e junto com Isaias Pereirinha e Humberto Trovão ajudou a fundar o Iape, o clube caçula do futebol maranhense, à época na primeira divisão.

Djalma faleceu no dia 7 de agosto de 2009. Eram 5 horas da manhã quando ele se sentiu mal e foi levado pela esposa para o hospital UDI. Lá ele teve um infarto e faleceu. Na noite anterior, o ex-jogador esteve no estádio municipal Nhozinho Santos, junto com o presidente do Iape, Isaías Pereirinha assistindo o jogo em que seu clube derrotou o Sampaio Corrêa por 2 X 1. Djalma, que era diretor de futebol teria dito ao final do jogo: “velho, missão cumprida". Como se soubesse o que iria ocorrer, ao sair do estádio passou pela casa onde seus pais haviam morado, na Rua da Palma no bairro do Desterro, para visitar alguns parentes.

O ex-craque foi velado na rua da Palma, 652, no bairro do Desterro, próximo à igreja. O sepultamento aconteceu no cemitério Parque da Saudade, no Vinhais, onde seus pais estão enterrados. Djalma deixou três filhos adultos do primeiro casamento: Djalma Neto, Soraya e Solange. Do segundo casamento com a vereadora vianense Maria José, teve Fábio.

Texto escrito em 2010 e atualizado com adaptações.