segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O artigo em que Haddad explicou como foi construída a farsa do “kit gay”


O ex-ministro da Educação Fernando Haddad, candidato a presidente da República pelo PT, escreveu um artigo publicado em junho de 2017, que tratou do tema que Bolsonaro explorou e os seus seguidores exploram irresponsavelmente a exaustão, o chamado “Kit Gay”. Bolsonaro insiste em uma fraude, como Haddad detalha. A seguir, um trecho do artigo do ex-ministro:

Sensação semelhante, de percepção dos próprios limites diante de uma situação que indica maus presságios, eu tive em 2011, no Ministério da Educação, durante a crise do chamado “kit gay”. A história toda, a começar pela expressão preconceituosa, é um exemplo de como uma informação falsa pode ser criada (e deliberadamente mantida) com intenções políticas nefastas – e consequências sociais que reverberam até hoje.

A Comissão de Direitos Humanos da Câmara, acertadamente, aprovou uma emenda de bancada ao orçamento, designando recursos para um programa de combate à homofobia nas escolas. O Ministério Público questionou o MEC sobre a liberação da emenda. Só então o MEC entrou na história, solicitando a produção do material a uma ONG especializada. No exato momento em que o material foi entregue para avaliação, eclodiu a crise do “kit gay”.

Desde o início, quem lia as notícias imaginava que aquela era uma iniciativa do Executivo, quando na verdade a demanda havia sido do MP e do Legislativo. Também se sugeriu que o material estivesse pronto e já distribuído, quando sequer havia sido examinado. Expliquei tudo à imprensa e às bancadas evangélica e católica do Congresso, e o mal-entendido parecia desfeito. Despreocupado, viajei no dia 25 de maio a Fortaleza para receber o título de Cidadão Cearense. Então, durante a minha ausência de Brasília, um material de outro ministério, o da Saúde, foi apresentado como sendo o tal “kit gay” do MEC para as escolas. Esse outro material se destinava à prevenção de DST/Aids e tinha como público-alvo caminhoneiros e profissionais do sexo nas estradas de rodagem – com uma linguagem, portanto, direta e escancarada.

O deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) exibiu em plenário a campanha do Ministério da Saúde dizendo que eu havia mentido no dia anterior e que as escolas de Campos dos Goytacazes, onde a mulher dele, Rosinha Garotinho, era prefeita, já dispunham de exemplares para distribuir aos estudantes. Aquilo virou um caldeirão. Gilberto Carvalho, então chefe de gabinete da Presidência, me telefonou alarmado. Eu disse: “Gilberto, pare dois segundos para pensar e se acalme. Isso não existe. O material para as escolas ainda está na minha mesa, não há chance de ele ter sido distribuído.”

Era, evidentemente, uma armação, explicada inúmeras vezes para a imprensa, mas a confusão já estava feita. E a polêmica do “kit gay” – que foi sem nunca ter sido – estendeu-se por meses. Em junho, às vésperas da Marcha pela Família, convocada por grupos religiosos em Brasília, recebi em meu gabinete o senador Magno Malta (PR-ES) para conversar sobre o assunto. Em determinado momento, ele elevou o tom e começou a me ameaçar. Disse que a Marcha ia parar na frente do MEC, que eles iriam me constranger. Mantive o tom calmo que sempre adoto: “Mas, senador, o senhor conhece a história, sabe que não é verdade.” Não adiantou. Percebi, então, que aquilo não era uma questão de argumentos, mas um jogo de forças. E eu disse, também com o tom de voz mais alto: “Então venham. Hoje à noite eu vou rezar um Pai-Nosso e amanhã nós vamos ver qual Deus vai prevalecer, o da mentira ou o da verdade.”
O senador parou, abriu um sorriso e pegou na minha mão: “Você é um homem de Deus. Se acredita n’Ele, eu acredito em você.”

Voltei a esse episódio já relativamente antigo porque ele me parece exprimir muito bem um fenômeno que o ultrapassa. Em um artigo recente para a revista nova-iorquina Dissent, a filósofa norte-americana Nancy Fraser discutiu a eleição de Donald Trump e o que chamou de “derrota do neoliberalismo progressista”. No texto, Fraser mostra como se constituiu nos Estados Unidos a disputa entre duas modalidades de direita: o neoliberalismo progressista dos governos Clinton e Obama e o protofascismo de Trump, com seu discurso protecionista na economia e seu conservadorismo regressivo em relação aos costumes e direitos civis. Pode-se discutir se é correto enquadrar Obama no campo neoliberal, mas o que importa preservar do argumento da autora, nesse embate, é que a grande vantagem do neoliberalismo americano, que era o diálogo com as minorias – LGBT, mulheres, negros e imigrantes –, se perdeu.

O que vimos no Brasil dos últimos anos foi algo um pouco diferente: essas duas modalidades de direita em boa medida se fundiram, de modo que mesmo nossa direita neoliberal passou a cultivar a intolerância. A vitória socioeconômica do projeto do PT até 2013 foi tão acachapante – crescimento com distribuição de renda e ampliação de serviços públicos – que sobrou muito pouco para a versão civilizada da direita tucana. Ela não podia mais se dar ao luxo de ser neoliberal e progressista. Para enfrentar a nova realidade, os tucanos passaram a incorporar a seu discurso elementos do pior conservadorismo.

Temas regressivos foram insuflados no debate nacional. A campanha de José Serra à Presidência em 2010 foi um momento importante dessa inflexão tucana. Embora talvez fosse o desejo íntimo de alguém como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o PSDB não conseguiu se transformar na versão brasileira da agenda democrata norte-americana. Pelo contrário, ao radicalizar o discurso conservador, o partido revolveu o campo político de onde floresceu a extrema direita no Brasil. Quem abriu a caixa de Pandora de onde saiu o presidenciável Jair Bolsonaro foi o tucanato. Embora essa agenda pudesse vir à tona em algum momento, foram os tucanos que a legitimaram. Um equívoco histórico. Quando, pela mudança de conjuntura, se tenta abdicar desse ideário, isso já não é mais possível, pois logo aparece alguém para ocupar o espaço criado. Foi exatamente o que aconteceu: a extrema direita desgarrou e agora quer tudo – a agenda tucana e muito mais.

Um movimento semelhante ocorreu com a imprensa. Curiosamente, o veículo que mais respaldou essa pauta foi aquele de quem menos se esperava uma aproximação com o obscurantismo: o jornal Folha de S.Paulo. Sob o manto moderno do pluralismo, uma pretensa marca do jornal, a Folha legitimou, tornou palatável e deu ares de seriedade a uma agenda para lá de regressiva. Adotando inclusive a expressão “kit gay”, criada pela bancada evangélica do Congresso, o jornal deu dignidade a uma abordagem que contribuiu para que o debate sobre direitos civis atrasasse cinquenta anos no país.

Embora tenha desandado na cobertura noticiosa, a Folha continua utilizando o espaço dos editoriais para se apresentar como uma espécie de vanguarda da modernidade. O expediente tornou-se tão incongruente com as opções do noticiário que em determinado momento a Folha precisou alardear em peças publicitárias, no próprio jornal e na tevê, aquilo que seria seu posicionamento oficial sobre temas mais delicados. Vejo isso como um caso singular de cinismo que maquiava o embarque do jornal numa espécie de “neo-liberalismo regressivo”.

Como se vê, são incautos e usam de má fé quem propaga inverdades!


domingo, 23 de setembro de 2018

Coluna do Jersan


João Batista Azevedo (Interino)

Eleições 2018: O efeito Lula

A exatos 15 dias nos separam da eleição mais importante para o país desde o processo da redemocratização do Brasil. Nem a primeira eleição direta após o regime militar, chama tanto a atenção como esta de 2018. Bem verdade que aquela tínhamos as grandes lideranças políticas se confrontando, fato que já não temos para as eleições deste ano. Temos sim, uma eleição que vai se desenhando sob dois prismas:  os eleitores do Lula contra os eleitores anti-Lula. Impedido de ser candidato, por estar cumprindo pena por uma condenação que segundo alguns é questionável, Lula ainda assim se impõe como uma liderança política neste país, gostem ou não. Mesmo apesar da forte oposição midiática, o PT tenta se equilibrar sobre as hostes de simpatizantes que ainda veem no espectro da esquerda os avanços que o país necessita. Tempos difíceis. Mas o que chamou mais a atenção foi – para não fugir à moda do que acontece no mundo europeu – o surgimento de um candidato da ultradireita conservadora em terras tupiniquins. Pois é. E ele existe: Jair Bolsonaro. Com um discurso visceral, colocando-se contra tudo que é dito comportamento moderno e negando a própria política e suas relações, não foi difícil cair no gosto de uma fatia da população eleitora que, com certa razão, anda desesperançosa. Sem propostas concretas, mas com frases decoradas de um efeito bombástico e gestos grotescos, como o de imitar uma metralhadora com as mãos, parece ter sido o combustível de sua ascensão eleitoral. Entretanto, essencialmente, o que se vê é um candidato vazio de ideias, odioso contra as minorias, que ao longo de sua demorada carreira como deputado federal (cerca de 30 anos) não tem nenhum projeto de lei aprovado, nem mesmo na área da segurança, área que ainda estudou ainda que pouco.

Ainda o efeito Lula  

Uma única coisa pode se creditar ao candidato Bolsonaro. Foi ele quem melhor vestiu a camisa do antilulismo. Nem mesmo os adversários costumeiros e idealizadores da derrocada petista, a turma do PSDB e DEM com o apoio de setores do MDB, puderam imaginar que fossem atropelados por um até então desconhecido e solitário deputado do baixo clero. Isto reforça urgentemente um repensar das forças políticas, sejam de esquerda, de centro ou de direita. Uma outra lição a ser também tirada destes tempos é com relação àquilo que alguns setores da imprensa dita como regra: mesmo com toda a campanha contra o ex-presidente Lula, este ainda mostra força ao colocar na disputa o seu preposto candidato Fernando Haddad, que caminha rumo ao segundo turno, com reais possibilidades de ser eleito, seja pelo efeito do ex-presidente, seja porque a maioria dos eleitores veem numa candidatura Bolsonaro uma ameaça real para o Brasil. E viver tempos piores é tudo que não se quer.

De olho neles

Mais de 90% dos congressistas disputam cargos nas eleições de outubro. São 558 deputados e senadores de olho no voto do eleitor: 470 tentam a reeleição e 88 buscam novos cargos. O elevado número dos que tentarão novo mandato no Congresso sugere um baixo índice de renovação. A tendência é reforçada pelo novo modelo de financiamento eleitoral, que favorece quem já está na Câmara ou no Senado a obter recursos mais generosos do novo fundo público eleitoral, aprovado por esses mesmos parlamentares. Portanto, a hora é de ver quem tem mais serviço prestado para merecer o seu voto. Um Parlamento qualificado pode conter as bobagens cometidas por maus governantes. Um Congresso ruim pode inviabilizar o melhor dos governos. É crucial prestar mais atenção nos votos que damos para o Legislativo e no que os eleitos fazem quando chegam lá. Uma boa medida é ver as últimas votações que impactaram a vida dos brasileiros do impeachment pra cá. Veja quem votou contra a sua vontade, eleitor, e quem atendeu aos conchavos partidários. É hora de pôr o pijama em boa parte deles.

O voto pra Senador

Se nos últimos tempos da política maranhense teve uma disputa tão acirrada esta é a eleição para as duas vagas para senador deste ano. Cinco candidatos são cacifados para postularem essas duas vagas, sejam pelos conhecimentos e vivência política, sejam pela garra e determinação que demonstram ter. Os dois grupos que evidenciam a disputa partem para o corpo a corpo na busca de eleger seus candidatos. Correndo por fora, e bem qualificado pela experiência e pelo fato de já ter sido governador, com boa visão sobre o Estado, seus problemas e potencialidades, aparece Zé Reinaldo. Tenho encontrado muitos eleitores que veem nestas eleições a hora e a vez de Zé Reinaldo chegar ao senado.

Bons nome

Um bom parlamento não pode prescindir da experiência de nenhum homem público, mas também não pode se abster da vontade, da coragem e da determinação dos mais novos. Para a câmara federal e legislativo estadual bons nomes integram esta condição. A possibilidade da volta de Gastão Vieira à câmara federal é real e justa. Além de muito serviço prestado ao estado, Gastão Vieira tem um largo conhecimento e muita experiência. Já no legislativo estadual alguém com a experiência de Manoel Ribeiro e a vontade de servir de jovens políticos como Ricardo Diniz e Jota Pinto fazem toda a diferença. A estes desejamos boa sorte.


Ódio e eleição

Nestes tempos de descrença nos políticos, é bem natural que alguns rasguem o título de eleitor, ou que votem como protesto em qualquer maluco que aparece, ou até mesmo votar em figuras travestidas e caractas de político, como o caso do Bode Zé, Macaco Simão, etc. Eleição é o momento mais importante da vida de um país. Não colocar o ódio em seu voto deve ser um primeiro passo para um país melhor. Somos todos responsáveis.

(Texto publicado na Coluna do Jersan, edição de hoje (23.09) do Jornal Pequeno.)


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A CRÔNICA DO DIA


HOJE É DIA DE... 



A MORTE DENTRO DE UM PUTEIRO

(*) Nonato Reis

Na Viana dos anos 80, dominada ainda pelo isolamento em relação à capital e demais regiões do Estado, as diversões masculinas começavam no Areal (espécie de praia de água doce nos limites da cidade com o lago) e terminavam no puteiro, de preferência o "Luz da Serra”, que ficava para as bandas do antigo Campo da Aviação, e era frequentado por ricos e pobres, playboys e matutos.
O puteiro era, por assim dizer, o lugar mais democrático de Viana, aberto a todos, indistintamente, bastando apenas ter alguns trocados no bolso, que dessem para tomar uma cerveja e pagar o aluguel de um quarto rústico por algumas horas. 
Eu, apesar da alta voltagem dos hormônios e da resistência das chamadas “moças de família” em deitar com o namorado, mantinha um pé atrás com esses lugares lúgubres, pelo receio de contrair as temidas doenças venéreas, que nessa época vicejavam nos ambientes de luz vermelha. Mas a caravana segue os cães, e, não raro, acabava por bater o ponto no Luz da Serra, nem que fosse apenas para “tomar uma” e jogar conversa fora com parentes e amigos, que eu via “de quando em quando”, nas folgas da faculdade.
Chegara de São Luís numa sexta à noite e, mochila nas costas, fui direto para o Areal, onde havia um circo em cartaz. No interior, o circo, seja lá qual for, é uma atração irresistível. A cidade toda acorre para a grande lona onde acontecem os espetáculos. 
Entrei e dei com as arquibancadas lotadas. Era gente que não cabia mais e eu decidi ficar em pé no vão entre uma fileira e outra, observando a cena do trapézio, na qual alguns artistas se revezavam na arte do equilibrismo.
Não demorou e alguém tocou o meu braço, quebrando-me a concentração. Olhei do lado e dei de cara com Zé da Onça, um primo que eu tenho como irmão. 
Após os cumprimentos de praxe, marcamos encontro no Luz da Serra, logo após a sessão do circo. “A gente toma uma gelada e conversa com as meninas”, propôs, piscando um olho, cujo código me pareceu claro. 
Eu estava cansado de uma penosa viagem por entre asfalto, piçarra, buracos e lama, o corpo todo pedia sossego, mas não havia como recusar um convite daquele, após quase um ano sem ver o primo.
O espetáculo terminou ao som das velhas marchinhas circenses, a multidão foi se dispersando e eu descobri que, além de Zé da Onça, havia mais cinco primos, entre eles Sebastião Xoxota, parceiro de incursões pelos sítios dos tios, roubando frutas em noites de lua, no Ibacazinho. “Tião, o que você tem feito de bom?”, quis saber, ao que ele encolheu os ombros, como quem não tem nada de interessante para contar. “O letrado aqui é tu. Eu é que quero ouvir as tuas histórias”. Rimos.
Tião conhecia a fama de brabo de Zé da Onça. Sobre ele corriam histórias que eu nunca presenciara, e por isso as tratava como “conversa fiada”. Por exemplo, diziam que, sob efeito do álcool, o sujeito pacato e de sorriso “preso” se transformava numa fera enjaulada e indomável. Nesse dia eu decidi pagar para ver e me dei mal.
Entramos no cabaré quase às escuras. Apenas duas lâmpadas toscas iluminavam fracamente o ambiente. Havia pouca gente no salão e escolhemos uma mesa próxima do bar, por razões óbvias. 
Veio a primeira garrafa, e depois a segunda e a terceira. Um certo tempo depois, a conversa corria animada, sobre casos que povoavam as nossas infâncias no Ibacazinho.
Ao meu lado, Tião Xoxota falou-me ao ouvido:
- Tu tá vendo esse sujeito que atende a nossa mesa?
Olhei na direção indicada por Tião e vi um homem alto, branquelo e barrigudo, que usava uma camisa branca abotoada de baixo para cima até o meio da enorme barriga.
Fiz um sinal de cabeça e Tião completou.
- Todo mundo tem medo dele. Dizem que já matou uma penca de gente, mas nunca ficou provado nada. Olha o tamanho do facão que ele usa na cintura.
Olhei e senti um frio na espinha. De tão grande o facão quase tocava o chão de cimento bruto. Pensei que não era nada usual alguém, trabalhando como garçom, portar uma arma daquela. Olhei para Zé da Onça, àquela altura já com os olhos vermelhos, que parecia sorrir até com as paredes. 
Achei que era hora de ir embora, e dei o aviso. “Gente, vamos capar o gato. Tô morrendo de sono”.
Todo mundo concordou e Zé pediu a conta ao garçom que, após alguns rabiscos num pedaço de papel de embrulho, entregou a ele. Zé olhou a nota e, chamando o garçom com um assobio, pediu explicações sobre o valor.
- O que é isto? Nós tomamos 18 cervejas e tu anotou aqui 24? Cadê as outras que eu não bebi?
O homem então esclareceu que as seis cervejas adicionais se referiam a uma conta atrasada dele com o estabelecimento. A reação do primo fez até o chão estremecer.
- Ladrão sem-vergonha. Safado ordinário, tu tá querendo me roubar com a cara mais lavada?
Pego de surpresa, o homem ficou ainda mais branco e só conseguia rosnar. Eu, prevendo o desfecho daquela cena, levantei da mesa e pedi ao sujeito que não levasse aquilo a sério, o primo estava bêbado, não sabia o que dizia. O homem fez um gesto de compreensão, mas o primo não parava de ofendê-lo com os piores adjetivos. 
Uma hora o garçon perdeu a paciência e levou a mão ao facão, mas eu, mais rápido, agarrei-me ao braço dele, impedindo que sacasse a arma. E ficamos por não sei quanto tempo naquele jogo macabro, ele tentando puxar o facão e eu o impedindo, praticamente pendurado ao braço dele. 
Até que um outro sujeito mau encarado, também armado de facão, adentrou o salão e raspou a arma no chão, fazendo sair faíscas para todo lado. Eu pensei que nada mais havia que fazer, estávamos perdidos, mas o estranho se dirigiu a Zé da Onça, em tom familiar.
- Meu cumpade, o que esse patife quer contigo?
E Zé, os olhos vermelhos feito pimenta malagueta:
- Quer me roubar, cumpade. É um ladrão ordinário.
O homem pegou o garçom pelo colarinho e, facão em riste, arrastou-o até o bar, cobrando-lhe explicações.
Eu aproveite a “deixa”, abracei meu primo pela cintura e o carreguei como quem conduz um saco de lixo – não sei com que força – para fora do puteiro. 
“Pra lá tu não voltas mais. Só se passar por cima de mim”. Zé lutava e se debatia, tentando se livrar, no que eu invocava a razão. 
- Ficou louco? Onde já se viu chamar o cara de ladrão, um criminoso com não sei quantas mortes nas costas, você podia ser mais um defunto, e me levar junto.
O primo, já mais calmo, olhou-me nos olhos e respondeu, o dedo indicador gesticulando, como se ditasse uma sentença. “Ele teve foi sorte que eu não trouxe o meu trabuco. A esta hora ele estaria duro naquele salão”.

(*) Nonato Reis é jornalista, poeta, e romancista nascido em Viana-MA.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Não é a Justiça Eleitoral quem impugna candidaturas


Por Flávio Braga

O ato de impugnar um pedido de registro de candidatura significa pugnar contra, oferecer resistência, contestar, opor obstáculo à sua aprovação, com o desiderato de excluir-se da disputa eleitoral o candidato reputado inapto.
Ao contrário do que supõe o senso comum, o candidato impugnado não está automaticamente alijado do processo eleitoral. Essa exclusão só pode acontecer mediante o devido processo legal, com as garantias do contraditório e da ampla defesa. Ao final do trâmite processual, então, a Justiça Eleitoral decide a controvérsia, deferindo ou indeferindo o Requerimento de Registro de Candidatura (RRC). Portanto, não se deve confundir o verbo “impugnar” com o verbo “indeferir”.

Após a publicação do edital contendo a relação nominal de todos os candidatos que solicitaram registro, começa a correr o prazo decadencial de cinco dias para o ajuizamento da Ação de Impugnação de Registro de Candidatura (AIRC), que pode ser intentada por qualquer candidato, partido político, coligação ou Ministério Público Eleitoral.

Portanto, a legislação eleitoral não confere legitimidade para a Justiça Eleitoral “impugnar” candidaturas. A atuação da Justiça Eleitoral consiste em receber o pedido de registro, autuá-lo, processá-lo e julgá-lo (deferindo ou indeferindo o pedido de registro requerido).

Desse modo, é incorreto dizer-se que “O TSE deverá impugnar a candidatura de Lula”. O certo é que o TSE vai deferir ou indeferir o pedido de registro do candidato Lula. Também labora em equívoco quem afirma que “foi pedida a impugnação do candidato fulano de tal”. A expressão adequada seria “a candidatura de fulano de tal foi impugnada”.

A legitimidade ativa de “qualquer candidato” é adquirida por meio da mera solicitação do seu registro de candidatura.  Desse modo, para figurar no polo ativo da AIRC não precisa estar com o registro oficialmente deferido pela Justiça Eleitoral.

A Lei das Inelegibilidades não conferiu legitimidade ao eleitor (pessoa natural) para a propositura da ação impugnatória. A doutrina sustenta que essa faculdade produziria abusos no manejo da AIRC, acarretando uma profusão de demandas eleitorais, muitas vezes infundadas e temerárias, em detrimento da imperiosa celeridade que norteia a fase de registro de candidaturas.

Todavia, qualquer cidadão no gozo de seus direitos políticos poderá, no mesmo prazo de 5 dias, oferecer notícia de inelegibilidade ao tribunal competente, mediante petição fundamentada, que também pode resultar na denegação do registro de candidatura.

Proposta a ação impugnatória, a matéria torna-se judicializada, instaura-se a lide e o feito, de caráter originariamente administrativo, converte-se em processo jurisdicional, submetido ao rito ordinário eleitoral estatuído nos artigos 3º a 16 da Lei das Inelegibilidades.


quarta-feira, 13 de junho de 2018

A história de São João Batista: A educação no começo


Quem vê São João Batista hoje com uma rede escolar, digamos, suficiente, nem imagina como foi difícil no início, antes da emancipação e nos primeiros anos de ter se tornado município. Tentaremos diante de algumas poucas informações enredar essa história.

Como de todo a educação no Maranhão estava a cargo do Estado como instituição. Reconstruir os passos da educação pública em solo joanino durante o período da primeira metade do século XX e as duas primeiras décadas da segunda metade, anos em que se consolidam nossas homenageadas e será o nosso enfoque, não será tarefa fácil.  Esta atividade torna-se ainda mais desafiadora quando essa reconstrução é elaborada por meio do confronto de esparsas informações e de fontes históricas que, ao serem inquiridas em um contexto específico, retratam de forma (in)certa, ou não, de como esta história foi sendo construída. Além disso, essas fontes demonstram o papel que a educação, ou simplesmente o ensino, foi assumindo em uma cidade onde, a exemplo de outras, a escolarização era considerada um privilégio de poucos.

Assim pensando, se aprender era privilégio para os mais aquinhoados, ensinar também não era para qualquer um, mesmo que para estes poucos lhes coubessem a nobreza, o respeito, e a profunda admiração de seus discípulos. Ao menos isto tinham os nossos nobres mestres e mestras do passado.

O contexto do ensino, nesse período, marcado pela precariedade e altos índices de analfabetismo precisava ser encarado e isso não seria tarefa fácil. A dificuldade de escolas e de professores somava-se à própria dificuldade do distrito de São João Batista. Poucos se aventuravam na arte de ensinar. Na região de Boticário, Pedras e adjacências era notável os ensinamentos do Professor Raimundo Firmo, que apesar das dificuldade de toda ordem, alfabetizava e ensinava toda uma geração a ler e escrever. Notável também o trabalho alfabetizador de Artur Marques Figueiredo, homem culto, de caligrafia estilizada e bela, fundamentais na função de Escrivão por ele desempenhada anos mais tarde. Professora Anita Costa foi outra mestra que marcou as primeiras gerações. Ensinou a ler e escrever a muitos meninos numa escola que ficava nas imediações onde hoje é o Fórum da Justiça. Para tanto, neste tempo, com a devida permissão, a temida “palmatória” era coadjuvante instrumento de trabalho do professor.

Na sede do então distrito sabe-se que a Professora Onezinda Castelo Branco, umas das primeiras normalistas, esposa do comerciante Martinho Castelo Branco, também ensinou a muitos. A escola pública onde ela ensinou ficava onde hoje é o Centro de Convenções, denominada Escola Rural Getulio Vargas, construída por Francisco Figueiredo quando prefeito de São Vicente Férrer.  A figura do professor leigo, ou seja, aquele que apresentava conhecimentos mínimos já era uma realidade naqueles tempos. O que mais valia era aprender a ler e escrever e saber fazer contas.

O incremento maior de normalistas em nossas escolas estaduais só se deu após a emancipação do município em 1958. Vale lembra que a demanda reprimida nas séries do antigo primário era cada vez maior a proporção que se passavam os anos. A rede estadual dispunha de um único estabelecimento denominado Grupo Escolar Clodomir Milett. Anos depois fora construído o Grupo Escolar Estado de Santa Catarina. Neste, brilhou o talento de professoras que foram trazidas para a missão de ensinar além do ler e escrever. Iracema Ferreira de Araújo foi precisa nessa arte e disciplinamento. Muitos que, como eu, iniciaram seus estudos na década de 60 passaram pela mão firme de Dona Iracema.  

Mas era preciso muito mais. Expressões linguísticas, cálculos matemáticos, iniciação de uma Língua Estrangeira. A idealização de um curso ginasial também se fazia necessário. Para tanto uma cooperativa buscou parceria com a Campanha Nacional de Educandários Gratuitos (CNEG), depois denominado de Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC). Assim, por volta de 1965, foi fundado o Ginásio José Maria de Araújo que passou a contar com os préstimos profissionais das normalistas e de professores com formação secundarista, como Zeca de Neco, Matilde Gomes, Antônio Marques Filho e, mais tarde Luis Lílio Saraiva, José Guilherme, Jucelino Lindoso, e tantos outros. Para este início foi também de fundamental importância a gestão precisa e a autoridade dos padres Heitor Piedade e Dante Lasangna.

Nos anos da administração do prefeito Achilles dos Santos Jacinto algumas professoras normalistas chegaram em solo joanino. Em 1964 chegaram as notáveis professoras Carmelita e Maria Creusa, ambas recém-formadas. Depois chegara a professora Lourdes Frazão. Anos mais tarde, a professora Carmelita retornou para sua cidade natal, Caxias, ficando apenas dona Creusa que aqui contraiu matrimônio e continuou a prestar os mais relevantes serviços a toda uma geração. A professora Loudes Frazão também fez de São João Batista sua morada, uma vez que aqui casou com o comerciante Procópio Meireles Filho. Também registre-se a presença de dona Penha, esposa do coletor Dário, que era professora normalista e que fundou à época o primeiro Jardim de Infância; do professor Eliurdes Vieira  e da professora Josefina Martins.

A presença de professoras normalistas vindas de outras localidade se fazia necessária, uma vez que as nossas primeiras normalistas, egressas do nosso ginásio e formadas na Escola Normal de São Luís, só começaram a retornar com a formação em magistério, nos primeiros anos da década de 70. A esta época, o Estado brasileiro implantava muitos projetos que visava uma diminuição dos altos índices de analfabetismo. São desse tempo o Projeto João de Barro, o Mobral, o Curso Madureza, e até as iniciativas da igreja católica com a “Escola Paroquial Pé no Chão”. Em 1971, o governo do Estado implantava um incremento na educação com o chamado “Projeto Taurus” e com ele, o município recebeu outro grupo de normalistas. Desta feita vieram as professoras Jocelene Luz, Ana Maria (Aninha), Maria Frazão, Florita Bitencourt e Maria de Jesus Viana (Dona Viana), que aqui também constituiu família e se tornou cidadã joanina.

O grupo maior de professoras normalistas eminentemente joaninas, aquelas que primeiro concluíram o ginasial na CNEG/CNEC só chegaram por volta de 1974. Era prefeito à época Jorge Figueiredo, Assim chegaram Gracinha Ferreira, Francinete Melônio, Ana Márcia Ferreira, Vilma Figueiredo, Dalva Câmara, Mariana Penha e Silva, Ruth Meireles, Olímpia Penha, Telma Araújo, Edinete Alves, e muitas outras que, em se formando a posteriori e  somadas às que aqui estavam, aos poucos foram contribuindo na educação de muitas gerações.  Já entre as muitas professoras que exerciam a regência de sala de aula na rede municipal, mas sem a habilitação em magistério, através do Programa Logus tornaram-se habilitadas.
Em meio a esse processo, o nosso ginásio evoluiu para Escola Normal Ginasial José Maria de Araújo, e então os nossos e as nossas normalistas passaram a ter essa formação aqui mesmo, em solo joanino.


segunda-feira, 11 de junho de 2018

A história de São João Batista: O velho porto da Raposa


Dando sequência às postagens que faremos toda esta semana sobre São João BatiDando sequência às postagens que faremos toda esta semana sobre São João Batista e sua história, publico hoje uma crônica que integra o nosso livro de crônicas que estamos produzindo e que deverá ser publicado em breve. Ela trata sobre o Porto da Raposa. Um espaço responsável, no viés economia, pela emancipação de São João Batista. Os fatos aqui mencionados são só um recorte das muitas histórias vividas naquele lugar. Nos dias que se seguem haveremos de falar do poder legislativo e das nossas primeiras normalistas entre outros assuntos. Para hoje o texto é: O velho porto da Raposa.


 é: O velho porto da Raposa.
O VELHO PORTO DA RAPOSA


Não sei ao certo quando surgiu o Porto da Raposa. Quando me entendi, ele já existia. Mas só vim conhecê-lo de fato quando vim para a cidade pela primeira vez. Tinha que se passar por ali. Era lá o embarque nas lanchas que nos trazia até a capital.

Encravado às margens de extenso Igarapé que rasga continente adentro, o antigo Porto da Raposa ficava no povoado campestre de mesmo nome, a poucos quilômetros do Golfão Maranhense (Baia de São Marcos) e do estuário do Rio Mearim. De um lado uma extensa cortina verde formada por manguezais, de outro, mais para dentro do continente, extensas áreas de campos e tesos.

Ao longo de muitas décadas foi a única porta de entrada e saída de muitos municípios da baixada, especialmente São João Batista, São Vicente Férrer, Matinha, entre outros. Estamos falando de mais de meio século. Naquele tempo não havia estradas que ligassem estes municípios à Capital do Estado. O porto cumpria assim então a sua primordial finalidade. Era ponto de escoamento de mercadorias que iam e vinham e de embarque de passageiros que se destinavam rumo a São Luís e vice-versa.

Ainda lembro vagamente de algumas particularidades daquele lugar. Eram dois os principais atracadouros, exatamente para duas lanchas que costumavam fazer o transportes de cargas e passageiros. Eram dois pares de extensas passarelas, construídas de achas e mourões de mangue que nos levavam até ou a parte baixa, ou à parte alta da lancha, o convés, onde ficava o timoneiro, ou mestre, e onde ficavam os passageiros.

Às vezes três ou mais lanchas ancoravam por ali.  Todas bem nomeadas. Maria do Rosário. Santa Teresa, esta, pequenina e valente, boa de navegação. A Proteção de São José, que sucumbiu na maior tragédia náutica ocorrida naquela travessia. A Ribamar. A Fátima. A Nova Estrela e a Imperatriz foram as últimas dos tempos auge do transporte marítimo. Nestas últimas fiz a maioria das minhas viagens.

A Raposa era um lugar como muitos outros numa área de campo. As casas de jirau, mostravam que ali em épocas de inverno costumava ser úmido e encharcado. Eram habitações de madeiras, desde o assoalho até as paredes. As cobertas, algumas eram de telhas de barro, outras de pindobas. Naqueles tempos de plena atividade do velho porto, Raposa devia ter umas cinquenta casas. A maioria eram de pessoas que viviam em função do porto. Pequenos comerciantes, estivadores, donos de pequenas embarcações e até mesmo ambulantes que viviam da compra e venda de mercadorias e produtos. Eram todos hospitaleiros. Lembro de Seu Dominguinhos, sempre cortês, atencioso, mas, dizem os que mais o conheciam, de uma astúcia e malícia sem precedentes.

Entre as muitas peripécias atribuídas a Seu Dominguinhos está a de ter dado um pernoite ao Padre Dante que certa vez se deparou numa noite escura e não quisera voltar pra sede. Fora aconselhado a ficar por ali. Após acomodar o Padre em uma rede, contam que Seu Dominguinhos acendeu uma fogueira de pau de siriba, uma espécie de mangue que ao queimar expele uma fumaça ardente aos olhos de qualquer cristão, ainda mais a quem não era acostumado, como o sacerdote italiano. Contam que o Padre passou a noite em claro, rezando para que logo amanhecesse, enquanto Dominguinhos se contorcia de risos. Ao amanhecer os olhos do reverendo pareciam duas bolas de sangue.

As principais casas de comércio e pequenos restaurantes estavam ali em redor do armazém. Um velho prédio de alvenaria que servia como uma espécie de alfândega. Era lá que trabalhavam os fiscais da receita estadual. Ali eram expedidas e pagas as guias de impostos sobre o que era embarcado, fossem cofos de farinha, cofos de banana, cofos de criações, pequenos e grandes animais. Quase nada passava sem as vistas dos coletores de impostos. Nos dias de embarque e desembarque era bastante intenso o movimento de pessoas por ali. Fossem os que viajavam, os que ali trabalhavam, e os que apenas buscavam estar no meio do vai e vem das pessoas. Não faltavam também os donos de bancas de jogo de caipira. Mas era uma alegria só. O povoado era tão movimentado que ganhou até um gerador de luz para garantir a permanência das pessoas que por ali transitavam e trabalhavam até o zarpar das lanchas.

Nos dias que não se tinha esse movimento proporcionado pelas lanchas, o povoado de Raposa mantinha um quotidiano normal. Moradores em suas tarefas diárias preparavam-se para o dia seguinte. O incremento maior do porto fora sem dúvida quando da construção da “barragem da Raposa”. Esta grandiosa obra - tanto pela extensão como na forma de como fora construída, realizada pelo então prefeito Luiz Figueiredo - permitiu um tráfego maior de veículos por mais tempo ao longo do ano.

A partir da abertura da Estrada da Beta, nome que fora dado inicialmente pela população para o ramal São João Batista – Bom Viver, que ligou a sede do município à MA -014, começaram ainda que com muitas dificuldades por conta das condições da estrada, os transportes de cargas e passageiros por via terrestre, fato este que atingiu frontalmente o cerne da economia gerada no Porto de Raposa por conta do transporte marítimo. Os primeiros ônibus a fazerem linha para São João Batista e até mesmo para outros municípios da Baixada foram os da Expresso Florêncio, que inúmeras vezes não completavam o trajeto da viagem.

Hoje, com poucas casas e sem aquele fervilhar de pessoas que faziam dali um marco da economia do município, o Porto da Raposa precisa se redescobrir com um outro propósito. A rodovia nos leva até a capital São Luís, ou a terras além do estado.

Sempre defendi que o antigo e outrora próspero Porto da Raposa deveria absorver em tempos atuais outras finalidades. Ao que parece, por obra e graça do tempo e pela resistência de alguns poucos moradores que ali ainda residem, esta é uma realidade próxima das novas gerações. Por conta de sua aprazibilidade e beleza natural, o velho Porto de Raposa ressurge como uma ponto de lazer rústico.


domingo, 10 de junho de 2018

São João Batista e sua história

Ao longo desta semana São João Batista completará 60 anos.  Como marco desta data iremos publicar postagens que ficarão também na história. Serão textos que falam da nossa história, fatos que marcaram a nossa gente. Estaremos ao mesmo tempo receptivo a outras contribuições. No nosso endereço eletrônico aqui no blog (jb.azevedo@hotmail.com) receberemos as contribuições em forma de textos ou manifestações diversas.
Começaremos a desmontar fatos que muitas vezes são contados ou escritos de forma equivocada. Para tanto procuramos pesquisar em tantas fontes. Conversar com alguns conterrâneos que plenos de lucidez colaboraram com informações preciosas a cerca de nossa história. 


São João Batista: 60 anos ( A verdadeira história)

Neste dia 14 de junho, próxima quinta-feira, a cidade de São João Batista, distante 288 quilômetros da capital, completará 60 anos de emancipação política. Naqueles tempos de política ferrenha, onde os comandantes políticos mandavam e desmandavam, a cidade experimentara, antes de 1958, um curto período de emancipação. Antes em divisão territorial datada de 01/07/1950, o município de São Vicente é constituído de 2 distritos: São Vicente de Férrer e Ibipeuara, este mais tarde São João Batista. Mas em 1952, por força de Lei Estadual, o então distrito de Ibipeuara é elevado à categoria de município com a nova denominação, São João Batista. Neste período esteve como intendente o comerciante José Ribamar Martins. Esta emancipação dura até dezembro de 1954, quando por força do Acórdão do Superior Tribunal Federal, retorna São João Batista à condição de distrito de São Vicente Férrer, com a denominação de Ipipeuara, novamente. Somente pela Lei Estadual de nº 1608 de 14 de junho de 1958, o município é criado em definitivo. Nesse mesmo ano houve eleições municipais, em outubro, elegendo-se como primeiro prefeito, Merval Marques Figueiredo, que tomou posse em 15 de dezembro de 1958.


São João Batista: 60 anos

Nos primeiros anos da vida emancipatória de São João Batista merecem destaque duas personalidades políticas: José Maria de Araújo e Francisco Figueiredo. Estes dominavam a política que se fazia no município de São Vicente Férrer, e depois no município de São João Batista. Ambos, inclusive, chegaram a ser prefeitos de São Vicente Férrer e deputados estaduais. Nesses sessenta anos, o município elegeu 13 prefeitos, mesmo tendo sido governado por 16, por ocasião de cassação temporária ou em definitiva de seus titulares. Atualmente é prefeito o Engenheiro João Cândido Dominice.
Ao longo de toda essa existência, a terra-mãe-gentil, São João Batista, gerou incontáveis inteligências para o estado do Maranhão, para o Brasil e para o mundo. Um plêiade de talentos cunhados em homens e mulheres que espalhados pelo mundo levam a pujança e a força de ser joanino. 

Parabéns a todos os joaninos! 
Parabéns, minha terra querida!


sábado, 2 de junho de 2018

A CRÔNICA DO DIA




HOJE É DIA DE... 


VALDENEZ, O PARCEIRO E CONSELHEIRO DE VADIAGEM

Nonato Reis (*)

Em tempos remotos o Ibacazinho formou uma comunidade genuína pelos laços de sangue. Primos casavam com primas numa espiral de parentesco que varava gerações. Nesse contexto, o coletivo assumia o formato de uma enorme família e mais do que parentes, primos eram como irmãos. Eu, filho único de homem, posso dizer que tive dezenas de irmãos, mesmo que nascidos de pais e mães diferentes, e a todos devoto um carinho especial.
Porém com um deles tive uma convivência maior e as marcas dessa relação carrego até hoje com um misto de cumplicidade e reconhecimento. Valdenez, o Vadico, era filho de Marcos e Mendoca, três anos mais velho do que eu. Foi o meu dileto parceiro de vadiagem e peripécias pelo universo feminino. Éramos como unha e carne. Estávamos sempre juntos em alguma empreitada.
Muito mais experiente com o sexo oposto do que eu, atribuía-se o direito de me dar conselhos e indicar os caminhos que eu devia seguir para conquistar o coração de uma mulher.
Foi ele quem, certa vez, olhando-me com gravidade, corrigiu em mim um grave defeito: “Para com esse negócio de usar palavras melosas, porque isso não cola. Mulher gosta é de homem com atitude. Um pouco cafajeste, mas sem deixar de parecer correto”.
Eu achava que Vadico sabia tudo sobre as mulheres, e isso fazia com que sempre se desse bem em suas incursões. Quando, feliz da vida, dizia-lhe que “ganhara” uma menina, há muito cortejada, ele ria de um modo superior e confidenciava para o meu desencanto: “ah, essa eu já peguei”. Eu só não o mandava à puta que o pariu em respeito a Mendoca, que eu tinha como uma segunda mãe.
Para ele, em assuntos de mulher eu era bobo e inexperiente, no que estava absolutamente certo, e isso o fazia julgar-se no direito de determinar quando e quem eu devia namorar. Ele engatou um flerte com uma bela morena, que apelidou de “Lapiseira Bic” (acho que pelas suas formas longilíneas). Aí cismou que eu tinha que namorar a irmã dela, muito mais bonita. “Vai ser bom, porque a gente faz uma dobradinha, com direito a rodízio”.
Eu ouvia aquelas coisas como se não fosse comigo, interessado que estava em uma de suas irmãs. Era um troço complicado, uma espécie de chove-não-molha, um nó que não atava e nem desatava nunca. Eu não sei por quê, Valdenez não via a relação com bons olhos. Sempre que tocava no assunto com ele, cortava a conversa imediatamente, com um argumento vago: “Cara, esquece minha irmã, ela não é mulher para ti”. Eu insistia: “mas por que, não?” E ele, evasivo: “Por que não, vai por mim”.
Um dia, já cansado daquele samba de uma nota só, decidi agir como homem e selei o namoro com a irmã dele. Não durou uma semana, porque o primo, agindo de forma subreptícia, tratou de “jogar água no chope”. Colocou na minha frente, como isca, uma menina linda, e eu caí feito um peixe. Ele dizia:
- Cara, pega essa garota, que é um colosso; outra igual tu não vai encontrar. Já falei com ela, está tudo certo. É só você chegar e tomar posse do banquete.
Eu argumentava que aquilo não era correto, eu estava comprometido com a irmã dele e queria seguir com o namoro. Ele insistia, como a apaziguar a minha inquietação.
- Fica tranquilo, ela não precisa saber de nada. Vai por mim, mulher não gosta de homem certinho.
Eu fui na dele e quebrei a cara. No dia seguinte, após ‘ficar’ com a garota, a irmã dele já sabia de tudo e me mandou às favas, para o meu desconsolo.
Ele botou na cabeça que eu devia fazer uma incursão pelas casas de luz vermelha da cidade, para ganhar "cancha". 
- Todo homem precisa passar por esse aprendizado entre as coxas de uma puta.
Fomos parar no "Luz da Serra", o maior cabaré de Viana na época, onde ele batia ponto toda semana e tinha a mulher que quisesse. Arranjou-me uma negra, que dizia ser um assombro na cama. Uma noite em claro com ela em um quarto caindo aos pedaços, eu saí de lá mais morto do que vivo.
Fui parar no comércio de Marcos, o pai dele, que quando me viu, ficou espantado.
- Rapaz, o que foi isso? Por onde tu andou?
Respondi que passara a noite com uma mulher, e ele concluiu rápido.
- Na certa tu foste para lá com o bonito lá de casa.
Nem precisei responder. A resposta estava na cara.

Em que pese o vasto leque de conquistas com a mulherada, Valdinez casou ainda jovem e formou uma bela família. Teve três filhos, dois homens e uma mulher, e a maior alegria e prova de amizade ele me deu, quando um certo dia, ao anunciar a concepção do segundo filho, segredou-me ao ouvido. “Te prepara porque esse moleque será teu afilhado”. 
Eu jamais batizei o menino, mas daquele dia em diante seria tratado como “compadre”, além de primo e irmão.
(*) Nonato Reis é Jornalista e Escritor. Natural de Viana, Maranhão.