terça-feira, 27 de julho de 2021

A ACADEMIA JOANINA DE LETRAS, CIÊNCIAS E SABERES CULTURAIS

 Por Marcondes Serra Ribeiro

Faz certamente bem mais que dez anos, desde o dia em que eu e o nobre conterrâneo e amigo, Professor Batista Azevedo – mui respeitosamente, um grande profissional da área educacional, particular expoente e orgulho da terrinha - conversamos, muito empolgados, sobre a criação da Academia Joanina de Letras.

Na oportunidade, as considerações feitas primavam pelo propósito de reunir nossos intelectuais para tratarmos coletivamente, com cuidadoso carinho, sobre as questões contemplativas de nossa língua, com especial enfoque às produções literárias, incentivo à arte de escrever, apoio às manifestações culturais, e reconhecimento da qualidade valorativa de seus membros, o que aconteceria através de eventos, homenagens e premiações. Outra assertiva colocada em pronta evidência naquela oportunidade, e muito valiosamente fortalecedora do intento, foi a funcionalidade da “academia” como uma instituição voltada à preservação de nossa memória, zeladora do acervo reconhecidamente criativo dos cidadãos joaninos. 

Não nego que o compartilhamento da ideia criativa da academia seja contemplativa de minha vontade em ser um dos acadêmicos, com a necessária humildade que me caracteriza, sem o esplendor de “tornar-me imortal”, à exemplo daquilo que ocorre com a maioria dos membros das instituições congêneres. Embora seja uma vaidosa intenção, tenho consciência de que há necessidade de enquadramento aos critérios estatutários estabelecidos mediante as discussões em reuniões com os demais envolvidos, pessoas que, desde o primeiro momento, foram inclusas em uma listagem de convidados para apreciação da ideia, também seguindo os moldes das academias existentes. É claro que eu e o amigo Batista Azevedo tínhamos em mente a justa certeza de que não deveriam existir precedências privilegiáveis de algum membro. 


Na ocasião, ainda sabíamos muito pouco sobre o assunto, mas conhecíamos alguns importantes itens do estatuto da Academia Brasileira de Letras, como por exemploaquelequeestabeleceaoscandidatos àvaganainstituição, anecessidade de ser brasileiro nato e ter publicado, em qualquer gênero da literatura, obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livros de valor literário. Esse detalhe levou-me a dedicação mais resolutiva da edição de meu primeiro livro, Revérbero Amarelo, que se fez realidade, embora com alguns pormenores pendentes quanto ao ISBN, pois a gráfica relaxou este importante detalhe, mas que está em trâmite, junto à Câmara Brasileira do Livro. Apressei-me na divulgação, pelas redes sociais, de alguns trabalhos que habitualmente faço com dedicada paixão: escrever e postar meus textos reflexivos, notas e poemas – retratos de mim em aproveitamento da inspiração que o dom instiga e o hábito constrói, mesclando as qualidades e defeitos de todos os artistas.

Depois de algumas investiduras, ao longo destes anos, juntamo-nos a outros expoentes joaninos e caminhamos, determinados e bem confiantes, para a elaboração do estatuto e criação da então nominada “Academia Joanina de Letras, Ciências e Saberes Culturais”.     Estão conosco, os respeitáveis futuros acadêmicos, perfis do mais puro ajuste aos preceitos institucionais: Manoel Martins, Edinete Alves, Gracilene Pinto, Flavio Braga, Sharlene Serra, Damasceno Júnior, Raimundo Cutrim, Evando Cutrim, Dilercy Adler, Gilberto Matos Aroucha, José Eulálio Figueiredo, Jersan Araújo, Raimundo Correia Cutrim, Ana Márcia Ferreira, entre outros profissionais que também labutam com as artes, ciências e os saberes culturais, componentes iniciais de um quadro que estará completo até o dia previsto para a fundação e que se seguirá preenchendo condignamente o número de cadeiras, na medida em que surgirem candidatos a atenderem os requisitos. 

Todos nós comungamos as ideias mais promissoras quanto à promoção da literatura, leitura, educação, defesa consciente do meio ambiente, dos patrimônios artístico, cultural, histórico, turístico, paisagístico de nosso município, além de nos mostramos desejosos de investir na manutenção de intercâmbios com as demais entidades nacionais, realização de seminários, cursos, encontros que congreguem expoentes das atividades culturais, proporcionem condições de produtividade e livre debates de ideias.

Até o momento, temos definidos alguns nomes para Patronos das Cadeiras Acadêmicas. Personalidades escolhidas para    serem inicialmente as homenageadas, por terem expressivo destaque e marcado verdadeiramente a história joanina: José Maria de Araujo, Francisco Figueiredo, Antônio Santos Jacinto, José Ribamar Dominici, Onezinda Castelo Branco, Fran Figueiredo, José Souza Martins, Iracema Ferreira de Araújo, Arthur Marques Figueiredo, Creusa Costa Araújo, Maria Creusa Santos Jacinto, Padre Domingos Tibúrcio, Padre Dante Alligiere Lasagna, Suvamyr Viverkananda Meireles, José Brígido da Silva Neto, entre outros.

Em reuniões conectadas, nós, os membros fundadores, conhecedores das limitações do nosso município quanto à militância puramente literária, resolvemos ampliar o leque de abrangência da academia, certos de estarmos investindo em uma expressiva referência no mundo cultural de nossa cidade, porque a academia simbolizará o assento da historicidade de nosso povo, preconizando um caminho venturoso para aqueles que se empenham nas artes, ciências e nos saberes e divulgação da cultura como grandes ideais de suas vidas!

A fundação e posse dos primeiros acadêmicos está prevista para o dia 29 de outubro – Dia Nacional do Livro, em sessão solene, com a honrosa presença das autoridades municipais e convidados, podendo se constituir, talvez, com o apoio de representantes do Poder Público e de empresários locais, um dos mais significativos eventos da nossa querida São João Batista!

Nós merecemos!

segunda-feira, 14 de junho de 2021

"São João Batista, devo mil graças a ti..." Parabéns!!


 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Mais um Junho sem tambores...

 Por Marcondes Serra Ribeiro

 

Mês de junho começa com as tristezas acumuladas ao longo desse exasperante período de pandemia e entristece-nos bem mais, pois sabemos que as diversões desta época festiva, tão particularmente joanina, maranhense, e “baixadeira", não poderão acontecer mais uma vez. Continuamos medrosamente aquietados em necessário distanciamento físico. A pandemia do Covid-19 estende-se sobre 2021, sequenciando nossas preocupações, contenções, perdas doridas e transformações significativas da vida.

Os fogos e as fogueiras, os espaços arraialescos, largos decorados em multicores, as diversas e cativantes danças e folguedos, as manifestações folclóricas próprias da época - animadas, eufóricas, contagiantes - as típicas comidas regionais que atiçam a gula e a curiosidade gastronômica, embelezando, e enriquecendo a cultura brasileira, principalmente a nordestina, sobremaneira a maranhense, permanecerão aquietadas.

A fogueira pandêmica sabreca nosso mês festeiro - curtido pela maioria, especialmente pelos turistas que escolhem estas plagas buscando diversão e satisfação de curiosidades; silencia tambores, matracas, orquestras, sanfonas, pandeirões e as vozes de nossos típicos cantadores; aquieta as coreografias diversas das caprichadas e empolgantes danças; acomoda as panelas nos armários, tripés e prateleiras,  guarda os ingredientes e os temperos que resultariam em comidas deliciosas; eclipsa o brilho e a profusão das cores, paetês, miçangas, canutilhos, cetins, acetatos e chabu nos fogos de artifícios e bombinhas;  inibe a criatividade, a alegria de um povo que espera junho com toda disposição em ser feliz! Frustra nossa cultura em sua pujança mais admirável, deixa-nos esperançando o festivo retorno, sem data, forçosamente “sine die”, até que esse maldito vírus seja definitivamente vencido, pelos poderes de Deus Pai!

Toda esfuziante alegria hibernará em lamentoso sufoco, à espera do ano vindouro, para acontecer com diversão dobrada, descontando a quietude forçada desde o ano passado. Amante de junho, meu mês preferido, lamentoso, eu me pergunto: até onde se estenderá os malefícios do COVID-19? Faço uma prece aos santos juninos e peço-lhes que redobrem as forças celestiais contra essa amaldiçoada e calamitosa pandemia!

terça-feira, 1 de junho de 2021

DOEGNES SOARES, como não sentir saudades?

 Por Ana Creusa

 


Vem, Doegnes, cante pra gente“, assim foi a recepção dos anjos celestiais a um dos maiores ícones da cultura popular maranhense, Doegnes Soares, faleceu na manhã desta segunda-feira, 31 de maio, vítima da Covid-19.

A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace. (Victor Hugo)

O artista pinheirense foi internado na última semana tendo seu caso agravado. Ele foi entubado na UTI do Hospital Macrorregional da Baixada, onde veio a óbito.

Doegnes cantou e encantou a Baixada Maranhense. Dono de uma voz inconfundível. Era carinhoso e amigo. Sempre vestido em cores vibrantes, que resplandeciam a beleza de seu coração puro. O seu público sempre o recebia com o tradicional: “Vem, Doegnes, cante pra gente”.


Doegnes Soares era filho de José Martins Soares, que atendia pela alcunha de Zé Macaco, e Dona Catarina Amorim. Filho de uma família de 7 irmãos. Sua esposa é conhecida carinhosamente como Dona Bebel. Deixa 3 filhos: Guiguito, Júnior e Diná.

Desde garoto percebeu que nascera com um dom raro. Segundo a sua mãe, Doegnes  iniciou a vida artística tocando tambor, com o pai, que era motivo de grande alegria ao seu José Martins.

Certa noite, depois de uma de apresentação, o pai de Doegnes disse à sua esposa, se referindo ao filho:

Ah, minha mulher, agora eu posso me despreocupar porque eu já tenho quem fique no meu lugar, porque meu filho tocou 3 marchas de tambor que eu chorei demais, foi a coisa mais linda que eu já vi na minha vida.

Seus cantos não demoraram invadir os carnavais e diversos festivais. Integrou a Super Banda Miragem. Participou de bandas e grupos musicais de Pinheiro e de toda a região. Recebeu propostas de outros estados, mas preferiu não deixar sua família, seus amigos, seu torrão. o artista sempre se orgulhou da arte da qual fez sua profissão, e repetia com orgulho:

Eu nasci com um dom do canto. E que, modéstia à parte, também faz parte da História de Pinheiro e que se adaptou à evolução da cidade.

Doegnes passou a ser presença marcante e indispensável nas apresentações na Baixada Maranhense, para a qual dedicou a sua vida e arte. Deixa saudades. O consolo é que a sua obra está imortalizada  nos corações e mentes da Nação Baixadeira.

domingo, 30 de maio de 2021

CORPO SÃO, MENTE NEM TANTO

 Por José Carlos Gonçalves

 

Em minhas andanças, invariavelmente ministrando aulas e imbuído de tamanha curiosidade, travei conhecimento com algumas crendices e práticas, que vieram somar-se às conhecidas de minha infância e adolescência e que se cristaliza(ra)m num "patrimônio inestimável", principalmente, do "povo baixadeiro".

O início de tudo, assustador, na minha infância, foi eu ser submetido ao sulfato de sódio, às primeiras horas, para que se processasse uma limpeza no corpo, e esperar ... "a reação".  Estava, assim, condenado a "não botar a cara pra fora de casa".  No entanto, o que mais me intrigava era a função infalível da chave da porta principal da casa, guardada firmemente, na mão, com o intuito de evitar o "baldear". Quão horríveis eram aquelas situação e "gororoba"!

Mas ... "há gosto pra tudo", e crenças para todos os gostos!

Fácil, então, é entender por que no nosso cotidiano, "as manias" sucedem-se. E uma das mais comuns, que nos acompanha, a bem da verdade, é o temor/terror de perdemos nossa mãe, por deixarmos a "chinela emborcada"! Quando não muito, pode causar-nos um "baita azar". Logo, é melhor não "se arriscar-se"!

 Nesse amálgama de sensações, encontram-se algumas situações bem pitorescas como uso de "chás de bosta de cachorro e de cu de barata", que "se não matam, engordam".

Um papel de destaque, nesse cenário, têm as crianças (e suas diligentes mães), já que são protagonistas de uma série de "procederes", que se apresentam fantásticos. De forma que se encontram mães desesperadas, "sem saber mais o que fazer" com as suas mijonas. Porém, isso é "moleza": basta que as banhem debaixo de suas "redinhas", quando lavadas e “sorvadas" "à buraçanga", para não mais encharcá-las nas frias madrugadas. Outras mães buscam socorro no pilão, "socando" os seus "pequeninos", por três vezes, às sextas-feiras, visando desencambotar-lhe as pernas. Há as mães que colocam um "pintinho" nas bocas dos rebentos, permitindo, assim, que "desenrolem" a fala. Já as mães, que precisando amansar a brabeza,  dão-lhes um banho com água dormida "ao sereno". Como diziam os mais velhos, "é batata!"

Entretanto, não acabou o "arsenal"! Deparo-me, constantemente, com o "lado" médico-científico, que socorre as mães e salva as crianças, "aos montes". "Um verdadeiro tratado de medicina", em que as mães se apoiam contrita e sabiamente. Assim, cura-se a "rutura do imbigo", passando um pano, um "cueiro", "enroladinho”, por cima do umbigo, e depois o deixando (o pano) debaixo de um "pote". Para acelerar a cicatrização do umbigo, usa-se "a casa do marimbondo", invólucro feito com terra, que em três dias o milagre está feito. Ninguém duvida da infalibilidade da folha de coentro, morna, em forma de "um charutinho”, que, colocada dentro do ouvido, ameniza, se não elimina, os incômodos causados pela otite. Já as crianças, com dor de cabeça, são curadas com o leite e as folhas, "novinhas", de pião roxo, colocados em suas "fontes". As sementes de mamão, sim, senhor, são o melhor antídoto para lombrigas; e a "tosse braba" é curada pelos "bons fluidos" de um cordão feito com pedaços de tamboeira, do milho (...)

Infelizmente, algumas práticas estão desaparecendo com o avanço da tecnologia, que torna cada um de nós um cientista, um incrédulo, um indiferente. Por isso, já não se cospe no fogo, ao degustar a deliciosa melancia, evitando a "enjoada" dor de barriga; nem se toma, em jejum, "mijo" de vaca preta, curando a sufocante asma; nem se "caça" melão de São Caetano, para eliminar a "pira de cachorro"; nem se planta arruda, para,  embebida na cachaça ou tiquira, quebrar o mal olhado, desaparecer com a "izipra", erguer a  espinhela caída, fechar a arca aberta; ou chá de buchinha, com suas mil e duzentas utilidades; ou  ... o uso do  chá do bico do pica-pau!

Bom, isto é assunto para outra crônica!

(*) José Carlos Gonçalves é professor e escritor.

sábado, 3 de abril de 2021

MALHAÇÃO DE JUDAS

 Por Marcondes Serra Ribeiro

 

Romper a aleluia era um temor em meus tempos de criança, porque não sofríamos castigos durante a semana, até a chegada do sábado, quando pagávamos pelas traquinagens praticadas até a sexta-feira. Qualquer falha cometida, merecia de papai a dura observação: “Sábado a gente rompe a aleluia é cedo!”. Eu sofria por antecipação, pois sabia que aquela promessa seria penosamente cumprida e rezava para que fosse da forma menos padecente, entre a palmatória, a corda de sisal molhada e a pitanga, nem sei qual preferia.
  A Semana Santa, de banhos nos campos, deliciosas tortas e os castigos da aleluia, também tinha outros esperados atrativos!

Recordo-me dos tempos em que no Sábado de Aleluia, também chamado de Sábado Santo, acontecia a tão esperada Malhação de Judas ou Queima de Judas - um festejo popular que representava a morte de Judas Iscariotes, o discípulo que traiu Jesus Cristo e, por isso mesmo, mereceria a vingança representada folcloricamente por dolorosa morte.

Era uma comemoração alegre, bem articulada em sua extemporaneidade e transposição à realidade, onde a representatividade do ato da traição revestia-se de ansiedade e muita curiosidade em saber qual figura ou personalidade da vida pública seria contemplada com a vingança popular e amanheceria enforcado, pendurado em poste ou árvore de local movimentado, com a devida placa de identificação, para ser “malhado”, em ritual de queimação do boneco.

Os escolhidos pelos organizadores da tradicional brincadeira eram especialmente as autoridades, os políticos identificados como traidores da população, por seus atos corruptos e merecedores de serem representados por bonecos de panos, confeccionados caprichosamente, com detalhes na indumentária e nos acessórios, que os lembrassem bem.

Para dar mais ênfase à brincadeira, era comum colocarem bombas no enchimento do boneco, que explodiam durante a queima, sob a gritaria dos presentes. Interessante e bem aguardado antes da queimação do Judas era a leitura de seu testamento, com as últimas vontades quanto à disposição de seus bens, contemplativo de algumas pessoas da comunidade, com itens especialmente adequados à cada uma.

Assim, eram “deixadas” dentaduras - para quem estivesse banguela; dinheiro – para quem tivesse dívidas a pagar; cintos – para quem andasse com as calças caindo; óleo de peroba – para quem tivesse pouca vergonha; cuecas – para quem tivesse sido flagrado com as suas rasgadas; óculos escuros – para quem gostasse de exibir-se com um e outras coisas que se ajustassem ao herdeiro ou herdeira. Era uma alegre festividade popular que não deveria estagnar no tempo!

Se a brincadeira prosseguisse e chegasse aos dias atuais, não faltariam elementos que preenchessem os requisitos da “homenagem vingativa”, pois autoridades corruptas existem em profusão – verdadeiros “Judas”, traidores que caem no desagrado do povo.

sábado, 20 de março de 2021

Considerações sobre a nossa Educação

Por Marcondes Ribeiro Serra

É necessário lembrar, a priori, que nosso Brasil é um dos maiores países do planeta, o quinto em área territorial e o sexto em população - grandezas que realçam a profunda diversidade vivida pelos brasileiros, em muitas expressões. A educação tem sido um grande problema, consequência direta da desigualdade social onde uma minoria é favorecida e a maior parte, prejudicada, que se arrasta sob o peso das soluções paliativas mantidas por gestões fraudulentas, incompetentes e desumanas.

Em 2020, nos últimos dias de fevereiro, quando o surto pandêmico repentinamente nos atingiu, sentimo-nos sem condições de iniciar o ano letivo, previsto para a primeira quinzena de março, situação diferente de algumas localidades e algumas instituições educacionais, que suspenderam as atividades e puderam montar um esquema funcional obediente às orientações preventivas, retomando o processo educacional de forma remota – o que lhes dá créditos para a discussão do significado e operacionalidade do ensino conectado.

Fazemos parte do grupo que atendeu precariamente a necessária mudança. Um quantitativo ínfimo de nossos alunos participou das escassas atividades impressas propostas, visto que a falta de recursos tecnológicos por parte de muitos alunos e o conhecimento adequado das ferramentas, por parte de muitos professores, influenciaram na condução das aulas conectadas. Faz-se mister colocar que já tinham atendimento escolar muito inferior ao desejado. Com o surto do Covid-19, o resultado para nosso alunado foi desastroso. Essa situação conduz-nos à obviedade de que precisamos de um Plano de Trabalho para 2021 que implique em atenuação dos efeitos pandêmicos, minimize as perdas resultantes do ano passado não trabalhado, diferentemente daqueles que fizeram alguma coisa. Temos a distinta obrigação de empregar todo esforço possível no disciplinamento da prestação do trabalho professoral, acompanhar a funcionalidade de nossas escolas, adapta-las estruturalmente, para ofertarmos a melhor educação - a maior ferramenta para a formação do cidadão.


Enquanto durar a pandemia, não poderemos ter aulas presenciais nos moldes de antes. Se a opção for o processo híbrido, precisaremos ter todos os cuidados na aplicação dos protocolos preventivos, isto todos sabem, como também são conscientes que a forma de ensino à distância contrasta com a presencial, porque ocorrem dúvidas no processo comunicativo propensas à não identificação do professor e consequente prejuízo no aprendizado. Presencialmente, o docente tem muito mais possibilidades de perceber quando não há entendimento do assunto exposto e condições de promover explicações e exemplificações que esclareçam as dúvidas constatadas, engrandecendo mais facilmente o aprendizado. É de grande conveniência a observação quanto a ausência de recursos suficientes por parte das escolas e de muitos responsáveis dos alunos para implementação das estratégias de educação a distância e isto implica em exclusão, situação que desconfigura a aplicação democrática do direito à educação.

Poderíamos aproveitar a situação imposta pela necessidade de mudar a forma de condução do processo educacional e extinguirmos as classes multisseriadas. Muitas escolas de nossa rede ainda trabalham com esse sistema - uma forma organizacional de ensino na qual o(s) professor(es) trabalha(m), na mesma sala de aula, com várias séries do Ensino Fundamental ao mesmo tempo, atendendo alunos com idades e níveis de conhecimento diferentes. Ainda é adotado no Brasil em significativo número de localidades e total de alunos, mas não é exclusividade brasileira. Países como o Canadá e alguns europeus adotam o sistema, para permitir que a população de áreas rurais tenha acesso à Educação, fundados em explicações como dificuldade de acesso, baixa densidade demográfica de algumas regiões e o consequente pequeno número de alunos, que inviabilizam a criação de turmas voltadas ao atendimento de séries ou anos específicos.

 Julgo a necessidade de manutenção do sistema como um problema que emperra o progresso da educação nacional, especialmente a joanina, porque o aprendizado é bem mais lento, muito conturbado, quase inexistente. Os desafios enfrentados são grandes, sobremaneira a prática docente, onde o professor precisa “se virar no turno” para dar conta de vários níveis de aprendizagem, aplicar as atividades de cada ano, resultando em muitas ações para um espaço de tempo que se torna exíguo. Classes diferentes ocupam o mesmo espaço, a mesma sala de aula, algumas vezes com professores diferentes. Enquanto um fala, o outro cala! Mas a situação típica do processo é como a nossa, em que o mesmo professor tem a responsabilidade de trabalhar com todas as séries – o que resulta em menos aproveitamento dos conteúdos.


Seria até aceitável a composição de uma classe com alunos de duas séries, no máximo. Mas a manutenção do sistema, com três ou mais séries, é improdutivo e absurdo. Temos classes multisseriadas com crianças da Educação Infantil e outras dos primeiros anos do Ensino Fundamental. Um verdadeiro despautério!

Em ambas as situações, há inconveniências e dependências de maior preparo e esforço dos professores. É muito difícil trabalhar em uma sala extremamente heterogênea contemplando todos os alunos, independentemente do nível de conhecimento de cada um. É difícil estabelecer uma divisão do tempo didático eficazmente. Enquanto uma parte da turma, constituída por alunos de determinada série está recebendo explicações ou desenvolvendo uma tarefa, os alunos de outra série estão desocupados e mesmo que tenham uma atividade para desenvolver, ficam desconcentrados, pela interatividade que o professor tenta exercitar com a série que trabalha naquele momento. A concentração fica limitada e o processo além de ser lento, acaba sendo prejudicado, pois não há como desenvolver um assunto sem interrupções. Como professor, afirmo que não é fácil para as crianças se concentrarem em uma tarefa com a professora explicando matérias diferentes aos colegas.

A maioria dos professores tem dificuldades de realizar atendimento individual aos estudantes e planejar as aulas de várias séries e diferentes níveis do Ensino Fundamental para uma mesma turma. A falta de material didático e bibliotecas no ambiente rural também é um entrave rotineiro na realidade das classes multisseriadas. O resultado é exatamente aquele que vem se perpetuando e crescendo ao longo de cada ano letivo: déficit de aprendizado.

Os professores do Ensino Médio são testemunhas do quão desprovidos de conhecimentos fundamentais são os jovens egressos das escolas públicas, que chegam a este nível mais avançado, tanto aqueles que provém do seriado, quanto do multisseriado, mesmo quando compõem classes de número reduzido de alunos. Normalmente, as classes do Ensino Médio têm número elevado de alunos e essa realidade quantitativa dificulta o trabalho nesta etapa, acarretando no insucesso da Educação Básica, o que leva os poucos interessados e os possuidores de melhores condições financeiras a implementarem seus estudos, com vistas ao ingresso no Ensino Superior em aulas particulares e dedicadas horas de estudo.


Com convicta certeza, o aprendizado poderia ser melhor se erradicássemos o sistema de classes unificadas em um só espaço. Se cada turma ocupasse uma sala de aula, seria bom para o professor e para o aluno, bom para a EDUCAÇÃO.

O sistema multisseriado interfere no processo de aprendizado de forma prejudicial. Onde for possível a instalação do seriado, que seja feita. É de bom alvitre o reconhecimento de que é melhor que nada, mas deve ser mantido somente onde lamentavelmente funcionalidade do seriado seja difícil, no entanto, com a implantação de programas e projetos de letramento, melhor capacitação dos professores que atuem nessas classes e reforço com professor de apoio, como alternativa de melhorar seus resultados.

Aproveitemos as necessárias mudanças no processo educacional e erradiquemos nossos problemas cruciais, a fim de evoluirmos. Mudar é para gente inteligente, desprendida e aberta ao racional empreendedorismo, afinal, os bons resultados sempre promovem a felicidade de todos!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

A ascenção do caboclo mamador

 Por Antônio Francisco de Sales Padilha (*)

 

A tarde findando, passando o bastão para a noite que espreitava o momento de entrar em cena. O sol refletia seus exuberantes raios avermelhados nos coqueiros da casa de Luís Brenha. Os coqueiros balançavam como se estivessem dançando para anunciar que a noite seria clara, a brisa leve e quem sabe as estrelas cintilariam e clareariam a mente de Rodolfo, um belo mancebo, que além da beleza, gabava-se de sua arguta inteligência. “Tudo que quero, eu consigo” afirmava sempre, orgulhoso de sua tenacidade, que, às vezes, podia lhe colocar em situações embaraçosas, mas sempre resolvidas da melhor maneira plausível, o que lhe levou a pensar que além da beleza, seria o mancebo mais inteligente daquelas plagas.

Eduardo, sabedor de que Nizete, afamada mãe de santo da cidade, estaria mandando bater tambor nessa noite, convidou Rodolfo para assistirem à cura, pois, na roda do candomblé, sempre acontecia “cura” de alguém que se encontrava enfermo - mais de doenças psicológicas do que físicas, quando o doente recebia umas boas baforadas de charutos, acompanhadas de rezas, benzimento e era envolvido pelas energias dos seres espirituais (encantados) atraídos pelos chamamentos e que costumavam baixar no terreiro.

Rodolfo arrumou-se, vestindo uma calça bem colada, a la Dória, apertada o suficiente para lhe deixar andando todo empinado e uma camisa polo, onde ficavam evidentes seus músculos peitorais avantajados, resultado de boas horas de treinos na academia de Lulu (o atleta). Arrumou seu cabelo, corte imitado do Dr. Hollywood, benzutado com uma generosa quantidade de creme de pentear para preservar a mecha de cabelo caindo no fugaz olho verde esquerdo, borrifou seu perfume Cabrochard , adquirido no mercado Ver o Peso em Belém do Pará, que exalava o aroma da floresta amazônica, lhe deixando irresistível, tal qual o Boto em dia de lua cheia.

A uns trezentos metros do terreiro de Izete, já se podiam ouvir o tilintar dos tambores, palmeados com energia e sensibilidade, principalmente por Nhô Nhô, que não somente tocava o seu atabaque como, tal qual o Maestro Herbert von Karajan, dirigia grupo de músicos que compunha a orquestra do terreiro, orgulho de Nizete, que fazia questão de dizer: nenhum terreiro tem uma parelha de tambor como a minha.

Rodolfo, ao chegar, chamou à atenção das meninas que gostam de meninos e dos meninos que gostam de meninos, tanto bela beleza física, pela calça apertada, que mostrava o contorno da cueca e de outras coisas mais e pelo aroma do Cabrochard que inundou o recinto, abafando e intimidando o fraco cheiro do defumador que tinha sido lançado no ar, antes do início dos trabalhos, para purificar o ambiente.

A certa altura, Nhô Nhô deu entrada para a orquestra, que prontamente respondeu ao seu gesto atacando a tempo o ponto (intróito convidatórium) de entrada das mães, pais, filhos e filhas dos santos, que em passos processionais, adentraram no centro do terreiro.

Todos vestidos de branco, com exceção de Ivete e Alzira, uma jovem branca, de 1,65 cm de altura, com seus 50 kg bem distribuídos, bunda arrebitada, pernas grossas, olhos verdes, lábios carnudos e com os seios protuberantes bem à mostra, o que despertava os instintos mais primitivos de acasalamento de qualquer homem que aprecie e goste de mulher, que vestiam vermelho escarlate.

Alguns dos pais e filhos de santos que gostam de homens, já tinham até pedido para Mãe Ivete que não aceitasse Alzira na roda do tambor, pois ela desviava à atenção dos visitantes do terreiro da verdadeira função do culto, pois ninguém prestava atenção nos trabalhos, pois todos ficavam inebriados com a beleza e a leveza da dança de Alzira. Rodolfo não foi exceção. Ao olhar os seios de Alzira, foi tomado por uma excitação tão forte que não se conteve, nem titubeou e afirmou ao Eduardo:- queres apostar quanto como vou chupar o peito daquela mulher? Indicando Alzira como a escolhida.

Eduardo, conhecedor dos princípios que regem um ritual de terreiro, e sabedor que isso seria impossível, afinal Alzira era casada, não teve dúvida. - Aposto 300 reais como tu não consegues. Trato feito, afirmou Rodolfo, já revirando os olhos e tremendo o corpo como se estivesse sido tomado por um ataque de epilepsia. Jogou-se no chão de terra batida, deixando empoeirada a bela cabeleira e a calça, que por pouco não se partiu. Alguém gritou: - ele tá no santo, ele tá no santo.

Como um animal, que se finge de morto para enganar seu algoz, Rodolfo deu um salto tão alto que pareceu mesmo que estava no santo, quem sabe um caboclo pulador, e após uns três rodopios no terreiro começou a cantar:- “eu sou o caboclo mamador, eu sou o caboclo mamador, eu vim prá mamar, eu vim prá mamar, eu vim prá mamar, eu vim”. E a cada vez que entoava seu canto, agora mais portentoso, com um arranjo feito incontinenti por Nhô Nhô, que percebeu a importância daquele momento, Rodolfo se aproximava dos seios de Alzira, que não se sabe se, em respeito ao santo ou, inebriada pelo Cabrochard de Rodolfo e pelo seu hálito de cravinho, que ele costumava mascar para deixar o hálito agradável, quando ia encontrar uma parceira, permitia que Rodolfo, vez por outra encostasse muito de leve o nariz em seu peitoral.

Os assistentes da performance percebendo a intenção de Rodolfo, começaram a comentar: esse caboclo vai mamar; ora se vai; ninguém pode impedir um santo de fazer o que ele quer quando ele baixa. A cada volta que dava no terreiro, Rodolfo rodopiava e se aproxima mais e mais de Alzira, que nada poderia fazer a não ser abaixar um pouco o vestido vermelho e deixar o mamilo à mostra para que o caboclo mamador cumprisse o seu desiderato. Manequinho, marido de Alzira, começou a se incomodar com aquela situação. Como ficaria sua reputação se o caboclo mamador conseguisse seu intento?

Lembrou de Raimundo de Dico que, apesar de casado, saia toda noite para a parte do quintal onde ficava o pergolado de madeira para sustentar a plantação de maracujá e a mulher desconfiada, em uma noite de lua cheia, seguiu e encontrou Mamede montado em cima dele. A mulher, estupefata, perguntou: - o que é isso, seu safado? O marido, se soltou de Mamede, levantou a calça e fingindo que estava no santo respondeu:- não sou eu, mulher, é caboclo do maracujá. Mesmo assim, a mulher não respeitou o santo e lhe encheu de bordoadas com o cabo de vassoura e ele ficou muito falado na cidade. Por onde ele passava ouvia algum engraçadinho dizer:- lá vai o caboclo do maracujá. Ora, Ora, todo mundo vai me chamar de corno de santo, pensou Manequinho. Não, não posso deixar isso acontecer.

Como que tomado por um insight inconsciente freudiano, Manequinho caiu no terreiro tão desajeitado, pareceu mais um saco de batatas, mesmo assim, não se fez de rogado, foi se levantando lentamente e meio desengonçado começou a dançar. Manequinho rodopiou e conseguiu chegar bem perto de Rodolfo que estava praticamente com a cabeça bem posicionada para atingir os seios de sua esposa e se dirigindo bem pra perto do ouvido de Rodolfo, iniciou seu ponto: eu sou o caboclo comedor, eu sou o caboclo comedor, eu vim pra comer eu vim pra comer o fiofó do caboclo mamador. Rodolfo, ao perceber a enrascada que tinha se metido, afastou-se de Alzira e se estatelou no chão, revirando os olhos e começou a gemer. Os presentes começaram a gritar: “tira ele da roda, tira ele da roda que o santo foi embora”.

Rodolfo, discretamente, com os olhos entreaberto viu Alzira deslizando no chão batido, parecia agora uma bailarina dançando a morte do cisne (ou seria do guará?) de Camille Saint Saëns   ”a cada instante, devemos morrer, e deixar morrer aquilo que já não tem mais sentido dentro de nós, guardando a devida beleza de termos feito parte do grande espetáculo da Vida”.

Rodolfo teve que deixar morrer a sua prepotência de que tudo ele podia e que era mais inteligente de que os outros, pois, nesta vida, sempre haveremos de encontrar alguém mais inteligente que nós, onde a gente menos espera.

(*) Natural de São Bento, escritor, maestro, professor e Doutor em Música.

sábado, 23 de janeiro de 2021

AS VELAS DO RIO PINDARÉ

 Por Expedito Moraes (*)



Na minha infância passava horas e horas espiando a subida dos barcos no rio Pindaré.

Surgiam de repente no estirão, quase que na preamar, e o rio se transformava em uma imensa passarela com espetaculares desfiles de barcos. Não sei de onde apareciam tantos. Vinham em bando, um atrás do outro, deslizando silenciosamente com seus panos (velas) de lona triangulares em cores diversas: azul, encarnada, amarela, branca, verde, marrom; com seus cascos bem crenados e pintados com tintas de tons fortes; com nomes escritos com letras bem desenhadas de santos, de estrelas, de mulheres, de peixes, de amores... era um colorido fantástico.

Estes barcos, não motorizados, dependiam das forças da natureza ou das mãos humanas. Hora empurrados pela força das marés (pororocas) que invertiam a corrente do rio e, dependendo das fases da lua cheia ou nova, a velocidade da correnteza rio a cima era muito maior e permanecia durante quase 3 horas elevando a lâmina d'agua até o cimo da barreira, principalmente entre os meses de setembro a dezembro. Nesses dias, entre às 11 e 12 horas da noite ou do dia, quando a pororoca vinha ouvíamos o ronco da “bicha” à distância. Era um "Deus nos acuda". Vinha "lambendo barreira" com mais de cinco metros de altura.

Outras horas eram empurrados rio a cima pelo vento que, quando forte, estufava seus panos e imprimia maior velocidade. E, dependendo do sentido que sopravam, em cada estirão singravam as águas em reta ou bolinando, movimento que consiste ir de uma margem a outra aproveitando a força do vento e que exige do governante uma destreza enorme de lidar com o leme e a mudança do pano de um lado para outro no momento da manobra, que não sendo sincronizados pode causar sérios acidentes, inclusive o naufrágio ou encalhamento da embarcação.

Na falta do vento os barqueiros o chamavam com assobios agudos. E quando este não vinha o jeito era usar a força dos braços vogando ou empurrando à vara. As varas de mais ou menos 7 metros eram usadas pelos barqueiros com o barco abeirando as margens até uma profundidade máxima da metade da vara, de modo que a ponta ficasse à altura do peito e apoiada na mão em concha sobre o tórax empurravam o barco rio acima e contra a correnteza.

Esses tipos de embarcações eram lentos e subiam o rio carregados de sal grosso, querosene, pedras de amolar e outras mercadorias. Passavam dias e dias viajando entre a "Cidade" - expressão ribeirinha interiorana para se referir a SÃO LUÍS -  e o Pindaré. Por onde passavam vendiam suas cargas. Comprávamos o sal em latas de querosene, depois socávamos no pilão pra salgar peixes, carnes, que depois pendurávamos na ponta de um caibro do lado de fora da casa para escorrer a salmoura.

Saudades disso. Não existe mais.

(*) Expedito Moraes é natural de Cajari. É administrador e ex-Deputado Estadual.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

TOMOU A VACINA AMARRADO QUE NEM GADO CONTRA AFTOSA

 Por Nonato Reis

 

Imagem ilustrativa/O Globo


As cenas de pessoas vociferando contra vacinas anti-Covid-19 e até maluquices como achar que, recebendo o seu princípio ativo no organismo, o sujeito pode sofrer mutações, a ponto de se transformar em réptil, remetem, inevitavelmente, a um tempo distante no Brasil, quando os moradores eram vacinados à força.

Isso aconteceu em 1904, no Rio de Janeiro, com a primeira campanha de vacinação em massa no país, para combater a varíola, que grassava na cidade. O episódio, considerado épico pelo seu ineditismo, fora patrocinado por agentes sanitários, que invadiam as casas e vacinavam as pessoas que nem gado.

Culpa do governo federal que não teve o cuidado de preparar a população, informando-a devidamente sobre a vacina e a sua importância no combate à epidemia. Boa parte da população não sabia do que se tratava e temia ser infectado pelo vírus da doença a partir da injeção, e essa desinformação acabou por provocar uma grande reação popular, que entrou para a história como a “Revolta da Vacina”.

A origem das vacinas remete ao século 10, na China, quando surgem os primeiros vestígios do uso de imunizantes, com a introdução de versões atenuadas de vírus no corpo humano. Só que a técnica aplicada nem de longe lembrava os métodos atuais. Os chineses trituravam cascas de feridas provocadas pela varíola e assopravam o pó, com o vírus morto, sobre o rosto das pessoas.

O termo “vacina” surgiu pela primeira vez, em 1798, a partir de uma experiência do médico e cientista inglês Edward Jenner. Ele ouviu relatos de que trabalhadores da zona rural não pegavam varíola, por haverem contraído a versão bovina, de menor impacto no corpo humano. Então introduziu os dois vírus em um garoto de oito anos e percebeu que aquilo tinha de fato uma base científica. A palavra vacina deriva justamente de Variolae vaccinae, nome científico dado à varíola bovina.

O certo é que, apesar de comprovadamente eficazes, e de produzirem reações mínimas no organismo das pessoas, as vacinas, até hoje são recebidas com desconfiança por parcelas da sociedade. Só para se ter uma ideia do tamanho dessa resistência, uma pesquisa de 2014, feita a pedido do Ministério da Saúde, mostrou que a média de vacinação no país era de 81,4%, enquanto que entre os mais ricos ficava em 76,3%.

 Se nas grandes cidades há rejeição contra as vacinas, imagine-se nas localidades da zona rural de difícil acesso. No Ibacazinho dos anos dominados pela luz do querosene, tomar vacina era um drama. Eu mesmo atravessei toda a infância sem receber um soro imunizante, sequer. Não por que temesse algum efeito colateral, mas por sentir pavor de injeção. Só de olhar uma seringa com agulha eu tremia feito vara verde.

Lembro de uma campanha de vacinação contra sarampo levada a efeito no início dos anos 70. Os moleques eram resgatados de dentro do mato, como se fossem rês desgarradas do rebanho. Sebastião Xoxota, personagem do romance “A Saga de Amaralinda”, deu show. Quando os agentes chegaram na casa dos pais dele com aquelas caixas de isopor a tiracolo. Tião fugiu por uma das janelas e desapareceu no mato. O pai, esbravejando, ordenou para os outros filhos: “peguem esse moleque”. Os irmãos se lançaram em perseguição a Tião, rasgando a floresta de cipó e cauaçu, que guarnecia a entrada da casa.

Tião acabou capturado em pleno Cemitério dos Anjos, quando tentou escapulir do cerco pulando entre duas sepulturas, escorregou e caiu. Os irmãos, tendo à frente “Cajueiro, o Grande”, amarraram os pés e as mãos dele com corda de prender garrote e o levaram até a presença dos agentes, que, assim, puderam vaciná-lo. Concluída a operação, um dos técnicos quis saber se a picada doera, ao que Tião reagiu, os olhos faiscando. “Meta um ferrão desse na bunda e o senhor vai ver se dói”.