segunda-feira, 20 de maio de 2019

No mato sem Cachorro


Por José Sarney

Nos ditados populares, nosso povo cunhou uma expressão para o momento em que estamos numa situação difícil: no “mato sem cachorro”. Quando vejo as dificuldades que estão sendo atravessadas pelo Presidente Bolsonaro, acho que o Brasil está assim.

Estamos enfrentando duas crises: uma, interna, da falta de recursos, recessão, no trincar da estrutura dos três poderes, Legislativo, Executivo e Judiciário; a outra, de natureza mais grave, porque estrutural, de mudança da humanidade, que está passando da sociedade industrial para a sociedade digital e das comunicações.

Surgem novos conceitos sobre valores secularmente sedimentados e novas palavras para defini-los. A mentira é pós-verdade, fake news; novas definições surgem: modernidade, sociedade líquida (as mudanças são de velocidades imperceptíveis), a morte da verdade e da democracia representativa, a interlocução, na sociedade democrática, das redes sociais, enfim, um mundo transformado e não em transformação.

Na conjuntura, nosso País, saindo do sonho para o feijão, está com 58 milhões de desempregados, entre os que perderam as carteiras assinadas, os desocupados, os que nunca procuraram empregos e os biscateiros.
Essa é a maior tragédia.

Sem emprego não tem contribuição previdenciária, não tem consumo, não tem trabalho e, pior, não tem desenvolvimento e caímos na recessão. Esperávamos que com o novo governo as expectativas melhorassem, os investimentos chegassem, o Brasil crescesse.

Os otimistas calcularam um modesto crescimento de 3% neste ano. Os economistas o abaixaram, pouco a pouco, e já está em 1,3%. Nosso Maranhão, também atingido pela crise nacional, ano passado já cresceu como rabo de cavalo, para baixo, menos -5,6% (o último ano de crescimento, 2014, foi mais 3,9%). Atualmente o nosso desemprego está mais alto, e apenas pessoas em desalento — que desistiram de procurar trabalho — já são 560 mil, segundo o IBGE.

Enquanto esse tsunami derruba tudo, o governo põe todas as suas fichas na aprovação da Reforma da Previdência, necessária, pois sem ela em 10 anos não teríamos dinheiro para sustentar os aposentados e nem como pagá-los. Eu acho que é uma pós-verdade, para usar uma linguagem atual. No meu governo a Previdência teve superávit em quase todos os anos. Por quê? Porque o Brasil crescia a 5% ao ano, e o desemprego era em média 3,86%. E empregados contribuem e dão recursos à Previdência. Assim, nosso maior problema é crescer, desenvolver. É a experiência do “saber feito”, para citar Camões. Até hoje não se repetiram os números de crescimento do meu mandato, PIB de 119,20%, e renda per capita de 99,11%. Quem quiser conferir vá na internet e veja os sites da Fundação Getúlio Vargas e do Banco Central.

E tudo mais está à espera da Reforma da Previdência, os investimentos estatais pararam: saúde, educação, energia e transportes intermodais. A Federação está desintegrada. Os Estados, falidos, uns mais, outros menos. Os políticos, no paredão, e o Bolsonaro debaixo de uma fuzilaria sem trégua. Numa síntese disso tudo está o Brasil. Ele é que apanha mais, aqui e lá fora.

Mas eu sou otimista e, quando presidente, afirmei quando veio o vendaval: o Brasil é maior do que qualquer problema, maior do que o famoso “abismo”. Nossa força, nossa riqueza, nosso povo vai superar tudo, sairemos do “mato sem cachorro” e voaremos em “céu de brigadeiro”.


domingo, 12 de maio de 2019

O Ferro-Boto


Por José Sarney

Quem se lembra hoje de como começou o ferry-boat e o grande impacto que teve na Baixada? Primeiro que ninguém o tratava com o nome inglês, e o linguajar popular só o chamava de FERRO-BOTO. Ele era um sucesso. Um cantador de boi, em Pinheiro, fez para mim uma toada que louvava a embarcação, capaz de fazê-lo “tomar café em Pinheiro / almoçar em São Luís / e jantar em Pinheiro / com bagre, farinha e jaboti”.

Foi uma melhoria e tanto. A Baixada não tinha sequer um quilometro de estrada, só se saía a cavalo, boi-cavalo (no inverno) ou teco-teco — dos famosos comandantes Maranhão, Gaudêncio, Diegues ou Prezado (que, graças a Deus, ainda o temos vivo e testemunha daqueles tempos).

Eu, Governador estradeiro, asfaltando a São Luís-Teresina, abrindo a Miranda-Arari-Santa Inês, a Açailândia-Santa Luzia e conectando o Maranhão, via minha Baixada isolada e abandonada.

Chamei o Vicente Fialho, Diretor do DER, grande técnico e excelente executivo, para fazer um programa de estradas para a região. Criei o 1º Distrito Rodoviário da Baixada, em Pinheiro, na ligação com o Gama. Começamos a rasgar estradas para São Bento, Bequimão, Santa Helena, Pedro do Rosário e Alcântara. O primeiro problema era como chegarem as máquinas, já que o único meio de transporte era os barco. Dois dias de mar aberto. Era uma epopeia. Mas a vontade de fazer era maior do que os problemas a enfrentar.

Nosso objetivo era dar à Baixada uma via de escoamento mais rápida, sem precisar de dar a volta por Bacabal, mais 400 quilômetros. Tudo era isolado, mas na nossa cabeça estava delineado um mapa imaginário feito de amor ao Maranhão. Para isso tínhamos que atravessar a Baía de São Marcos. Eu me lembrei do sistema de ferry-boat de Hong Kong,que tem sua mobilidade urbana nesses barcos, e quis fazer um igual. Quando as estradas estivessem prontas, já devíamos ter o ferry-boat pronto para aproximar a Baixada. Como consegui-lo?

Outra dificuldade veio nos ajudar. A produção de óleo de babaçu tinha problemas para ser escoada, pois o porto de São Luís, em frente ao Palácio, já não recebia navios. Resolvi perguntar à Associação Comercial se algum industrial se interessaria por construir e operar um navio. No princípio ninguém quis, mas então surgiu o empresário José Salomão, que aceitou o desafio e depois transformou-se num grande armador nacional. Era um navio pequeno, de mil toneladas. Pois foi o Salomão quem se lançou para operar um ferry-boat. 

Assim, ligamos a Baixada a São Luís. Quem se lembra disso? Os que tinham 15 anos hoje têm 65, e a juventude não sabe o que era e o que é hoje o Maranhão, com o Itaqui e 10.000 pessoas por dia atravessando a baía.

Fico feliz quando vejo que todas estas coisas que nasceram na minha cabeça hoje são realidade. Agora precisamos de um plano para desenvolver a Baixada.

Antes de encerrar: eu também, como Governador, pensei nisso e criei a Companhia de Desenvolvimento da Baixada Maranhense – Codebam, para fazer uma barragem na foz do Mearim e irrigar os campos, transformando-os em plantações de cerais, criação de peixes, camarão — como Guaiaquil, grande polo exportador e responsável pelo progresso do Equador, região semelhante à nossa Baixada.

Não tive dinheiro nem tempo. Mas a ideia é mais forte. Um dia virá.


quinta-feira, 25 de abril de 2019

A CRÔNICA DO DIA


HOJE É DIA DE... 


MIRREGUE, MAIOR QUE SALOMÃO
(*) Nonato Reis


Eu participava de uma operação nacional do Projeto Rondon, em Mari, município nos arredores de João Pessoa, na Paraíba. Como tinha função de supervisão, sobrava-me tempo para fazer o que sempre gostei: conversar com os moradores, conhecer o seu quotidiano, identificar os seus personagens. Certo dia um líder comunitário aproximou-se de mim e comentou:
- Pena que você chegou tarde e não conheceu o Mirregue.
Levei um susto. 
- Mirregue!!?
Quis saber o que significava aquilo. O cara sorriu e explicou. 
- Mirregue foi um milagre da espécie macho. Ganhou esse apelido ainda na infância. Baixinho e rechonchudo, adorava fazer sexo com animais. Como não conseguia alcançar a altura ideal para a cópula, pedia a ajuda de alguém, dizendo “mirregue!”, que significa me sobe, me levanta.
Achei aquilo engraçado, e na mesma hora me lembrei de Charles, um sujeito que morava em Viana e tinha compulsão por sexo com animais. Dizem que Charles, na fase mais aguda, ali dos 15 para os 18 anos, dizimou a criação de galinhas de sua família e não dava sossego aos fazendeiros da região. A ponto de Zé Aroucha, um criador de ovelhas, tê-lo procurado de garrucha em punho, disposto a apertar o gatilho, coisa que só não aconteceu pela intervenção da esposa dele, que se lançou entre os dois aos prantos. 
- Não faça isso, porque você mata ele e acaba com a nossa vida.
Mas o assunto aqui é Mirregue, e devo dizer que me interessei por saber mais sobre o mito. O cidadão contou-me que o ímpeto sexual o fazia diferenciado.
“Dizem que nem Salomão foi páreo para ele. Nunca passou uma noite sem sexo. Teve mais de 2.000 mulheres, e em pelo menos metade delas deixou herdeiros. Quase formou uma cidade só com os seus descendentes. O cara era um reprodutor incrível. Não havia nada igual”.
Ocorre que o tempo passa para todos, e para ele passou rápido demais. Um dia, sem mais nem menos, o pinto de Mirregue embicou e parou. Pediu aposentadoria. Para ele foi como morrer. Entrou em depressão, deixou de comer, ficou transtornado. 
Os amigos o aconselharam a procurar um médico, não um médico qualquer, desses que dão consulta toda semana em postos de saúde, porém um especialista do ramo. 
Com muito sacrifício conseguiu a consulta e explicou o seu drama ao urologista que, alguns exames depois e meses de espera, receitou-lhe umas pílulas branquinhas, com a advertência de que não extrapolasse a dose, que devia ser apenas um comprimido antes do ato sexual.
Mirregue, ansioso para ver o companheiro de volta à arena, ignorou a recomendação do médico e tomou logo cinco cápsulas de uma vez. O efeito foi devastador. Com o pinto vivíssimo novamente, partiu para descontar o atraso. 
Primeiro pegou a esposa e com ela passou a noite inteira dedicado aos prazeres da carne. No dia seguinte, morta de sono e alquebrada, e vendo o marido naquela danação, arrumou as trouxas e abandonou a casa. 
Mirregue olhou em volta e se deparou com a cunhada, que assistia à cena estupefata. Sem lhe dar tempo de reagir, deitou-a no chão de cimento duro e lançou-se sobre ela. Já no final da tarde, igualmente exausta, a cunhada se desvencilhou das garras de Mirregue e bateu em retirada.
Foi até a cozinha e, arma em punho, esbarrou na empregada Tertulina, famosa pelos atributos traseiros, que procurava algum condimento nos armários da pia.
Lá pelas tantas da noite, Tertulina, suando em bicas e com as pernas bambas, conseguiu escapar do massacre e correu para a rua, a gritar por socorro. Alguém precisava fazer alguma coisa. Ou amarravam o patrão ou ele dizimaria a população feminina da cidade.
Vendo Mirregue com o dedo no gatilho, pronto para novas refregas, os vizinhos não tiveram outra saída: enrolaram-no em um lençol e o levaram para João Pessoa, onde passou por uma intervenção cirúrgica para desobstrução dos canais que irrigam o pênis e sustentam a ereção. 
Mirregue livrou-se do priapismo, mas seu companheiro de jornada sexual vestiu o pijama, sempre condenado à flacidez. 
De desgosto definhou e viu a morte surgir diante dele. No leito mórbido, às pessoas que o tentavam reanimar, oferecendo-lhe alimento, ele respondia num fiapo de voz: “eu quero é f...”. Depois, já sem voz, quando lhe perguntavam se queria alguma coisa, quem sabe um chá ou uma colherzinha de leite, batia várias vezes com a palma da mão direita na outra mão fechada, num gesto que simboliza o ato sexual. 
Já perto do fim, pálido e sem forças, apenas tocava com a ponta do dedo indicador de uma mão na entrada do círculo formado pela outra mão, em resposta sobre se desejava alguma coisa. Até que os movimentos cessaram e o dedo saliente ficou para sempre enterrado no vão da outra mão. 
Após sua morte, a casa em que morava virou tapera e palco de assombrações. Tarde da noite, ao passar por ali, as pessoas diziam ver um vulto vestido em uma saia branca a implorar por ajuda: “mirregue!!!”

(*) Nonato Reis é jornalista, poeta e escritor.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Paula do BBB 19 e Bolsonaro: tudo a ver


Por Daniel Trevisan


O colunista de TV Tony Goes comparou Jair Bolsonaro a Paula von Sperling, a vilã que venceu o Big Brother Brasil. Em artigo publicado na Folha, ele afirmou:

“É impossível não comparar o resultado do BBB 19 com o da última eleição presidencial. A mão do destino interveio nos dois casos, prejudicando o favorito só para lhe garantir a vitória final. E o Brasil saiu ainda mais dividido do que entrou”, disse.

No caso de Bolsonaro, foi a facada que possibilitou a ele o atestado médico para fugir dos debates sem precisar dizer que estava com medo. Já Paula foi beneficiada pelos efeitos de uma bebedeira. Sua amiga, Hari, que teria chance de vencê-la, se descontrolou e a empurrou.

A vilã caiu, e seus seguidores, paulaminions, fizeram campanha na rede social pela eliminação da candidata que poderia lhe tirar a vitória. Aconteceu.

Paula levou um bom dinheiro — 1,5 milhão de reais — e conseguiu defensores fanáticos, que são, como ela, preconceituosos e racistas.

Mas, fora do programa, a vida de Paula não será tão fácil como a de outros vencedores do BBB. Que marca associaria sua imagem à da mulher que despreza negros e ataca a religião de matriz africana?

Assim como Bolsonaro, Paula terá algum problema com a Justiça e se tornou aquela pessoa que desfaz uma roda ou que, ao entrar em um elevador, todos saem.
Na festa de encerramento do programa, seis participantes se recusaram a permanecer no local quando ela chegou. Saíram e foram comemorar em outro lugar.

Não parece a reação da comunidade acadêmica de Nova York ao anúncio de que Bolsonaro será homenageado em um dos templos da cultura e da ciência, o Museu de História Natural?

Paula poderá ficar em casa contando o dinheiro que ganhou, mas jamais será admirada. Terá seguidores, raivosos, mas não admiradores. O que, para ela, talvez pouco importe. No mundo em que vive, o umbigo é o ponto mais longe que consegue enxergar. Talvez lhe sobre a chance de se filiar ao PSL e se candidatar a algum cargo.

Poderia compor um trio no parlamento com Joice Hasselmann e o delegado Valdir. Ou assumir uma cadeira no senado, para conversar com a senadora Soraya Thronicke sobre o aquecimento global ou as questões indígenas.

Paula é o reflexo de um tempo em que os imbecis foram empoderados.

Como o Brasil, o programa de televisão precisa mudar.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Professor responde a Eduardo Bolsonaro


Ao senhor Eduardo Bolsonaro,
Não vai ser possível te fazer compreender a grandeza de Paulo Freire nesses poucos parágrafos, pra isso seria necessário o senhor ler os livros dele antes de se propor a falar sobre o que você não entende. Mas posso tentar te ajudar a saber um pouco melhor quem foi Paulo Freire, um homem de espírito grande, e livre de muitas das amarras do ego que a maioria de nós trazemos.
Patrono da educação brasileira, Paulo Freire é o acadêmico brasileiro mais homenageado de todos os tempos, com títulos de Doutor Honoris Causa em 29 universidades da Europa e da América, além de centenas de outras menções e prêmios internacionais, entre eles o prêmio Educação pela Paz, da UNESCO, que Freire recebeu em 1986.
De acordo com levantamento do pesquisador Elliott Green, professor da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, Paulo Freire é o terceiro pensador mais citado do mundo em trabalhos acadêmicos da área das ciências humanas.
Sua obra 'Pedagogia do Oprimido' é o único livro de autor brasileiro na lista dos 100 livros mais pedidos em universidades de língua inglesa pelo mundo. E quando consideramos apenas os autores da área da Educação, o livro de Paulo Freire é o segundo livro mais consultado em bibliotecas de língua inglesa do mundo inteiro.
Na década de 1960, Paulo desenvolveu uma metodologia que alfabetizou 300 cortadores de cana no Rio Grande do Norte em 45 dias. Isso só foi possível porque a metodologia de Freire baseou-se nos contextos e saberes de cada comunidade, respeitando as experiências de vida próprias de cada indivíduo e utilizando estas sabedorias locais para otimizar os processos de alfabetização. Foi então convidado para preparar o Plano Nacional de Alfabetização, no governo João Goulart, que previa a ampliação da sua metodologia para formação de educadores em escala nacional. Porém, o Golpe Militar interrompeu esse plano, Paulo Freire foi preso por 70 dias e posteriormente exilado do país. Em 1968, Freire foi convidado para ser professor visitante na Universidade Harvard, Estados Unidos.
Atualmente, há instituições de ensino que seguem o método Paulo Freire em diversos países. É o caso da Revere High School, escola em Massachusetts que em 2014 foi avaliada como a melhor instituição pública de Ensino Médio nos Estados Unidos.
Não é nenhuma surpresa que seu Jair "queremos-uma-garotada-que-não-se-interesse-por-política" Bolsonaro queira acabar com a influência de Paulo Freire na educação brasileira. O próprio Freire explicou antecipadamente essa intenção de Bolsonaro numa frase bem didática:
"Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica" (Paulo Freire)
É verdade que infelizmente as ideias de Paulo Freire não foram amplamente colocadas em prática no Brasil. Se nossas escolas tivessem realizado concretamente a ideia de educação para o pensamento crítico e libertário de Paulo, provavelmente o senhor Eduardo Bolsonaro e seu pai jamais teriam sido eleitos representantes do povo brasileiro. Então não surpreende de nenhuma forma que o senhor e seus eleitores não conheçam bem o trabalho de Paulo Freire.
Você, seu pai e Olavo propõem acabar com a influência de Paulo Freire na educação brasileira alegando que ele teria "acabado com o nosso ensino". O engraçado é que as ideias de Paulo Freire, tendo sido muito mais aplicadas no exterior do que no Brasil, de nenhuma forma acabaram com a qualidade do ensino dos seguintes países:
Austria - Instituto Paulo Freire
http://www.pfz.at/
Alemanha - Paulo Freire Kooperation, Oldenburg
http://www.freire.de/
Finlândia - Paulo Freire Center
http://www.kriittisetpedagogit.fi/
Holanda - Centro Paulo Freire, Vrije Universiteit Amsterdam
https://www.vu.nl/…/about-vu-amsterdam/facul…/cpf/index.aspx
Inglaterra - Freire Institute, University of Central Lancashire
http://www.freire.org/
Estados Unidos - Paulo Freire Democratic Project, Chapman University
https://www.chapman.edu/…/centers-a…/paulo-freire/index.aspx
Canada - The Freire Project
http://www.freireproject.org/
França - Institut International bell hooks - Paulo Freire
https://emancipaeda.hypotheses.org/
Itália - Istituto Paulo Freire
http://paulofreire.it/
Portugal - Instituto Paulo Freire
http://www.ipfp.pt
África do Sul - Paulo Freire Project, University of KwaZulu
http://cae.ukzn.ac.za/PauloFreireProject.aspx
Portanto, seu Eduardo, me diga você quais foram os prêmios, as menções honrosas internacionais, o reconhecimento acadêmico ou mesmo prático de Olavo de Carvalho em alguma fila de pão do Brasil profundo, e então voltamos a conversar.
Desejo humildade e sabedoria pro senhor.
Prof. Rafael Dias.


A MÃE DE SANTO E AS ALGEMAS


Nonato Reis (*)

A viatura da Polícia Militar parou quase no final da rua, um lugar deserto e de aparência mal cuidada nos arredores de São Luís. O bairro, como tantos outros da cidade, se originara de um processo de invasão e ostentava os sinais da falta de planejamento urbano, com vias esburacadas e lamacentas, esgotos a céu aberto, iluminação precária e serviços de habitação e saúde deficitários.
As portas do veículo se abriram e dele desceram dois homens. Um era oficial de justiça e portava um documento. O outro estava ali para ser imitido na posse do último imóvel do lado esquerdo da rua - um prédio verde encardido em dois pavimentos, com péssima aparência. 
O oficial de justiça checou mais uma vez o documento, conferindo o endereço impresso no mandado com o número colado na parte frontal do prédio e bateu palmas, chamando pelo proprietário. “Ô de casa!”. Silêncio. Chamou de novo: “Ô de casa!”. Nada. Contornou a fachada frontal e se dirigiu a uma das janelas laterais. “Tem alguém aí?”
Tinha. Uma mulher vestida como mãe de santo, toda de branco, portando colares de sementes do mulundu e uma espécie de turbante na cabeça, surgiu na porta da frente, com cara de poucos amigos. “O que vocês querem aqui?” O oficial pediu desculpas pelo incômodo. De fato havia alterado um pouco a voz, já imaginando que não havia ninguém na casa. Mas, fazer o quê, são os ossos do ofício. Tratou de se apresentar.
- Sou oficial de justiça e tenho um documento para a senhora Maria dos Anzóis Pereira. É a senhora?
Ao invés de responder, a mulher perguntou.
- Que documento é esse?
- Uma imissão de posse para este senhor, que é o autor da ação. A senhora é a dona Maria dos Anzóis Pereira?
A mulher fitou o oficial como se quisesse esganá-lo, os olhos prestes a sacarem das órbitas.
- Ela não está...
- E quem é a senhora?
- Sou o caboclo das correntezas, o dono do “cavalo”. O senhor vai se atrever a mexer com um espírito das águas?
O oficial, já com anos de vivência na função, compreendeu que estava diante de uma patacoada e reagiu sem perder a pose.
- Olha, a ordem do juiz é para imitir o cidadão aqui na posse do imóvel e prender quem se opuser ao cumprimento do mandado. A entidade do além vai resistir?
O rosto da mulher avermelhou e, os olhos faiscando, desafiou o oficial.
- Aqui ninguém entra. E se tentar entrar eu mando para o fundo das correntezas espirituais.
O oficial então gritou na direção da viatura, estacionada a poucos metros dali.
- Capitão, chegue aqui, e traga dois pares de algemas. 
Dois policiais fardados deixaram a viatura e se aproximaram da casa. O capitão, ao olhar a mulher, questionou o oficial.
- Mas por que dois pares de algemas, se só tem uma pessoa?
E o oficial, em tom solene:
- Um par é para o senhor caboclo das correntezas, e o outro é para o “cavalo” dele, que responde pelo nome da dona Maria dos Anzóis Pereira. 
Antes, porém, que o militar levasse a ordem a sério a mulher berrou "vão pegar o demônio", e, junto com o caboclo das águas, desembestou na carreira, sumindo dentro de um matagal, no final da rua.
....
(*) Nonato Reis é jornalista e escritor.  A crônica acima integra o livro "Ossos do Ofício", que resgata histórias vividas por oficiais de justiça no cumprimento de mandados judiciais. Com lançamento previsto para o final do ano.


domingo, 14 de abril de 2019

HERÓIS NACIONAIS


Por Ceres Costa Fernandes

Profª Ceres Costa Fernandes
Muitos países costumam cultuar com grande zelo seus heróis nacionais, os pais da pátria. No Brasil, no curto espaço de duas gerações, na onda do revisionismo histórico, os heróis nacionais fundadores e, também, as grandes datas e acontecimentos históricos, trocaram, em alta rotatividade, pé com cabeça.

Quem foi Pedro Álvares Cabral? A data de 22 de abril não é mais comemorada nas escolas. Há controvérsias sobre o Descobrimento. O 13 de Maio passa em brancas nuvens e a Princesa Isabel é menos conhecida da criançada do que a Princesa Aurora, da Bela Adormecida. Cadê o Dia do Soldado? Era feriado na minha infância. Os feitos do Duque de Caxias ainda entusiasmam algum menino?

D. Pedro I passou de libertador a libertino - graças às séries de TV - e o Grito do Ipiranga, celebrado em nosso hino, virou um gemido ocasionado, dizem, por uma homérica indigestão. Ruy Barbosa, o Águia de Haia, foi também revisionado. Que é da fama do grande estadista? E o seu juízo nunca foi tão atual: “De tanto agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”. Ninguém duvida que a reavaliação da nossa história seja boa para refletirmos sobre nosso passado, com vistas à construção de um futuro. 

Mas será que desmontar as figuras tidas como fundadoras, sem cuidar de substituí-las, seja o caminho? Zumbi dos Palmares no lugar da Princesa Isabel não preenche todas as lacunas, e os abolicionistas José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, por exemplo, onde estão? Quem os representa na mente jovem?

“Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo”, são palavras clarividentes do cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues. É certo que um país precisa de mitos, heróis e líderes. Com o Congresso Federal composto, em grande parte, de aproveitadores, quadrilheiros e corruptos, que líderes e heróis podem sair dali? E a corrupção que grassa no executivo e no judiciário?

Ah, mas há o futebol! Em época de Copa do Mundo, aflora nosso patriotismo. É “a pátria de chuteiras” – Nelson novamente. De quatro em quatro anos, nos orgulhamos de ser brasileiros: vestimos verde e amarelo, a bandeira pátria tremula; gritamos, entusiasmados, Brasil! Brasil! Somos todos patriotas. Mas os ídolos futebolísticos são de barro, efêmeros, à exceção de Pelé, ou de alguns outros mais antigos, daqueles que não trocavam de time ou de país por dinheiro.

Com a miséria e o enfraquecimento da nossa cidadania, bandidos e “artistas” fabricados ganham espaço na mídia empobrecedora dos valores morais da juventude. A indústria dos CDs e vídeos louva o crime e empolga jovens, que outrora cultuavam os heróis “do bem”, a substituí-los por traficantes e criminosos, tipo Escadinha, Fernandinho Beira-Mar e o onipotente Marcola. 

Tentar desmontar esses falsos super-heróis, redistribuindo os traficantes para novos presídios de segurança máxima, com bloqueadores de celular, controle de visitas, foi um passo a frente. Nada de ordens vindas dos presídios? Se os corruptos forem punidos, professorinhas que enfrentam incendiários de escolas com a própria vida subirem ao patamar da fama, ainda haverá chance de nossa juventude retomar seus valores. Não mais precisaremos ter vergonha de ser honestos."

(*) Ceres Costa Fernandes, professora, escritora, integrante dos quadros das Academias:  Maranhense de Letras e  Ludovicense de Letras

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Dilúvio na Baixada e seca iminente


Por Flávio Braga

O Maranhão, em geral, e a Baixada Maranhense, em particular, têm experimentado uma precipitação pluviométrica sem precedentes nas últimas décadas. O volume das fortes chuvas acarreta o aumento dos níveis dos rios e lagos, provocando enchentes e inundações nas comunidades ribeirinhas. O rosário de lagos da Baixada transborda, se interliga e se converte em uma vasta extensão de água doce.

Na estação chuvosa anual, a Baixada se transforma em uma imponente planície alagada, que adorna o majestoso Pantanal Maranhense. Em 2019, esse fenômeno tem atingido proporções hiperbólicas.

Para surpresa de ninguém, uma situação insólita se avizinha. Daqui a alguns meses, essa mesma Baixada estará agonizando com o martírio da estiagem, desnudando um paradoxo sinistro, que mutila as regras da lógica e as leis da razão. A falta de água já se tornou uma calamidade pública anual, que submete as comunidades baixadeiras às mesmas privações e ao mesmo suplício durante o período crítico do verão maranhense.

Esse quadro de penúria é uma tragédia previsível e anunciada, mas incapaz de sensibilizar as autoridades que têm o poder de minimizar tamanho sofrimento, as quais fazem ouvido mouco para o grito de socorro ecoado da voz dos baixadeiros.

Causa assombro lembrar que entre os meses de abril e agosto de cada ano a Baixada fica envolta num verdadeiro mar de água doce. Entretanto, na época do abaixamento (entre julho e setembro), essa exuberância de água escoa para o mar e os campos da Baixada se transformam numa paisagem árida, imprópria para qualquer atividade produtiva, como consequência direta da omissão, descaso e negligência do Poder Público.

Conforme já enfatizamos repetidas vezes, as soluções para melhorar as condições de vida do povo que habita a Baixada são baratas, simples e de fácil resolução. Só depende da vontade política dos nossos governantes.

Quem conhece de perto a realidade da Baixada tem a noção exata do quanto são singelas as intervenções necessárias para represar a abundância de água das chuvas e salvar a Baixada do drama da escassez de água anual: açudes e barragens para conter a fuga da água doce dos campos e lagos da Baixada para a Baía de São Marcos. Simples assim.

Com efeito, a retenção da água doce nos campos da Baixada representa a maior riqueza para as atividades de pesca de subsistência, pecuária, piscicultura, agricultura familiar e pequenas criações, como galinhas, patos, porcos, caprinos e ovinos.

(*) Flávio Braga é advogado e professor de Direito Eleitoral.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

PONTE DO SÃO FRANCISCO: ACERTOS E CONTRADIÇÕES


Por Nonato Reis (*)

A Ponte do São Francisco ou ponte Governador José Sarney foi um sonho de gerações. Desde o final do século XIX freqüentava o imaginário de governantes e cidadãos, como marco para ampliar os horizontes de São Luís, então circunscritos ao núcleo histórico e ao corredor Monte Castelo/Olho d’Água. Integrou o Plano de Expansão do engenheiro Ruy Mesquita, lançado em 1958, que por meio dela projetara a cidade moderna. Este artigo tem por base a monografia de Natércia Cristina Freitas Moraes, apresentada em 2006, como pré-requisito para graduação no curso de História, da Universidade Estadual do Maranhão, e contribuições do historiador Joaquim Aguiar.
A primeira tentativa de construir a ponte do São Francisco ocorreu no mesmo ano em que foi lançado o plano de Ruy Mesquita, abastecida com recursos da União.
Por erro de engenharia, porém, o projeto acabou frustrado e as estacas de concreto fincadas na lama do Rio Anil tombaram sob a força das correntezas. Só dez anos mais tarde a idéia seria retomada, dessa vez de forma planejada.
O lapso temporal entre o início das obras da ponte e a sua inauguração em 1970 gerou interpretações diversas, ganhou as páginas dos jornais da época, virou chacota, ensejou vasta literatura. O poeta e escritor Carlos Chagas, talvez o maior cronista maranhense de todos os tempos, escreveria dois livros sobre o tema: “O Discurso da Ponte”, lançado em 1959, e “O caso da Ponte do São Francisco”, cinco anos depois. “Com pincel comprido ou curto,/pinte-a seja como for:/se a ponte é feita de furto,/torne a ponte furta-cor”, imortalizaria em versos o poeta, numa sátira aos diversos governantes que construíram a ponte apenas em falas e fotos para revistas.
No livro “São Luís, cidade radiante”, do arquiteto e urbanista José Antônio Viana Lopes, que será lançado este mês, há uma passagem em que o historiador Carlos Lima refere-se ao episódio como “o escândalo da verba aplicada em hipotética ponte, que não passou de três ou quatro sapatas, tão mal assentadas que a maré deslocou”.
A ponte sobre o Rio Anil constituía o eixo da política modernista de José Sarney, que planejava expandir São Luís para o São Francisco, a Ponta d’Areia e toda a faixa litorânea ao longo da baía de São Marcos. Assim, em 13 de junho de 1968, o jornal O Imparcial noticiava o início das obras interligando a Beira-Mar ao São Francisco, com traçado em concreto de 890 metros de extensão e recursos da ordem de 5 bilhões de cruzeiros antigos.
José Sarney queria algo que simbolizasse a sua filosofia modernizante e a ponte constituía um emblema desse esforço estrutural, tanto que, no início era chamada de “Ponte da Esperança”. Ao ser concluída, o apelo da vaidade pessoal falou mais alto e ela foi batizada com o nome do governador, numa ação cuidadosamente planejada, para consolidar os novos tempos no Maranhão e ligá-los ao seu arquiteto político.
Mais do que expandir os limites físicos da cidade, a ponte tinha o papel de incrementar a fé da população na capacidade realizadora do governo e a prova disso é que jornais da época como O Dia e O Imparcial saudavam-na como um marco do desenvolvimento urbano, da estética e do imaginário progressista. O jornal O Dia, em sua edição de 4 de julho de 1968, assinala em tom ufanista que “será uma das obras mais importantes no setor de urbanização de São Luís”.
A construção era acompanhada no passo a passo pela imprensa e o governador fazia inspeções quase diárias. Quando a construtora Itapoã, responsável pela obra, implantou o último pilar, O Imparcial noticiou o feito, informando que o governador assistira ao acontecimento. Dezenove meses depois, um a menos que o previsto no cronograma, a ponte seria inaugurada em grande estilo, numa festa que ficaria gravada no imaginário da cidade por muitos anos.
Ao dá-la por concluída, Sarney caminhou a pé, com a mulher Marly e as demais autoridades, toda a extensão de concreto, a partir da Beira-Mar até o palanque armado na outra margem do rio, onde se realizou a cerimônia de inauguração. Em seu discurso, usou um tom metafísico. “(a ponte) é a afirmação de todos nós (...), porque quando a maré enchia e quando a maré vazava a ponte do passado (também) vazava”.
No auge da empolgação, como bom orador, recorreu a um viés messiânico. “Conheci o poder e ‘o prover’, como dizia Summer Wells. Sei hoje olhá-lo dos dois lados do rio. Senti e agradeci a Deus, como verdade, aquele poder que Ele deu de dizer: “Faça-se a ponte do São Francisco! E ela se fez!”.
A ponte, como sabemos, não trouxe apenas o progresso para São Luís, mas também as suas contradições. Permitiu a urbanização de um vasto território, até então esparsamente ocupado, mas não promoveu a inclusão dos segmentos pobres que habitavam o mangue ao redor do São Francisco e da Ponta d’Areia.
Canoeiros que faziam a travessia entre o São Francisco e a Beira-Mar ficaram sem a sua fonte de sobrevivência. Pescadores e operários perderam suas casas, demolidas para darem lugar à avenida Marechal Castelo Branco. Até hoje habitam áreas insalubres e marginalizados das políticas públicas. Para esse contingente de excluídos, a “ponte da esperança” permanece como uma promessa vazia, que jamais se cumpriu.

(*) Nonato Reis é jornalista, poeta e romancista.