sábado, 14 de outubro de 2017

A CRÔNICA DO DIA

HOJE É DIA DE... 


ZÉ DA BURRA E O AMOR A “DAS DORES”

Por Nonato Reis

Imagem ilustrativa da internet
Nenhuma frase ou palavra seria capaz de descrever a relação de Zé da Burra com a “Das Dores”. Ele tinha por ela uma mistura de sentimentos que ia do amor à loucura, cruzando no caminho com o fanatismo e o desespero - uma força misteriosa que os ligaria para além da vida e do senso comum. Das Dores aparecera na vida do carroceiro ainda bebê, após um parto prematuro, que levou a mãe dela para o mundo invisível.
Órfã e necessitada de cuidados especiais, teria tido o mesmo destino da mãe, não fora a iniciativa de Zé, de levá-la para casa e dela cuidar como se fora uma filha.
Fizera-lhe cama de paparaúba – uma madeira leve e macia. Dava-lhe banhos diários, leite de cabra na mamadeira e atenção todas as horas do dia e da noite. Tanto desvelo despertou o ciúme da esposa, Joana, que não entendia aquela estranha ligação. “Home, tu ficou doido do juízo! Donde já se viu tratar um animal como se fosse gente! Nem comigo, que sou tua mulher, tu tem esse chamego”. Zé dava de ombros. “Deixa de besteira, Joana. A coitadinha é uma infeliz, que nunca nem conheceu a mãe. Se eu não tratar dela direito, como que vai se criar?”.
Sob os cuidados de um pai zeloso, Das Dores “empinou a curica”. Cresceu, ganhou peso. Tornou-se um belo exemplar da espécie equina. O amor entre os dois também se fortalecia a cada dia. Para onde um ia, o outro ia junto. Até nas festinhas de radiola, que Zé comparecia com frequência, lá estava a égua a lhe fazer companhia. Às margens do rio Maracu, Zé fazia a higiene do animal: dava banhos, podava a crina, penteava os pelo; inspeciona o estado dos dentes e das patas.
Conversava com ela como se fosse gente. Das Dores, aliás, tornou-se a confidente de Zé de todas as horas. E foi a primeira a saber quando ele decidiu mandar Joana embora de sua vida, após esta lhe ter dado um ultimato para que escolhesse entre si e o animal. “Vê se tem cabimento ela querer que eu me prive de ti! Antes vá ela cuidar da vida, que não sou homem de se dobrar aos caprichos de mulher”, ao que a égua parecia concordar, abanando o rabo de um lado a outro.
O desenlace do casamento, porém, foi traumático, porque Joana não aceitou passivamente ser preterida por uma égua. Após ‘fazer as trouxas’ postou-se na frente da casa e, aos berros, comunicou ‘ao povo da rua’ que se separava do carroceiro por infidelidade conjugal dele. “Que todos fiquem sabendo. O Zé, meu ex-marido - que agora eu não quero mais nem pintado de ouro - me largou por causa de uma égua! Isso mesmo que vocês ouviram: o Zé, meu ex-marido, me traiu com a Das Dores. Os dois estão apaixonados. Na maior sem-vergonhice, viraram amantes debaixo das minhas fuças”.
O caso, antes tratado “a boca pequena” – na comunidade até as paredes das casas especulavam que Zé e Das Dores mantinham uma relação muito além dos laços de amizade, ou de pai e filha, como ele preferia - tornou-se assim escancarado e foi bater na delegacia, por conta de uma queixa de moradores indignados com o que consideravam um atentado contra a moral e os bons costumes. O delegado Josias Carteiro, sem outra saída, viu-se obrigado a chamar o carroceiros às falas.
- Seu Zé da Burra, por mim nem mexia nesse negócio, porque eu já tenho muitos problemas para me ocupar. Mas acontece que recebi uma reclamação formal contra o senhor e é meu dever averiguar. O senhor está tendo um caso com uma égua?
O carroceiro, para surpresa do delegado, ao invés de rechaçar, confirmou a acusação e foi além:
- É verdade, seu delegado. Mais do que um caso, eu amo a Das Dores. E agora que eu me livrei da Joana, é minha intenção regularizar esta situação para que as coisas fiquem nos conformes da lei.
O delegado não entendeu o alcance das palavras de Zé e cobrou explicação.
- Desculpe, seu Zé, mas queira ser mais claro. O que o senhor quer dizer com “regularizar a situação”?
- Casar, seu delegado. Eu e a Das Dores vamos casar de papel passado. Não é assim que se resolve uma situação dessa?
O delegado fitava Zé com os olhos esbugalhados, sem saber se o carroceiro falava a sério ou fazia troça com ele.
- Seu Zé, antes de mais nada, não se esqueça que o senhor está diante de uma autoridade da lei. Não queria brincar comigo, porque o senhor pode se dar muito mal.
- Longe de mim desrespeitar o doutor Carteiro. O que eu quero é viver debaixo da lei, que sempre fui um homem sério e cumpridor de meus deveres.
O delegado então explicou a Zé da Burra que a ideia dele era impraticável, já que não havia como casar um homem com um animal. 
- Isso é contrário à lei, seu Zé.
- Onde que a lei diz que não pode, seu delegado?
- A lei diz que o casamento se dá entre um homem e uma mulher.
- Mas diz que não pode entre um homem e um animal?
- Não diz. Não precisa dizer.
- Seu delegado, o senhor me adesculpa, que sou um homem ignorante. Mas ouço dizer que aquilo que a lei não diz não é proibido. E já que não diz que não pode, é porque pode.
O delegado, já impaciente, e vendo-se jogado num beco sem saída pela pertinácia do carroceiro, despachou-o sob ameaça.
- Seu Zé, vá embora e não volte mais aqui, antes que eu mande prendê-lo por ofensa da lei. Procure a igreja e peça perdão pelos seus pecados.
Imagem da internet
A frase final do delegado acendeu uma luz na mente do carroceiro. Se a lei dos homens não o deixava casar-se com Das Dores, quem sabe a lei de Deus o permitia? Afinal, ele amava aquela égua como jamais amara alguém, e Deus abençoa o amor sincero.
Foi ter com o padre Jozino, que, anos atrás, fora um velho amigo de seus pais, já falecidos.
Na sacristia, onde dava orientações para a festa do mês mariano, consagrada à Virgem Santíssima, o padre o saudou com entusiasmo.
- Ora, ora, quem nos visita! A que devo a honra da sua presença, seu José?
Após pedir e receber a bênção do religioso, um homem já de cabelos grisalhos e venerado pela comunidade, o carroceiro foi direto ao assunto.
- Seu padre, eu quero me casar de novo.
O padre levou um susto.
- Mas já, seu José? Que eu saiba a sua esposa acabou de sair de casa.
- Saiu para não voltar mais, seu padre. Meu caso com ela está liquidado. É favas contadas.
- Bom, mas ninguém casa, descasa e casa de novo assim de repente, Seu Zé. O senhor terá primeiro que regularizar sua situação, perante a lei.
- A lei dos homens não me favorece, seu padre. Mas a lei de Deus, essa sim. Num é Deus que recomenda que deve de ter amor sincero entre um casal, para que seja abençoado por Ele?
O padre fitou Zé com interesse e o interpelou.
- Seu Zé, a propósito, quem é esta mulher, a quem o senhor jura esse amor aprazível a Deus?
- É a Das Dores, que outra melhor nunca vi.
- Das Dores? Não me lembro de tê-la conhecido. É nova aqui na comunidade?
- Seu padre, Das Dores é aquela eguinha que eu cuidei desde menina, dando leite na mamadeira, tratando como uma filha. Como que o senhor não se lembra? 
O padre arregalou os olhos e teve um acesso de tosse, que quase o matou. Em seguida, os olhos faiscando e lacrimosos, enxotou o carroceiro da sacristia.
- Retire-se da casa de Deus, que o senhor não é digno de estar aqui!
- Padre, pelo amor de Deus. Eu só quero a bênção do Senhor para a minha união com Das Dores. Não me negue isso.
- Deus não abençoa a desfaçatez. Onde já se viu casar com um animal? O senhor enlouqueceu?
- De amor, seu padre! Eu amo a Das Dores, e Deus abençoa o amor.
- Isto que o senhor chama de amor é coisa do demônio. E aqui não tem lugar para Satanás. Saia daqui imediatamente!
E de posse de uma vassoura, botou o carroceiro porta afora da igreja, como quem varre o lixo.
Triste, amargurado, Zé da Burra entendeu que estava perdido. Temente a Deus, jamais viveria fora das bênçãos do Senhor. Também não tinha como se afastar de Das Dores, o único ser vivo na Terra a quem jurara amor eterno.
Fechou-se em casa para sempre. Não mais comeu nem bebeu. Por amor, imolou-se. A notícia correu beirada e se espalhou no povoado feito fogo em canavial. “Zé da Burra morrera por paixão a Das Dores”.

Ao velório do carroceiro, quase ninguém compareceu. Apenas o padre Jozino, em face da obrigação sacerdotal, o sacristão Antônio, que o auxiliava no ofício, a ex-mulher Joana que, temente a Deus, achou por bem perdoá-lo, e a égua Das Dores, que não apenas assistiu ao enterro, como jamais se afastaria da sepultura, até os últimos dias de vida. Sem comer, e apenas tomando a água que brotava misteriosamente da cabeceira do túmulo do carroceiro, Das Dores morreu no alvorecer da primavera, três meses após o desenlace do companheiro.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O PL da progressão continuada – não se melhora a educação por leis ou decretos

"O fato de um aluno passar ou ser reprovado, no Brasil, não significa que quem passou sabe o necessário"

Por João Batista Araujo e Oliveira*

https://t.dynad.net/pc/?dc=5550003218;ord=1507386019092
Por meio do PL 336/2017, o senador Wilder Morais encaminha uma proposta para extinguir a progressão continuada na educação básica. Neste artigo, enviado para o Congresso em Foco, gostaria de convidar o senador – e a todos, como ele, empenhados na melhoria da educação – para fazer uma reflexão com base nas seguintes perguntas: o que dizem as evidências sobre o tema? Como poderia um senador da República contribuir para melhorar a educação no país?
As evidências estão do lado do senador quando ele aponta para os malefícios de uma educação de má qualidade, na escola e na vida. Alunos com escolaridade menor, incompleta, ou fraco desempenho, se dão mal na escola e pior na vida – especialmente na capacidade de ganhar a vida. Mas daí a dizer que a repetência vai melhorar a escola ou reduzir a criminalidade vai um abismo.
Os resultados educacionais do Brasil mostram que, se fôssemos aplicar critérios minimamente rigorosos, mais da metade dos alunos do 5o ano deveriam ser reprovados – e possivelmente nunca deveriam ter chegado lá. No 9o ano, a proporção seria de mais de 80%.
Portanto, o fato de um aluno passar ou ser reprovado, no Brasil, não significa que quem passou sabe o necessário. Os números também mostram que o aluno que nunca foi reprovado, em média, tem notas melhores do que um aluno reprovado. Em outras palavras: a abolição da reprovação não piorou as notas na Prova Brasil do 5o ano. Não paira a menor sombra de dúvida quanto a isso.
Por outro lado, há evidências de que a reprovação – especialmente a reprovação em massa praticada no Brasil – faz muito mal. Primeiro, ela faz mal à economia – por exemplo, em 2015 desperdiçamos mais de 17 bilhões de reais com alunos reprovados no ensino fundamental e médio. Segundo, ela faz mal aos alunos – o aluno reprovado, especialmente o aluno multirreprovado, tende a ter desempenho pior e é forte candidato à deserção escolar.
Estudos do IDados, entre outros, também mostram o efeito negativo das classes com repetentes sobre os não repetentes. Em síntese: são nefastos os efeitos da repetência, especialmente da repetência em massa existente no Brasil. E ela se concentra em lugares onde os professores são os menos preparados. Tal como praticada, especialmente no Norte e Nordeste do país, ela constitui um verdadeiro genocídio.
Não há evidências de que a qualidade do ensino ou da aprendizagem piorou com a adoção do sistema de aprovação automática: ela era ruim e continua muito ruim.  Também não há evidências de que a autoridade do professor fica diminuída sem o poder de reprovar: há sistemas educativos bem-sucedidos, em vários países, nos quais a função do professor é ensinar e torcer pelo sucesso do aluno – a avaliação e o julgamento são feitos por outras instâncias.
Também não há evidências de que os alunos não são alfabetizados no 1o ano por conta da aprovação automática: eles não são alfabetizados porque não há desejo das autoridades de que isso aconteça – basta ver as propostas das universidades públicas e do MEC para lidar com a questão. Por sua vez, a autoridade do professor não deriva do seu poder de aprovar ou reprovar – ela deriva de sua competência, do respeito que ele adquire em função da mesma e do apoio que ele recebe do diretor da escola e da sociedade.
Nada do que foi dito até aqui sugere que a aprovação automática contribui para melhorar a educação. Apenas estamos registrando que a reprovação não é solução para os graves problemas que afetam a educação brasileira, nem os da escola e nem os da violência e da criminalidade.
Como melhorar a educação? Há algumas poucas estratégias de sucesso comprovadas no mundo, e elas são razoavelmente bem conhecidas. E elas reforçam a ideia de que não se melhora a educação por leis ou decretos. Se assim fosse, o Brasil seria o país mais bem-educado do mundo.
Para atingir os objetivos a que se propõe o Senador Wilder Morais, possivelmente seria muito mais benéfico para o país se os nossos legisladores empreendessem uma cruzada cívica para eliminar 95% da leis, decretos e pareceres que servem sobretudo a interesses corporativos, elevam os custos para os municípios e para o setor privado, e atrapalham a melhoria da educação. Além de um bom começo, isso poderia criar espaço para a revolução educacional de que tanto o nosso país precisa.
*João Batista Araujo e Oliveira é presidente do Instituto Alfa e Beto


sábado, 7 de outubro de 2017

O Diabo voltou

Por José Sarney

O imortal José Sarney
O Padre Vieira afirmava que o Diabo era o dono do mundo.

Para isso invocava as palavras do próprio Cristo, quando foi tentado por ele no deserto da Judeia, depois de batizado por João Batista e ter jejuado durante quarenta dias. O “maligno” como se dizia nos tempos antigos, para nem pronunciar o seu nome, teve a ousadia de leva-lo às alturas e de lá mostrar-lhe todos os reinos do mundo e dizer-lhe: “Tudo isso será teu, se me adorares.” Diz Vieira que, se o Diabo lhe disse isso, é porque o mundo é dele, senão não o ofereceria ao Senhor.

Com o desenvolvimento da humanidade, da ciência e do pensamento, o homem não conseguiu matar a Deus, mas o Diabo foi morto e desapareceu. Na minha infância eu ainda tinha medo do Diabo. Mas ele desaparecera.

Não é que agora, depois de ver as atrocidades inimagináveis que estão acontecendo, não encontro justificativa para nada e sou levado a temer o Diabo da minha infância e a constatar que ele voltou.

Ele está agora entrando na cabeça do homem.

Não mais o homem primitivo, o cro-magnon, que matava sem saber a quem matava, dizimava seus irmãos e mulheres dominado pela violência do instinto da sobrevivência; mas o homem moderno, este que foi à Lua, desvenda os ínfimos mistérios de divisão dos genomas, quem mostra uma cabeça tão primitiva quando a dos neandertais, quem pensa e programa a morte de crianças, tocando fogo nelas, numa creche de Janaúba e em si mesmo.

Nada mais puro e humano do que uma creche — nome de origem francesa que significa o presépio do Menino Jesus —, que recebe crianças enquanto as mães trabalham e afastam-se por algumas horas do dia do seu amor em busca de sustento, e onde aprendem, brincando, a se relacionar umas com as outras, na beleza da inocência. De repente são atingidas por inflamáveis de um louco ou alucinado que as incendeia. Quase vou as lágrimas quando ouvi de uma sobrevivente de quatro anos, quando perguntada por seu nome, a resposta apavorada: Fogo!

Não culpemos nosso País, como hoje está moda fazer, como se só aqui acontecesse coisas impossíveis. Vejamos um país rico, líder mundial, esbanjando consumo. Jovens, no desfrute da alegria, no gosto da vida, em busca da felicidade estimulada pelos sons das músicas de que gostam, da dança libertando o corpo de suas posturas naturais, em pleno êxtase, numa cidade de luzes e brilhos, cores e maravilhas, são surpreendidas pela morte trazida por outro alucinado, que planeja tudo e, durante dias, leva calmamente malas de armas ao quarto de um hotel, no 32º andar e de lá começa a matá-los, acabando com suas vidas que começam e sepultando todos os seus sonhos.

É impossível aceitar que isso acontece como obra do homem, por maldade, crueldade ou possessão.

Só tenho para impedir minhas lágrimas, uma explicação: é o Diabo, o mesmo Diabo que tentou Cristo e que está aí.

E, para desgraça nossa, o Senhor Trump defende mais armas! Valha-nos Deus.



sábado, 30 de setembro de 2017

Aos 91 anos morreu hoje Matias Barros

Matias Barros
Faleceu agora no começo da noite em São Luís o senhor Matias Barros aos 91 anos de idade. Um dos mais antigos comerciantes de São João Batista, Matias estava internado em São Luís onde era acompanhado por médicos e familiares. Sempre com boa saúde, o velho Matica, como era carinhosamente chamado apresentou nos últimos dias um leve cansaço, certamente provocado pelo já fraco coração.

Hospitalizado e sob cuidados médicos, o coração do velho comerciante, que era estimado por muitos, não resistiu e ele veio a falecer. O corpo seguirá para São João Batista, onde residia, e onde passou toda a sua vida.

Matias era um dos moradores mais antigos de nossa cidade. Sempre trabalhando no comércio, foi dono de Mercearia e loja de tecidos. Trabalhou também no ramo de panificação por muitos anos. Fora lá, na sua padaria, por muitos anos, vendido o “refresco de coco” mais gostoso que se tinha em nossa cidade. Mesmo já aposentado, nunca deixou de ter o seu comércio.

Ainda que lhe pesasse a idade, era sempre figura marcante nos eventos da sociedade joanina, quando era levado por seus filhos, genros ou netos. Costumava celebrar a vida com seus amigos. Sempre comemorava religiosamente o seu aniversário todos os anos. Fazia questão disso.

Era alegre e carregava consigo a vaidade masculina, o que lhe era marca característica, pois apesar da idade, gostava de estar sempre bem vestido, bem penteado e perfumado. Era um verdadeiro cavalheiro.

A cidade de São João Batista fica triste com certeza com a partida de um dos homens que ajudaram a construir a nossa história.


A todos os familiares do agora saudoso Matias Barros o nosso sincero pesar. 

A CRÔNICA DO DIA

HOJE É DIA DE... 


INÁCIO, O JAPA!

(*) Nonato Reis

Nonato Reis
Ainda hoje, quase quarenta anos depois, não consigo conter uma onda de riso sempre que me lembro de Inácio. Eu o conheci no primeiro ano do ensino básico. Chegara de Viana recentemente, onde terminara o curso ginasial, e me preparava para dar início a um novo ciclo de estudos. O colégio ficava no Bairro de Fátima e a turma, em pouco tempo, ganharia projeção dentro e fora dos muros da escola, pelas armações e trapalhadas que ocorriam frequentemente em sala de aula.
De todos os alunos Inácio era o mais canalha, capaz de arquitetar as tramas mais ousadas, como a que culminou com a queda literal da professora de educação moral e cívica sobre a mesa posta na frente das carteiras, que chamava de posto de observação, e fora preparada, ardilosamente, por ele para desabar justo na hora em que ela sentasse sobre o móvel. A professora, baixinha, atarracada e braba, costumava sentar na mesa, sempre que aplicava provas, para que, em um plano mais elevado, pudesse observar quem tentava colar.
Inácio descobriu que as peças da mesa eram apenas encaixadas. Então as juntou de tal forma que bastava uma pressão maior sobre elas para que desintegrassem o conjunto. Jamais esqueci a imagem da professora de pernas para o alto, toda desengonçada, para o delírio da turma. E depois o diretor assomando na sala, vermelho de raiva, louco para saber quem havia sido o autor daquela trama. Como todos se mantivessem em silêncio, impingiu à turma inteira três dias de suspensão que, longe de representar uma punição, fora recebida como prêmio.
Inácio era um negro alto e forte. Tinha as mãos e os pés enormes. Usava cabelo black power (que à época se penteava com um garfo, em forma de pente), calça boca de sino e tamancos de salto. Sua maior proeza era falar ou fazer as coisas mais absurdas e se manter sério, o olhar grave, como se nada de anormal houvesse acontecido.
Para o meu azar, achou de dividir a carteira dupla comigo. Assim, ele aprontava e eu, que tinha o riso solto, acabava assumindo a culpa. A professora de química era uma loira alta, do tipo tanajura. Usava calças justas que realçavam ainda mais o traseiro imenso. Quando passava por nossa carteira, a bunda quase roçando o meu braço, Inácio pegava uma espécie de palmatória de madeira, que guardava no interior da carteira, e ameaçava bater na bunda da professora, levando a turma a uma sonora sessão de riso.
A professora imediatamente se virava, para saber de quem partira a “gracinha”. Inácio se mantinha impassível feito estátua, ao passo que eu gargalhava e a custo evitava botar os bofes pela boca de tanto rir. Então, o dedo em riste sobre mim e a cara enfezada de general, bradava: “rua, seu moleque!”. Eu deixava a sala com o sangue fervendo, mas não sem antes apontar o dedo para Inácio e ameaçá-lo: “tu me pagas, filho da puta!”.
E acabou que de tanto aprontar, o dia de Inácio chegou. Foi numa tarde em que o professor de Física, encharcado de álcool até a tampa, faltou ao expediente, deixando a turma entregue à própria sorte. 
No meio da algazarra, alguém apontou para a bunda de Inácio e gritou: “negão, tu estás sem cueca!”. Inácio não se deu por achado e ainda colocou lenha na fogueira. “Meu irmão, o termo certo não é “está sem”, porque na verdade eu não uso mesmo. Cueca só serve para esconder o pinto. Eu não tenho por que esconder”.

Luíza, uma garota debochada, que assistia à cena, interveio,
- Eu acho que tu mentes, Inácio. Eu só acredito vendo. 
A turma entrou num clima de suspense, logo desfeito por Inácio que, resoluto, baixou a calça até o joelho, escancarando as partes íntimas.
Foi uma gritaria dos diabos. Os homens assobiavam e riam. Parte das mulheres tratou de sair da turma; outra parte, estupefata, cobria os olhos. A exceção foi Luíza que, calma, os braços cruzados, fitou o ventre de Inácio, como que decepcionada.
- Poxa, Inácio, eu que pensei que tu eras todo grande ... Isso é pinto que se apresente? Parece prego de japonês.
A turma foi ao delírio, e Inácio, pela primeira vez abatido, subiu as calças, sem saber aonde pôr a cara. Na mesma hora colei nele um aposto e para sempre ficaria conhecido como “Inácio, o japa”.
(*) Nonato Reis é jornalista, poeta e cronista, natural de Viana, Maranhão.


domingo, 17 de setembro de 2017

Nossa homenagem a Madá...

Soube por meio das redes sociais do passamento de uma conterrânea muito estimada, a senhora Maria Madalena Silva Costa, mais conhecida como Madá. Dito assim, muitos ainda podem se perguntar quem seria tão destacada senhora. Mas todos de muitas gerações de joaninos que estudaram no Grupo Escolar Estado de Santa Catarina hão de lembrar-se de tão magnânima senhora. Uns por que foram seus alunos, outros porque a conviveram sob o seu olhar disciplinador e de sempre eficiente servidora pública.

Madá era uma dádiva de pessoa. Sempre muito simpática. Lembro muito de sua lida diária na nossa velha escola. Ainda repicam aos meus ouvidos os tilintar da sineta tocada por Madá que anunciava o começo ou fim de nosso recreio no velho grupo escolar.

Se faz necessário que a minha geração e a de muitos homens e mulheres rendemos homenagens a essa nossa conterrânea, irmã de Brígido, de Bizica, e mãe de Marcelo, Nailton e Tutuca. E acho que as melhores palavras para justificar tamanho apreço, foram escritas pelo professor Marcondes, e eu as reproduzo na íntegra com a sua “data vênia”, estendendo aos familiares o meu sincero pesar.


Venerável dama

(*)  Por Marcondes Serra Ribeiro

A evolução da enfermidade, a idade avançada e a consequente debilidade já nos deixavam apreensivos com nossa querida Madá. Em nós, a natural relutância à aceitação de que não tardaria em deixar-nos e ascenderia ao encontro do Pai e de seus amados em outro plano. Hoje, ela nos dobra a resistência e despede-se calmamente, deixando-nos doridos, lamentosos por sua perda, mansa e reconhecidamente levados à exaltação de nosso profundo respeito, reverência digna às grandes e importantes figuras de nossa vida educacional. Familiares e amigos consternam-se, enchem-se de um sentimento triste e parece-me que nosso São João Batista veste-se lamentoso de um luto de lágrimas mansas e merecidamente sinceras. 

Sentimos que sua natureza abrandou os ventos enchendo o tempo com a melancolia típica dos ares bucólicos, prostrando-se respeitosos aos desígnios de Deus ao levar para junto de si uma de nossas ilustres filhas, uma destacada, entre as importantes profissionais que construíram dedicada e prazerosamente nossa história instrucional nos primeiros passos de tantos conterrâneos!

E na mente de cada um certamente afloram lembranças daquela senhora de aspecto franzino, porém firme. Assim é que recordarei Madalena, sempre comunicativa, expressivamente falante, receptiva e hospitaleira, generosa em seus conceitos e atitudes – uma verdadeira grande Dama, que esteve sempre ligada aos atos e fatos joaninos, pois sempre que conversávamos, mostrava-se a par da situação e sabiamente sempre apontava soluções, sem nunca descartar o valor do próximo. 

Virtuosa Madalena! Foi decisiva na construção da respeitosa história familiar, com grandioso senso de humanidade, que lhe fizera respeitada, amada e enlaçada a tantos por gestos de carinho e atitudes de amor. 

É verdadeiro e justo que se admita reverentemente que Madalena foi guerreira de muitas conquistas e construtora habilidosa, com requintes de mãe generosa, de nossa história, da história de nossa gente, da história de São João Batista! 

Siga em paz, Venerável Dama! 

Rendo-me respeitoso e humilde aos seus anos de lutas e abnegados exemplos. 
Meus aplausos, Grande Senhora. Meus pêsames à família enlutada!

(*) Marcondes Serra Ribeiro é funcionário publico e Professor.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Baixada Maranhense: graves problemas, singelas soluções

Campos da Baixada / Foto: Herberth Figueiredo
Por Flávio Braga(*)

A despeito dos seus encantos e belezas naturais (que a tornam potencialmente rica), a Baixada continua bastante desassistida pelas diversas esferas governamentais. Embora detenha um abundante potencial hídrico nos meses de abril a agosto, o drama da escassez de água ainda é o principal tormento das comunidades baixadeiras no segundo semestre de cada ano.

Nesse contexto, existe um pormenor que diferencia substancialmente a Baixada das outras regiões pobres do Maranhão: as medidas para melhorar as condições de vida do seu povo são baratas, simples e de fácil resolutividade. Só depende da vontade política dos nossos governantes, no sentido da construção de barragens, açudes e canais que promovam a conservação da água doce em nossos campos.
A esse propósito, destacamos algumas intervenções administrativas de pequeno porte que produziram resultados impactantes na qualidade de vida dos munícipes baixadeiros, como segue:

Em São Bento, na gestão de Bitinha Dias (1993-1996), foi executada a dragagem dos campos inundáveis, serviço considerado a maior ação de combate à estiagem e à fome na região da Baixada. Foram escavados mais de 18km de canais, com profundidade média de 6 metros. Essa obra beneficiou a população de diversos municípios do entorno.
Em Anajatuba, o Igarapé de Troitá mede 8km de comprimento, 10m de largura e 2m de profundidade, e foi dragado, no governo de José Reinaldo, para garantir a retenção da água doce durante todo o ano, proporcionado a permanência e reprodução dos peixes nativos e outras pequenas criações (bois, porcos, patos etc).

Ainda em Anajatuba, no povoado Pacas, foi desenvolvido um projeto consorciado de piscicultura nativa e fruticultura (banana, açaí e maracujá), a um custo de 200 mil reais, que garante o sustento de 42 famílias, numa área de apenas 3 hectares. Nesse arranjo produtivo são produzidas 4500 bananas por mês e 15 toneladas de peixes nativos por ano, sem qualquer ônus para os beneficiários do projeto.
Foto: Herberth Figueiredo
Em Viana, na gestão do prefeito Chico Gomes, foi construído o dique do Igarapé do Jitiba (complementando uma barragem de quase 3,5km de extensão, edificada na gestão do prefeito Messias Costa), que serviu para preservar água doce e proteger os numerosos cardumes de peixes. Na localidade Ponta do Mangue, Chico Gomes ainda construiu uma barragem de um 1,5km, a qual serviu para armazenar água e impedir a salinização do povoado Capim-Açu.

Em Bequimão, o prefeito Zé Martins recuperou 6km da Barragem Maria Rita (também conhecida como Barragem do Defunto), proporcionando enormes benefícios para as atividades econômicas da região, ao garantir a preservação de água doce nos campos e conter o avanço da água salgada.
Em Pinheiro, o ex-prefeito Filuca Mendes edificou a Barragem do Cerro, com capacidade para represar 30 milhões de litros de água doce e fomentar prosperidade para centenas de famílias ribeirinhas. A obra também serviu para fazer a ligação entre a zona rural e a urbana. O trajeto que era percorrido em quase uma hora, hoje dura alguns minutos.
Como se vê, a Baixada tem jeito, visto que as soluções para melhorar a vida do seu povo são viáveis, exequíveis e de baixíssimo custo material. Basta  a "força do querer"…, e aqui é o problema!
(*) Flávio Braga, é advogado e escritor, natural de Peri-Mirim.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A CRÔNICA DO DIA


HOJE É DIA DE... 

Nas ondas do rádio AM
(*) Nonato Reis

Nonato Reis
A humanidade ainda haverá de erguer um monumento, no coração do mundo, em homenagem ao italiano Gluglielmo Marconi, ao russo Alexander Popov e ao brasileiro Roberto Landell de Moura pelo inestimável legado para o progresso das civilizações. Aos três, de modo distinto, é atribuída a invenção do rádio, seguramente a maior descoberta do Século XIX, e talvez uma das três mais importantes de toda a história universal.
Depois do rádio, os inventos seguintes, no campo das comunicações, passaram a ser uma espécie de repetição, no que diz respeito à engenharia de processamento. Tudo o que veio depois dele, como a televisão, os satélites, o telefone e a internet sem fio, utiliza a mesma base tecnológica, as ondas eletromagnéticas, como forma de propagação. O rádio está assim na gênese das comunicações à distância, delas constituindo não apenas a matriz como também suas ramificações.
Foi o primeiro veículo de massa a integrar o mundo moderno, dentro daquela concepção de aldeia global, prevista pelo estudioso Marshall Mc Luhan. Fez história na esteira das duas grandes guerras mundiais, que sacudiram o século XX, possibilitando a cobertura em tempo real no front das batalhas, em que pese a tentativa de censura, num ambiente em que o segredo é arma estratégica.
No Maranhão, não tenho a menor ideia de quando o rádio foi inaugurado. Mas a primeira lembrança que a minha memória guarda da Amplitude Modulada remete ao início dos anos 60. Eu era então um menino ensaiando as primeiras sílabas do alfabeto. Morava no interior. Beira de rio. Mato fechado. Os casebres de palha eram erguidos em plena floresta, que se abria em capoeiras para recebê-los. Rádio nessa época, marcada pela luz de querosene, constituía uma raridade. Apenas famílias de fazendeiros se davam ao luxo de possuir um Philco Transglobo de nove faixas.
Naturalmente não dispúnhamos desse tesouro em casa, mas eu podia perceber os seus sinais sonoros há poucos metros de distância, na fazenda de um tio por parte de pai. Durante o dia o receptor ficava sintonizado, invariavelmente, na Rádio Difusora. Lembro de um locutor, talvez o Murilo Campelo – não tenho certeza – que gostava de informar a hora de um modo inusitado. Enchia os pulmões de ar, fazia vibrar as cordas vocais com intensidade e anunciava: “o relógio marrrrrrrrrrrrrrrrrrrrcarrrrrrrrrrrrrr (...)”.
Rádio naquela época era uma espécie de colosso. No interior os moradores nem tinham noção de como funcionava a engenhoca. Muita gente olhava o aparelho com um misto de espanto e devoção, à semelhança dos indígenas quando se depararam com os primeiros portugueses da era do Descobrimento. Lembro que algumas pessoas se postavam por trás do receptor, e espiavam para dentro do equipamento, tentando localizar a voz que soava dos autofalantes
Se o rádio era visto como algo do outro mundo, os radialistas beiravam à divindade. Certa vez, já nos anos 70, Arnould Filho e Maurício José visitaram Viana. A cidade parou para recebê-los. No campo da aviação, uma multidão cercou o avião que os transportava e seguiu com eles em em cortejo festivo até a Praça da Prefeitura, onde realizou-se um ato público. Em tempos atuais, é como se um galã da TV Globo ou um presidente da República desfilasse em carro aberto pelo interior do país.
Uma prova da força quase sobrenatural que esse veículo exercia sobre as massas é um episódio dos anos 70, engendrado e levado ao ar pela Rádio Difusora. Inspirada em A Guerra dos Mundos, um programa levado ao ar nos EUA pelo americano Orson Welles, e que simulava a conquista da Terra por extraterrestres, a Difusora encenou uma invasão alienígena na Ilha de São Luís a partir do Campo dos Perizes. O toque de realismo que deu à estória, aliado ao alcance da emissora, colocou a cidade em pandemônio. Foi um verdadeiro alvoroço, com pessoas gritando e correndo desnorteadas. Tiveram que interromper a transmissão, para evitar uma tragédia de proporções gigantescas.
Não por acaso aqueles anos constituem a chamada fase dourada do Rádio AM no Maranhão. Nesse tempo a televisão ainda era uma ideia distante, circunscrita aos grandes centros urbanos. O rádio era então o principal veículo de informação, entretenimento e difusão coletiva, promovendo a integração entre as diversas regiões do Estado. São Luís constituía o foco irradiador, onde se encontravam sediadas todas as emissoras AM, com destaque para as rádios Difusora, Timbira, Gurupi, Ribamar e, por último, a Educadora, implantada na segunda metade dos anos 60.
Nessa época surgem programas memoráveis, como Quem Manda é Você, apresentado por José Branco, na Rádio Difusora; o Programa do Galinho, com Carlos Henrique, pela Educadora; Alegria na Taba, com Raimundo Coutinho, pela Timbira; e Um Ouvinte e Seis Sucessos, pela Ribamar. E é quando aparecem verdadeiras lendas do rádio no Maranhão, algumas ainda em atividade até hoje, como Herberth Fontenele, Fernando Souza, Carlos Henrique, Canarinho, Rui Dourado, José Santos.
Como esquecer o poeta Bernardo Coelho de Almeida e a sua memorável “Difusora Opina”? Eu era então criança, mas não conseguia escapar do poder de sedução dos seus textos leves, concisos, precisos. Nos cinco minutos que duravam o editorial, permanecia de ouvidos grudados no rádio como que magnetizado por uma força invisível. O Bernardo era um gênio da palavra e, por meio dela, alcançou a imortalidade.
 Dizem que o destino gosta de brincar com os nossos sonhos e que aqui e ali costuma nos pregar peças. Eu, menino nascido e crescido sobre o brejo da Baixada, decidi vir para São Luís completar os estudos. Meio que sem querer, optei por fazer Jornalismo. Jamais imaginei que, no exercício da profissão, pudesse esbarrar com aqueles mitos da radiofonia, fazer-me colega de trabalho de alguns deles e até me tornar amigo de outros. Carlos Henrique, por exemplo, me chama de “Nonatinho”, num diminutivo que muito me honra e enobrece. Frank Matos, quase um irmão, me trata familiarmente de Nonato. Othelino Filho, Jota Kerley, Djalma Rodrigues, apenas de Reis, que é como a maioria me conhece.
Este ano, por ocasião do dia dos pais, Geraldo Castro, essa legenda da Amplitude Modulada, editou em seu facebook uma mensagem alusiva à data. Sensibilizado com o texto, fiz um comentário, mais ou menos assim: “Cuidemos dos nossos pais, enquanto a vida se faz”. Ao que ele respondeu. “Como sempre sábias palavras do meu mestre”. O rádio tem essa tríplice capacidade: de emocionar, de surpreender e de inverter a ordem das coisas.

 (*) Nonato Reis é jornalista, poeta e cronista natural de Viana, Maranhão.