sábado, 7 de setembro de 2019

A propósito da música “Eu te amo, meu Brasil”


A música de autoria de Dom da dupla Dom e Ravel, a contrário de que muitos pensam não foi uma composição encomendada pelo regime militar, na pessoa do Presidente da República à época Emílio Garrastazu Médice.

Ainda que usada pelo governo em suas propagandas como forma de exaltar o civismo e o sentimento ufanista, a música fora composta e gravada em 1970 pela Banda “Os Incríveis” por conta do clima da Copa de 70, e que dada a sua execução e sucesso chegou a ser mais popular do que a música oficial da competição “Pra frente Brasil”, de Miguel Gustavo.

Na época do lançamento o governo fazia uma forte propaganda nacionalista, que ia muito além dos slogans “Brasil, ame-o ou deixe-o”. A paixão e a expectativa pelo tricampeonato da Copa de 1970 eram usadas como forte apelo à aprovação do novo regime autoritário. Também acontecia uma guerra ideológica dentro da indústria fonográfica. A maioria dos artistas intelectualizados, como Chico BuarqueCaetano VelosoGilberto Gil e Milton Nascimento eram opositores ao militarismo, e escreviam letras politizadas como forma de protesto.

Foi dessa treta entre os artistas da música brasileira que se dividiram entre os que eram contra o regime militar e faziam sutis letras politizadas contra a ditadura militar, a exemplo da música de Sérgio Sampaio, “Eu quero é botar meu bloco na rua”, ou mesmo a música “Calice” composição de Chico Buarque e Gilberto Gil, além da lendária “Pra não dizer que não falei das flores” de Geraldo Vandré, e os que ficaram impassíveis a esta luta e que por isso foram chamados de “adesistas”, mesmo sem nenhuma relação direta com o governo dos militares.

Havia portanto um mal-estar entre aqueles que não se posicionavam contra o governo, que eram tidos como “alienados”, como alguns dos astros da Jovem Guarda. Na esteira dessas ditas “injustiças” muitos artistas tiveram suas carreiras sacrificadas, como foi o caso de Wilson Simonal, que teve sua vida artística literalmente arruinada.

Don, um dos compositores da música ao lado de seu irmão Ravel, afirmou que a letra só buscava exaltar as belezas naturais do Brasil e de seu povo e que visava contrapor o sentimento nativista e nacional ao consumismo de coisas e modismos norte-americanos. Apesar do grande sucesso entre o público em geral, os irmãos não agradavam a esquerda do país, de políticos a artistas.

Eustáquio e Eduardo Gomes de Farias, ou melhor, Dom e Ravel chegaram em São Paulo ainda crianças, nos anos 50, vindos da pequena cidade de Itaiçaba, no Ceará. Já no final da década seguinte, tentaram uma carreira no disco e lançaram o LP Terra Boa, que trouxe o primeiro grande sucesso deles, a música Você Também é Responsável”, que acabou sendo usada dois anos depois como uma espécie de hino ao recém criado Mobral – Movimento Brasileiro de Alfabetização – órgão criado no governo militar para melhorar o nível de alfabetização no país que buscava ser uma nação desenvolvida.

O fato, no entanto, não foi visto com bons olhos pela comunidade artística, que acabou taxando os irmãos de puxas-saco do governo militar, o que se agravava ainda mais com as novas composições da dupla, a maioria enaltecendo o Brasil, coisa que agradava muito aos militares do governo. São dessa fase os sucessos Obrigado ao Homem do Campo”, “Só o Amor Constrói, e principalmente “Eu Te Amo, Meu Brasil, composta pela dupla e gravada pelo conjunto Os Incríveis.

Como se vê, ainda que o ufanismo brotasse das letras das músicas de Dom e Ravel, suas composições nada tinham de intencional ou conluio com o governo dos militares. Mesmo assim, a dupla sofreu das injúrias da elite cultural e amargou o ostracismo a partir de então até o fim de suas vidas, restando então, a errônea concepção de que suas composições são mensagens da ditadura militar . Nada a ver.

domingo, 4 de agosto de 2019

O Presidente sem decoro


 Por Flávio Braga *

As declarações polêmicas de Jair Bolsonaro têm provocado perplexidade em amplas camadas da sociedade e constrangimento em setores do próprio governo. A sua incontinência verbal revela seu despreparo para exercer a Presidência da República e seu desrespeito pela liturgia do cargo. À guisa de ilustração, colacionamos abaixo opiniões de alguns jornalistas e políticos acerca dos despautérios proferidos pelo presidente: 
A ausência de elaboração argumentativa e o uso de insultos são a praia de Bolsonaro. Nela, ele nada de braçada. É imbatível no quesito nível abaixo do aceitável. Já no campo das alegações e justificativas bem colocadas, questionamentos substantivos, premissas e conclusões lógicas, teses, antíteses e sínteses irrefutáveis, o atual presidente da República não sabe nem tem interesse em navegar (Dora Kramer).

Pela lógica da política tradicional, o capitão já deveria ter recolhido as armas. Ele tem optado pela estratégia oposta, na tentativa de agradar os seguidores mais fanáticos. O bolsonarista-raiz é fiel: está disposto a fechar os olhos para todas as trapalhadas do governo, desde que seu líder continue a esbravejar contra o comunismo (Bernardo Mello Franco).

Continuar com a política suicida de dividir os cidadãos, apresentando-se sempre como próximo de tudo o que cheira a violência, desafio e uso das armas, só pode fazer com que até as pessoas que um dia confiaram nele para conduzir o destino do país hoje se sintam arrependidas e escandalizadas (Juan Arias do El País).
Meu desagrado maior é em relação à postura do presidente, de continuar selecionando pautas que não são prioritárias, pautas ainda de campanha, de divisão da sociedade, com tanta coisa importante que precisa ser feita no país (João Amoedo).

O presidente passa de todos os limites institucionais, quebra o decoro, ofende quem depositou nele a esperança de mudança, brinca de ser presidente (Eliziane Gama).

Uma corrente de analistas políticos sustenta que os disparates do presidente são pronunciados de caso pensado, ou seja, há uma estratégia por trás do seu discurso agressivo para preservar o apoio do eleitorado conservador e manter a sua base social mobilizada, assim como faz Donald Trump.

Em todo caso, alguém precisa alertar Bolsonaro a respeito das disposições da Lei 1.079/1950, que tipifica os crimes de responsabilidade passíveis de impeachment do presidente da República. Diz o artigo 9º, VII: “Proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”.

* Pós-Graduado em Direito Eleitoral, Professor  e Analista Judiciário do TRE/MA.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Bolsonaro cancela reunião com ministro da França para cortar o cabelo


De “O Estadão

O presidente Jair Bolsonaro (PSL), cancelou a reunião que teria com o ministro de Negócios Estrangeiros da França, Jean-Yves Le Drian, durante o dia de ontem (29). Segundo o chanceler brasileiro Ernesto Araújo, o cancelamento ocorreu por “uma questão de agenda do presidente”.
O porém é que logo na sequência do “ajuste de agenda”, o presidente fez uma transmissão ao vivo no Facebook cortando o cabelo e reforçando os ataques contra o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz.
A reunião teria como um dos temas o meio ambiente. Mais cedo, Bolsonaro havia afirmado que o ministro francês não iria querer “falar grosso comigo, ele vai ter que entender que mudou o governo do Brasil”, afirmou.
“Aquela subserviência que tínhamos no passado de outros chefes de Estado para com o primeiro mundo não existe mais”, afirmou Bolsonaro.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

LONGE DOS OLHOS, PERTO DO CORAÇÃO...


Hoje faz 61 anos que o então distrito de São João, pertencente ao Município de São Vicente Férrer, que muito antes fizera parte do Município de São Bento dos Perizes, emancipou-se politicamente. Antes experimentara, ainda que por pouco tempo a primazia de ser autônomo. Mas somente em 14 de Junho de 1958, tornou-se em definitivo município.
São João Batista tem uma beleza ímpar. Belos campos, lindas enseadas! Mas a sua particularidade maior está no caráter de seu povo.
Aí reside a magia e o encanto de ser uma terra tão buscada, desejada, embora tão impiedosamente explorada. O jeito pacífico e ordeiro de nosso povo corrobora com tantas aventuras. Mas é preciso amar a cidade! É preciso amar o seu povo! É preciso amar as nossas tradições! E mais do que isso, é preciso respeitar a cidade e a sua gente!
Hoje, quisera eu estar me deleitando dessa festa junto com meus amigos, entretanto, os deveres convencionais e a responsabilidade adquirida nos ensinamentos de casa e de minha gente, me faz estar ausente desse solo abençoado.
Posso não tê-la agora, no limite dos olhos, mas estás aqui dentro do meu coração. Me congratulo com os milhares de conterrâneos que aí, ou além mares, te saúdam neste dia!
PARABÉNS SÃO JOÃO BATISTA, MINHA TERRA QUERIDA!!!!!

                                                                              João Batista Azevedo

Mensagem de Mecinho à cidade de São João Batista


Neste dia 14 de junho, a nossa cidade   está completando 61 anos de emancipação política e nada mais justo que parabenizar o povo joanino, pessoas de bem, honesta, hospitaleira, trabalhadora, que no seu cotidiano labuta na construção do desenvolvimento do nosso município.

Desejo que cada munícipe seja uma sustentação na constante construção de uma São João Batista melhor, que através da credibilidade, respeito e esperança ajudem a preparar pequenos cidadãos em grandes cidadãos joaninos. Neste sentido semeamos ações e colheremos conquistas, buscando no presente o futuro para que tais conquistas sejam reais, demonstrando que somos nós quem fazemos o amanhã e que nossa perseverança é bússola que guia o caminho rumo a uma São João mais justa e cidadã. É com orgulho de ser joanino, de pertencer a esta cidade, que deixo minha mensagem de esperança e agradecimento a toda essa gente que trabalha para que seus filhos sonhem com dias melhores.

 Reafirmo o nosso compromisso em continuar sempre trabalhando em benefício de todos e do crescimento dessa cidade, defendendo e lutando pelos interesses da população.  Unidos em um propósito, o resultado não será diferente, São João Batista vencerá!
Feliz aniversário minha querida cidade!

                                   Um grande abraço a todos!

                                                           Mecinho

Homenagem de Luiz Everton a São joão Batista


Aos meus diletos conterrâneos,


Neste dia 14 de Junho, a nossa cidade completa 61 anos, e hoje, nada mais justo que parabenizar o povo Joanino, gente de bem, guerreira, honesta e batalhadora que, com seu trabalho diário, constrói o desenvolvimento do município e dentro das suas possibilidades não mede esforços na busca do crescimento e de melhores dias para esta cidade.

Desejo que cada munícipe seja um ponto de apoio na constante construção de uma São João Batista melhor, que através de valores sólidos ajudem a preparar as crianças e jovens para este processo contínuo de transformação que o nosso município tanto precisa. É necessário semear ações e colher conquistas, buscando no presente o futuro para que as conquistas da comunidade sejam sempre crescentes, demonstrando que somos nós quem fazemos o amanhã e que nossa perseverança é a luz que ilumina o caminho rumo a uma São João Batista mais justa e cidadã.

Parabéns a todos que diariamente cumprem sua missão, contribuindo assim com o desenvolvimento do município; buscando sempre novos projetos e aceitando o desafio de fazer mais e melhor; não perdendo de vista os anseios da comunidade, mostrando assim que não existem fronteiras ou limites para alcançarmos nossos objetivos; existem sim barreiras e desafios que serão transpostas sempre que for da vontade daqueles que governam e principalmente, se for fruto do anseio do nosso povo.

É com orgulho de ser Joanino, de pertencer a esta cidade, que deixo minha mensagem de esperança e agradecimento a toda esta gente que trabalha para que seus filhos possam sonhar com um futuro melhor. Tenho muito respeito e carinho pelo povo de meu município, homens e mulheres que com suas mãos sabem valorizar o fruto da terra… Faço questão de dizer que o nosso compromisso continua, sempre trabalhando em benefício da coletividade e do desenvolvimento de um São João Batista próspero e pujante.

“Uma cidade é sempre mais importante do que quem a governa. Uma cidade é sempre maior do que projetos pessoais e políticos de qualquer um”.

Feliz aniversário, minha querida cidade.


                                                             Luiz Everton


quinta-feira, 13 de junho de 2019

São João Batista e sua herança indígena


Por João Damasceno Júnior (*)

João Damasceno Júnior
Escrevo este modesto artigo na intenção de render homenagem à cidade de São João Batista pela passagem dos seus 61 anos de emancipação político-administrativa. E o faço a partir de uma perspectiva de pesquisador sobre a etnologia indígena e com o compromisso de contribuir minimamente, em um determinado aspecto, com a história da nossa querida cidade.

Antes de receber o nome de batismo do santo do carneirinho, o distrito de São João era conhecido pelo nome Ibipeaura, cujo toponômio é procedente da língua tupi guarani que provavelmente seria grafada Ibiperewá (ibi = terra, chão + perewá = ferida), literalmente: terra ferida. Esse nome indígena nos remete a diversas reflexões quanto às nossas origens advindas dos primeiros habitantes do Brasil. Fato que, infelizmente, foi sendo apagado da nossa história e memória.

Essa ocultação e invisibilidade da nossa origem indígena foi, na verdade, algo arquitetado e executado em todo o Brasil, desde o período colonial, até o atual sistema republicano. Pois, para afirmar-se enquanto nação, a matriz indígena não serviria como referência por estar associada a algo “atrasado”, ao “não civilizado”, ideias estas baseadas numa visão etnocêntrica e preconceituosa a respeito das culturas diferentes dos colonizadores europeus.

Deixando, por enquanto, de lado esse debate, voltemos ao significado do primeiro nome de nossa cidade, enquanto ainda era um território pertencente ao município de São Vicente de Férrer (até 1958). Consultando diversos linguistas e dicionários, chego à conclusão que esse nome tupi, Ibiperewá, tem a ver com o fato de que no período da estiagem, os nossos campos se tornam áridos ao ponto de surgirem rachaduras no solo, os torrões. Dando a impressão de estarmos, literalmente, pisando em um chão ou uma terra ferida.

Muito embora esse nome não tenha prosperado, conforme atesta o ilustre conterrâneo Luiz Figueiredo, em seu livro São João Batista: suas lutas conquistas e vitórias (2010), o nosso município possui uma forte influência cultural indígena, aliás, como toda a região da baixada maranhense.

A presença dessa matriz étnica manifesta-se nos hábitos cotidianos dos habitantes dessa região, tais como: dormir em redes; conversar de cócoras; o banho frequente; a roça de coivara; a cultura da mandioca; a crença em entidades sobrenaturais (currupira, curacanga, mãe d’água); as diversas armadilhas e técnicas de pesca, somente para citar algumas dessas influências. Sobre estas especificidades culturais do baixadeiro, retomarei a abordagem em outro momento.

São João Batista possui ainda diversos povoados que confirmam, através de seus nomes, a origem dessa matriz étnica e a manutenção desses nomes deve servir de orgulho a todos nós. Pois, preservá-los, significa não apagar da nossa memória a herança ancestral de povos que tanto contribuíram e contribuem para a formação da cultura brasileira. Somente a título de curiosidade e informação, pesquisei alguns nomes dessas comunidades e seus significados:
Capim Açu - capim  grande.
Coroatá - Um tipo de planta.
Buraçanga é uma palavra tupi guarani que significa: porrete, cacete, bengala.
Iguaratuba (Ilha de) - local onde há abundância de guará ou garças.
Jabutituba - local onde há abundância de jabuti.
Jurupari – ser pertencente à mitologia e cosmovisão indígena.
Janduaba - Nome de uma espécie de arara.
Manival - Nome comum da mandioca. Rama da mandioca ou parte da rama destinada ao plantio.
Pirapendiba – local onde há abundância de peixes.
Quiriri - Silencioso; calado.
Sarnambi - tipo de molusco.
Tabaréu - morador da aldeia.
Tauá - Argila amarela empregada para colorir a louça de barro.
Urucu - planta que se faz um pó vermelho usado como corante.
Ubá – canoa feita de um tronco de árvore.

Concluo informando que este breve levantamento foi feito a partir de uma pesquisa bibliográfica. No entanto, acredito que a pesquisa in loco, nas conversas com moradores mais antigos, revelarão diferentes significados, cujo exercício seria instigante para ser realizado por estudantes dessas localidades.

*João Damasceno Figueiredo Jr. -  Antropólogo, natural de São João Batista; Graduado em Ciências Sociais (UFMA) e Mestre em Cartografia Social e Política da Amazônia (UEMA); Coordenador do Setor de Etnologia do Centro de Pesquisa de Arqueologia do Maranhão.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

No mato sem Cachorro


Por José Sarney

Nos ditados populares, nosso povo cunhou uma expressão para o momento em que estamos numa situação difícil: no “mato sem cachorro”. Quando vejo as dificuldades que estão sendo atravessadas pelo Presidente Bolsonaro, acho que o Brasil está assim.

Estamos enfrentando duas crises: uma, interna, da falta de recursos, recessão, no trincar da estrutura dos três poderes, Legislativo, Executivo e Judiciário; a outra, de natureza mais grave, porque estrutural, de mudança da humanidade, que está passando da sociedade industrial para a sociedade digital e das comunicações.

Surgem novos conceitos sobre valores secularmente sedimentados e novas palavras para defini-los. A mentira é pós-verdade, fake news; novas definições surgem: modernidade, sociedade líquida (as mudanças são de velocidades imperceptíveis), a morte da verdade e da democracia representativa, a interlocução, na sociedade democrática, das redes sociais, enfim, um mundo transformado e não em transformação.

Na conjuntura, nosso País, saindo do sonho para o feijão, está com 58 milhões de desempregados, entre os que perderam as carteiras assinadas, os desocupados, os que nunca procuraram empregos e os biscateiros.
Essa é a maior tragédia.

Sem emprego não tem contribuição previdenciária, não tem consumo, não tem trabalho e, pior, não tem desenvolvimento e caímos na recessão. Esperávamos que com o novo governo as expectativas melhorassem, os investimentos chegassem, o Brasil crescesse.

Os otimistas calcularam um modesto crescimento de 3% neste ano. Os economistas o abaixaram, pouco a pouco, e já está em 1,3%. Nosso Maranhão, também atingido pela crise nacional, ano passado já cresceu como rabo de cavalo, para baixo, menos -5,6% (o último ano de crescimento, 2014, foi mais 3,9%). Atualmente o nosso desemprego está mais alto, e apenas pessoas em desalento — que desistiram de procurar trabalho — já são 560 mil, segundo o IBGE.

Enquanto esse tsunami derruba tudo, o governo põe todas as suas fichas na aprovação da Reforma da Previdência, necessária, pois sem ela em 10 anos não teríamos dinheiro para sustentar os aposentados e nem como pagá-los. Eu acho que é uma pós-verdade, para usar uma linguagem atual. No meu governo a Previdência teve superávit em quase todos os anos. Por quê? Porque o Brasil crescia a 5% ao ano, e o desemprego era em média 3,86%. E empregados contribuem e dão recursos à Previdência. Assim, nosso maior problema é crescer, desenvolver. É a experiência do “saber feito”, para citar Camões. Até hoje não se repetiram os números de crescimento do meu mandato, PIB de 119,20%, e renda per capita de 99,11%. Quem quiser conferir vá na internet e veja os sites da Fundação Getúlio Vargas e do Banco Central.

E tudo mais está à espera da Reforma da Previdência, os investimentos estatais pararam: saúde, educação, energia e transportes intermodais. A Federação está desintegrada. Os Estados, falidos, uns mais, outros menos. Os políticos, no paredão, e o Bolsonaro debaixo de uma fuzilaria sem trégua. Numa síntese disso tudo está o Brasil. Ele é que apanha mais, aqui e lá fora.

Mas eu sou otimista e, quando presidente, afirmei quando veio o vendaval: o Brasil é maior do que qualquer problema, maior do que o famoso “abismo”. Nossa força, nossa riqueza, nosso povo vai superar tudo, sairemos do “mato sem cachorro” e voaremos em “céu de brigadeiro”.


domingo, 12 de maio de 2019

O Ferro-Boto


Por José Sarney

Quem se lembra hoje de como começou o ferry-boat e o grande impacto que teve na Baixada? Primeiro que ninguém o tratava com o nome inglês, e o linguajar popular só o chamava de FERRO-BOTO. Ele era um sucesso. Um cantador de boi, em Pinheiro, fez para mim uma toada que louvava a embarcação, capaz de fazê-lo “tomar café em Pinheiro / almoçar em São Luís / e jantar em Pinheiro / com bagre, farinha e jaboti”.

Foi uma melhoria e tanto. A Baixada não tinha sequer um quilometro de estrada, só se saía a cavalo, boi-cavalo (no inverno) ou teco-teco — dos famosos comandantes Maranhão, Gaudêncio, Diegues ou Prezado (que, graças a Deus, ainda o temos vivo e testemunha daqueles tempos).

Eu, Governador estradeiro, asfaltando a São Luís-Teresina, abrindo a Miranda-Arari-Santa Inês, a Açailândia-Santa Luzia e conectando o Maranhão, via minha Baixada isolada e abandonada.

Chamei o Vicente Fialho, Diretor do DER, grande técnico e excelente executivo, para fazer um programa de estradas para a região. Criei o 1º Distrito Rodoviário da Baixada, em Pinheiro, na ligação com o Gama. Começamos a rasgar estradas para São Bento, Bequimão, Santa Helena, Pedro do Rosário e Alcântara. O primeiro problema era como chegarem as máquinas, já que o único meio de transporte era os barco. Dois dias de mar aberto. Era uma epopeia. Mas a vontade de fazer era maior do que os problemas a enfrentar.

Nosso objetivo era dar à Baixada uma via de escoamento mais rápida, sem precisar de dar a volta por Bacabal, mais 400 quilômetros. Tudo era isolado, mas na nossa cabeça estava delineado um mapa imaginário feito de amor ao Maranhão. Para isso tínhamos que atravessar a Baía de São Marcos. Eu me lembrei do sistema de ferry-boat de Hong Kong,que tem sua mobilidade urbana nesses barcos, e quis fazer um igual. Quando as estradas estivessem prontas, já devíamos ter o ferry-boat pronto para aproximar a Baixada. Como consegui-lo?

Outra dificuldade veio nos ajudar. A produção de óleo de babaçu tinha problemas para ser escoada, pois o porto de São Luís, em frente ao Palácio, já não recebia navios. Resolvi perguntar à Associação Comercial se algum industrial se interessaria por construir e operar um navio. No princípio ninguém quis, mas então surgiu o empresário José Salomão, que aceitou o desafio e depois transformou-se num grande armador nacional. Era um navio pequeno, de mil toneladas. Pois foi o Salomão quem se lançou para operar um ferry-boat. 

Assim, ligamos a Baixada a São Luís. Quem se lembra disso? Os que tinham 15 anos hoje têm 65, e a juventude não sabe o que era e o que é hoje o Maranhão, com o Itaqui e 10.000 pessoas por dia atravessando a baía.

Fico feliz quando vejo que todas estas coisas que nasceram na minha cabeça hoje são realidade. Agora precisamos de um plano para desenvolver a Baixada.

Antes de encerrar: eu também, como Governador, pensei nisso e criei a Companhia de Desenvolvimento da Baixada Maranhense – Codebam, para fazer uma barragem na foz do Mearim e irrigar os campos, transformando-os em plantações de cerais, criação de peixes, camarão — como Guaiaquil, grande polo exportador e responsável pelo progresso do Equador, região semelhante à nossa Baixada.

Não tive dinheiro nem tempo. Mas a ideia é mais forte. Um dia virá.


quinta-feira, 25 de abril de 2019

A CRÔNICA DO DIA


HOJE É DIA DE... 


MIRREGUE, MAIOR QUE SALOMÃO
(*) Nonato Reis


Eu participava de uma operação nacional do Projeto Rondon, em Mari, município nos arredores de João Pessoa, na Paraíba. Como tinha função de supervisão, sobrava-me tempo para fazer o que sempre gostei: conversar com os moradores, conhecer o seu quotidiano, identificar os seus personagens. Certo dia um líder comunitário aproximou-se de mim e comentou:
- Pena que você chegou tarde e não conheceu o Mirregue.
Levei um susto. 
- Mirregue!!?
Quis saber o que significava aquilo. O cara sorriu e explicou. 
- Mirregue foi um milagre da espécie macho. Ganhou esse apelido ainda na infância. Baixinho e rechonchudo, adorava fazer sexo com animais. Como não conseguia alcançar a altura ideal para a cópula, pedia a ajuda de alguém, dizendo “mirregue!”, que significa me sobe, me levanta.
Achei aquilo engraçado, e na mesma hora me lembrei de Charles, um sujeito que morava em Viana e tinha compulsão por sexo com animais. Dizem que Charles, na fase mais aguda, ali dos 15 para os 18 anos, dizimou a criação de galinhas de sua família e não dava sossego aos fazendeiros da região. A ponto de Zé Aroucha, um criador de ovelhas, tê-lo procurado de garrucha em punho, disposto a apertar o gatilho, coisa que só não aconteceu pela intervenção da esposa dele, que se lançou entre os dois aos prantos. 
- Não faça isso, porque você mata ele e acaba com a nossa vida.
Mas o assunto aqui é Mirregue, e devo dizer que me interessei por saber mais sobre o mito. O cidadão contou-me que o ímpeto sexual o fazia diferenciado.
“Dizem que nem Salomão foi páreo para ele. Nunca passou uma noite sem sexo. Teve mais de 2.000 mulheres, e em pelo menos metade delas deixou herdeiros. Quase formou uma cidade só com os seus descendentes. O cara era um reprodutor incrível. Não havia nada igual”.
Ocorre que o tempo passa para todos, e para ele passou rápido demais. Um dia, sem mais nem menos, o pinto de Mirregue embicou e parou. Pediu aposentadoria. Para ele foi como morrer. Entrou em depressão, deixou de comer, ficou transtornado. 
Os amigos o aconselharam a procurar um médico, não um médico qualquer, desses que dão consulta toda semana em postos de saúde, porém um especialista do ramo. 
Com muito sacrifício conseguiu a consulta e explicou o seu drama ao urologista que, alguns exames depois e meses de espera, receitou-lhe umas pílulas branquinhas, com a advertência de que não extrapolasse a dose, que devia ser apenas um comprimido antes do ato sexual.
Mirregue, ansioso para ver o companheiro de volta à arena, ignorou a recomendação do médico e tomou logo cinco cápsulas de uma vez. O efeito foi devastador. Com o pinto vivíssimo novamente, partiu para descontar o atraso. 
Primeiro pegou a esposa e com ela passou a noite inteira dedicado aos prazeres da carne. No dia seguinte, morta de sono e alquebrada, e vendo o marido naquela danação, arrumou as trouxas e abandonou a casa. 
Mirregue olhou em volta e se deparou com a cunhada, que assistia à cena estupefata. Sem lhe dar tempo de reagir, deitou-a no chão de cimento duro e lançou-se sobre ela. Já no final da tarde, igualmente exausta, a cunhada se desvencilhou das garras de Mirregue e bateu em retirada.
Foi até a cozinha e, arma em punho, esbarrou na empregada Tertulina, famosa pelos atributos traseiros, que procurava algum condimento nos armários da pia.
Lá pelas tantas da noite, Tertulina, suando em bicas e com as pernas bambas, conseguiu escapar do massacre e correu para a rua, a gritar por socorro. Alguém precisava fazer alguma coisa. Ou amarravam o patrão ou ele dizimaria a população feminina da cidade.
Vendo Mirregue com o dedo no gatilho, pronto para novas refregas, os vizinhos não tiveram outra saída: enrolaram-no em um lençol e o levaram para João Pessoa, onde passou por uma intervenção cirúrgica para desobstrução dos canais que irrigam o pênis e sustentam a ereção. 
Mirregue livrou-se do priapismo, mas seu companheiro de jornada sexual vestiu o pijama, sempre condenado à flacidez. 
De desgosto definhou e viu a morte surgir diante dele. No leito mórbido, às pessoas que o tentavam reanimar, oferecendo-lhe alimento, ele respondia num fiapo de voz: “eu quero é f...”. Depois, já sem voz, quando lhe perguntavam se queria alguma coisa, quem sabe um chá ou uma colherzinha de leite, batia várias vezes com a palma da mão direita na outra mão fechada, num gesto que simboliza o ato sexual. 
Já perto do fim, pálido e sem forças, apenas tocava com a ponta do dedo indicador de uma mão na entrada do círculo formado pela outra mão, em resposta sobre se desejava alguma coisa. Até que os movimentos cessaram e o dedo saliente ficou para sempre enterrado no vão da outra mão. 
Após sua morte, a casa em que morava virou tapera e palco de assombrações. Tarde da noite, ao passar por ali, as pessoas diziam ver um vulto vestido em uma saia branca a implorar por ajuda: “mirregue!!!”

(*) Nonato Reis é jornalista, poeta e escritor.