quinta-feira, 13 de julho de 2017

A CRÔNICA DO DIA




HOJE É DIA DE... 

 
Nonato Reis
ZÉ PERIGOSO E A CHICOTADA NO TRASEIRO

(*) Nonato Reis

Da perspectiva do homem, a mulher é o alvo preferencial ou mesmo exclusivo da vida. Buscar o convívio com ela, cortejá-la e amá-la constitui a razão da própria existência. Para o sexo oposto a mulher está no vértice de uma lei natural, a da atração dos corpos, e como se sabe, as leis naturais são imutáveis, posto que criadas por Deus. 
Desde pequeno aprendemos que as coisas divinas são imortais e eternas, ou seja: não têm começo nem fim. Assim, a partir da introdução de Adão no Paraíso, o homem, em que pese as controvérsias, nasceu para buscar a sua "costela subtraída” e com ela seguir até o infinito.
O diabo é quando de tanto gostar do "fruto proibido" isso acaba por se tornar uma obsessão. Foi o que aconteceu com Zé Perigoso, que eu conheci em um fórum eleitoral, tentando resolver uma pendência no meu título de eleitor.
O cartório, em razão da iminência do termino do prazo para transferências, estava apinhado de gente. Aqui e ali surgia uma discussão, por tentativa de furar a fila, o que obrigava o segurança do local a intervir, já com o estresse nas alturas.
De repente irrompeu uma briga feia dentro do salão e foi uma correria dos diabos, todo mundo tentando escapar para o meio da rua pela única porta aberta ou pulando as janelas. Quebraram-se mesas, cadeiras voavam de lado a outro que nem aviãozinho de papel. 
A muito custo, alcancei o lado de fora, descabelado, a camisa rasgada e o braço esquerdo sangrando. A briga, que havia começado dentro do cartório, avançou para o meio da rua, onde dois homens trocavam tapas e pontapés.
O segurança, depois de levar um soco perdido no nariz, tentando apartar os valentões, sacou um “38” enferrujado e apertou o gatilho duas vezes, a arma apontada para o alto. 
Por instantes atordoados com o estampido das balas, os lutadores se deram uma trégua, e "a turma do deixa disso" entrou em ação, dando fim à confusão, porém sem evitar a troca de ofensas e ameaças entre os dois. “Esse filho da puta mexeu com minha mulher”. “Mexi nada, ela que me deu mole”.
Os ânimos serenados, aproximei de Zé Perigoso e puxei. “Amigo, que furdunço foi esse, você buliu mesmo com a dama?”. Zé me explicou que estava quieto na fila, seu único intuito era corrigir imprecisões em seu documento eleitoral e voltar para São Luís, onde trabalhava como fotógrafo profissional em um jornal. 
De repente avistara aquele “rabo de saia” a cruzar o salão, indo e voltando. “Era uma sereia maravilhosa. Eu olhei nos olhos dela, ela olhou nos meus. Aí pensei comigo: morreu!”.
Zé só não sabia que a sereia já tinha sócio no patrimônio. Aproximou-se dela e, após os cumprimentos de praxe, partiu para o ataque, direto, objetivo, sem meias palavras. Já fungava em seu cangote, tentando morder-lhe as orelhas, quando o “dono do pedaço”, um motorista de ônibus, marrudo, surgiu do nada e acertou-lhe um tabefe.
“Zé, mas isso não se faz! Como é que você invade o domicílio do sujeito sem pedir licença?”. Zé deu uma risadinha e me confidenciou que a culpa era mesmo dele. Não sabia lidar com o sexo oposto. Ou melhor, não tinha controle sobre seus impulsos. “Mulher é o meu fraco. Se vejo uma se balançar na minha frente, já fico com vontade de agarrar”. Porém, como a atenuar suas faltas, explicou-me que nunca dava o primeiro passo. “Eu fico observando o jeito dela. Se vejo que me dá mole, aí, meu amigo, eu vou pra cima. Ninguém me segura”.
Por conta desse modo de agir desenfreado com as mulheres, já passara por poucas e boas. Uma vez, andando pelo interior, pedira hospedagem na casa de um quitandeiro, que de muito bom gosto dividira o seu quarto conjugal, para que ele pudesse descansar à noite, após um dia exaustivo. 
A casa era pequenininha, só havia uma saleta, um quarto e a cozinha. No primeiro cômodo, dormia o cunhado do quitandeiro. Na cozinha, já ocupada com um fogão a lenha e um armário velho, não cabia ninguém. O jeito foi armar uma rede para Zé ao lado da rede do proprietário da palhoça, embaixo da qual ficava a cama da mulher.
Lá pela madrugada o barraqueiro foi despertado com o ranger das grades da cama. Olhou para baixo e viu a bunda do hóspede subindo e descendo sobre o corpo da esposa. Possesso, pegou uma ripa e botou Zé para correr só de cuecas, debaixo de vara. De outra feita, engraçara-se pela filha de um vaqueiro, que morava com o pai no lugar chamado Taberneiro, próximo da Palmela. 
Era tempo de inverno, os campos submersos. Só podia chegar na casa de canoa. Durante uma “visita” à luz do dia, mentalizou os espaços da casa; viu que a menina dormia na sala com o pai, numa rede perto do corredor que dava acesso à cozinha. Esperou anoitecer. Combinara com a garota para que deixasse a porta apenas encostada. De quatro entrou na casa e caminhou pelo assoalho de gatinho. Por um descuido bateu na rede do velho, que ainda estava acordado.
Imaginando tratar-se do vira-latas que guarnecia a entrada da casa, o pai da garota pegou o chicote, que trazia consigo na rede, deu um berro “cachorro!” e açoitou o traseiro do agressor que, pego de surpreso e com a bunda latejando, berrou e começou a uivar que nem um cão sarnento, até se jogar na rede da menina e se proteger com ela.
O velho acendeu a luz e, chicote em punho, saiu à procura do cachorro pela casa, sem o encontrar. “Foi ele, eu o peguei pelo rabo”, dizia o velho, na caça ao invasor. Temendo ser descoberta, a filha tratou de encontrar uma saída. “Vai dormir, pai. Deixa o bichinho em paz, ele está aqui comigo, gemendo de dor”.
 (*) Nonato Reis é jornalista e natural de Ibacazinho, município de Viana-MA.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Viva a Baixada

*Por Natalino Salgado


Dr. Natalino Salgado
Na semana passada, fui alcançado por diversas mensagens de baixadeiros que se identificaram com o artigo que aqui publiquei, constatando que há naquela região uma terra santa. Fiz referência ao meu torrão natal, minha amada Cururupu; mas diversos leitores me disseram que a descrição que apresentei os fez recordarem de suas próprias cidades natais, dadas as semelhanças dos aspectos geográficos que irmanam cada uma das cidades da Baixada Maranhense.

Uma obra que também pode fazer surgir esse amálgama de sentimentos, por elencar uma série de escritos de elementos nostálgicos comuns, atende pelo nome de Ecos da Baixada – coletânea de crônicas sobre a Baixada Maranhense, e que se constitui numa daquelas iniciativas que a arte, na forma de literatura, pode se propor, quando tudo o mais, ao longo de anos, falhou por incontáveis razões. O eco é aquilo que reverbera, mesmo depois da fonte originária ter cessado. Ele ricocheteia e se espalha, repetindo a palavra várias vezes, para que seja ouvida e, quem sabe, desperte em seus ouvintes passivos, esquecidos e alheios, a atenção necessária.

A publicação é uma iniciativa do Fórum da Baixada Maranhense e reúne uma plêiade de baixadeiros escritores, amantes de sua terra que, a despeito da riqueza natural, da diversidade multifacetada de mar, terra, rios, florestas, lagos, flora e fauna, de ter uma riquíssima cultura – até um sotaque peculiar, um léxico de palavras únicas – tem amargado, ao longo de seus breves séculos de ocupação, o esquecimento e um desenvolvimento espasmódico que alcançam, só precariamente, sua gente lutadora.

Campos da Baixada
Ler o livro é fazer uma impressionante viagem por todos os rios e ter à mão uma ictiografia detalhada. Confesso que aprendi mais nomes de árvores que em todas as minhas leituras anteriores. O livro é feito por apaixonados que foram reunidos por iniciativa do advogado – devo acrescentar o epíteto “embaixador baixadeiro” – Flávio Braga, presidente do Fórum EM Defesa da Baixada Maranhense.

A propósito, a palavra baixadeiro é desconhecida pelos dicionários com o sentido carinhoso que aqui menciono, como uma designação, uma naturalidade. Mas encontrei a palavra associada a um tipo de cavalo rústico, que se desenvolveu naturalmente, e por alguma intervenção humana, justamente em nossa baixada, desde o Brasil Colônia. É um animal pequeno, resistente, totalmente aclimatado aos extremos de seca e cheia da região. É uma raça antiga e um patrimônio genético que honra a comparação com habitantes da região, no aspecto tenacidade e resistência às intempéries.

Na obra que mencionei – ainda inédita – há ao mesmo tempo um toque de tristeza, quando se lê, por exemplo, na crônica de Nonato Reis, um lamento pelo Rio Maracu que, como outros no Maranhão, e talvez em estado mais grave, morre à míngua ano a ano. Mas toda a hidrografia da Baixada está gravemente comprometida e as iniciativas até hoje são, na melhor das hipóteses, tímidas.

O Ecos da Baixada deve ser distribuído nas escolas, na esperança de que crianças e jovens sensibilizados, se tornem ainda agora aqueles que farão de suas jovens vidas ecoar o chamado, não para salvar a natureza manifesta na Baixada, mas para se harmonizarem com ela, como se seus rios e igarapés fossem as veias que irrigam suas vidas.

A pena destes escritores, que integram a obra, faz as vezes de gritos proféticos. Clamam pelos rios como os elementos fundamentais de todo um ecossistema único e que arqueja, como se fosse a materialização das palavras do apóstolo Paulo que, em sua Carta aos Romanos, diz: “Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto.” (Romanos 8:22).

Quem nasceu naquele lugar sabe do que falo. A baixada, a despeito de todos os maus-tratos a que foi submetida, vive e resiste. Viva a Baixada!

*Médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da AML, ANM, AMM, IHGMA e SOBRAMES.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Baixada Maranhense e o Instituto Histórico

Nonato Reis*
A Baixada Maranhense é uma região historicamente esquecida das instâncias de decisão. Hoje bem menos do que no passado, é verdade, porque agora existe a malha rodoviária que permite a integração física entre as cidades e os vilarejos com a capital e os demais centros urbanos do País. Antes tudo eram trevas. Ao descaso dos gestores públicos somava-se o isolamento geográfico. As ligações com São Luís só se davam por meio de lanchas e vapores, navegando rios e mares em viagens que duravam até oito dias.
Viramos algumas páginas desse livro sombrio, mas o cerne da questão permanece: a marginalização política -, como um garrote a condenar ao atraso aquela vasta região de rios, lagos, campos e florestas, repositório de uma história belíssima, até hoje contada apenas por esparsos capítulos, frutos da iniciativa isolada de alguns de seus filhos mais brilhantes.
Antes se dizia que a Baixada precisava eleger representantes nos parlamentos em São Luís e Brasília, para que assim pudesse ser inscrita no mapa das políticas públicas do Estado e da União. Nas últimas décadas elegeram-se dezenas de deputados estaduais e federais egressos da Baixada. Criou-se uma frente política na Assembleia Estadual em defesa da região. Tivemos até um Presidente da República, filho de Pinheiro ou São Bento (Sarney afirma ser de Pinheiro, mas sua biografia conta que ele nasceu num lugarejo pertencente a São Bento). E em que isso serviu para mudar o horizonte da Baixada?
De concreto, nada. Existe um projeto denominado “Diques da Baixada”, criado no âmbito do governo federal que, se executado tal como no papel, pode ser a redenção da região. Um dos maiores gargalos do desenvolvimento regional é o fenômeno da salinização, que significa o avanço das águas salgadas sobre os estoques de água doce, que no verão se reduzem drasticamente, permitindo a contaminação dos lagos, rios e lençóis freáticos, pela água que vem do Golfão Maranhense, o que gera um rastro de destruição sobre a fauna e a flora lacustres.
Há também, no âmbito do Estado, uma versão tupiniquim desse projeto, denominado “Diques de Produção”, que possui objetivos menos ousados, e compreende a construção de barragens entre tesos próximos um do outro, para controlar a entrada de água salgada nos rios e lagos. Some-se a isso a elaboração, pelo governo estadual, de projetos nas áreas de psicultura, pecuária, agrícola e até de beneficiamento de alguns produtos típicos da região.
De um modo geral, os diques são importantes porque tratam essa questão de forma científica, fazendo com que a água doce, por meio de um sistema de comportas, permaneça o ano todo em bom nível nos cursos naturais, em benefício das populações que residem às margens dos rios e dos lagos e vivem da pesca, da caça e da agricultura de subsistência. Em que pese os esforços políticos para alavancar o conjunto de ações previstas, o projeto ainda é visto com desconfiança.
E por que isso ocorre? Porque falta uma ação conjugada entre poder público e sociedade – sociedade aqui entendida em sua forma organizada. Não adianta criar bons projetos se não houver a força intermediadora dos organismos sociais, que têm o papel de ouvir a população, discutir com ela, encaminhar propostas e fazer pressão nas diversas instâncias de poder, para que sejam efetivadas. É assim que as coisas funcionam no regime democrático.
Muitos municípios da Baixada já dispõem de academias de letras, que vejo como fóruns importantes do conhecimento acadêmico. Mas até aqui elas funcionam naquele formato anacrônico de reuniões fechadas e improdutivas. É importante que as academias se reformulem na sua concepção original, e de organismo estático e ausente passem a atuar como uma força viva da sociedade, criando ideias, cobrando soluções, fazendo a interlocução com as prefeituras e os demais poderes.
Também há que se destacar a criação do Fórum em Defesa da Baixada, formado por luminares de diversas áreas de atuação, todos amantes da região e dispostos a criar mecanismos que ajudem a melhorar a vida das populações. Atualmente o Fórum se dedica a desenvolver o projeto de um livro de crônicas, com temáticas e personagens da Baixada.
A Baixada Maranhense já foi uma região importante nos seus primórdios, tendo sido alvo da ação de padres jesuítas e aventureiros espanhóis que para cá vieram – alguns antes mesmo do Descobrimento – atraídos pelos relatos da existência de minas de ouro ao longo da bacia do Turiaçu. Não por acaso a missão de Conceição do Maracu, que deu origem à cidade de Viana, instalou-se em terras do Ibacazinho, como estratégia para explorar o território sob influência do rio Turiaçu e granjear riquezas.
Assim vejo a Baixada sustentada em dois pilares fundamentais: um de natureza histórica, importantíssimo; e outro que aponta para o desenvolvimento de uma região, que por séculos ficou imersa no esquecimento. Como contribuição, proponho a criação de um Instituto Histórico e Geográfico da Baixada, com a missão de resgatar esse vasto patrimônio cultural e elaborar políticas que valorizem e estimulem ações voltadas para o contexto da Baixada Maranhense.
Um exemplo prático seria contatar autores e estudos sobre ícones e personagens da região, sistematizar esse conhecimento por meio de publicações, viabilizar a edição de livros, articular com as prefeituras a inclusão de disciplinas sobre história da Baixada nos conteúdos curriculares das escolas municipais. Por enquanto o IHGB é uma ideia embrionária, mas que pode criar formas e ajudar a resgatar esse rico patrimônio para as gerações futuras. Fecho com “Prelúdio”, a bela música de Raul Seixas. “Um sonho que se sonha só/é só um sonho só/ mas sonho que se sonha junto é realidade”.
*Jornalista, natural de Viana, na Baixada Maranhense.


domingo, 2 de julho de 2017

Brasil, um país perdido

COLUNA DO JERSAN
Por João Batista Azevedo (Interino)
Brasil, um país perdido
A cada acontecimento diário na política brasileira mais fica à mostra que o Brasil está um país acéfalo, perdido. Já não há mais possibilidade de um debate racional sobre a situação do país. Uns até acham que sim, outros acham que não. Não se entende mais nada. A decepção vem de todos os lados. Não bastasse a classe política, agora são os membros do STF, a mais alta corte de justiça do país, que nos deixa apreensivos com algumas decisões de alguns de seus ministros. Aliás, entre os próprios membros do STF há discordância quanto à postura dos políticos que enlodam a atual conjuntura política brasileira. Para uns poucos temos a melhor casta política, como provam as últimas decisões.
Cada grupo político vê os acontecimentos da maneira que lhe convém, e o debate vai para o brejo. Agora disputa-se qual é a maior quadrilha em ação nesse país abandonado por Deus, que, diziam, era brasileiro. Só que não. O PT e o PMDB são acusados de terem organizado quadrilhas para manipular o governo, e existem fatos que demonstram que aos dois cabe essa horrenda nomenclatura.
O sistema político brasileiro está falido, e a corrupção, a insegurança nas ruas, as políticas públicas ineficientes, o serviço público de qualidade precária e o baixo crescimento econômico são apenas algumas das consequências desse fenômeno. Não somente as investigações da Operação Lava Jato, mas também a situação caótica das penitenciárias, a violência do crime organizado e a falência financeira de estados e municípios colocaram definitivamente a olho nu o problema.
Um dos Procuradores da Força-tarefa da Lava-Jato, Carlos Fernando dos Santos Lima, resumiu o quão grave é o momento político brasileiro. “Pode ser que não queiramos acreditar nisso. É natural negarmos a gravidade de problemas que nos afetam, tentando medidas paliativas, na esperança de que, diminuindo a febre, possamos escapar da doença. Mas de nada adianta nos iludirmos, pois é essa doença, um sistema político disfuncional e corrompido, que subverte a democracia e o estado de direito. Se não nos mata, nos mantém tísicos, enfraquecidos como nação”.

O golpe contra Dilma foi um erro

É o que assegura o senador e ex-presidente do senado, Renan Calheiros. Depois de renunciar à liderança do PMDB na quarta-feira, chamando Temer de covarde e apontando a influência de Eduardo Cunha em seu governo, o senador Renan Calheiros reconheceu que o impeachment da presidente eleita Dilma Rousseff foi um erro pelo qual o país está pagando caro. “– É claro que foi um erro. A ideia de que todos os problemas se resolveriam com o afastamento dela foi uma estratégia do Eduardo Cunha para governar sob as costas do Michel”.  Pelo sim, pelo não, o certo é que todos os problemas se agravaram e agora a crise política está chegando a uma situação-limite, está cobrando uma saída, seja com a antecipação de eleições, como defendeu o Fernando Henrique, seja com a adoção do parlamentarismo.

Os governos e suas propagandas

Sempre me questionei sobre as mídias dos governos, sobretudo as dos governos estaduais. Será se elas surtem o efeito que esperam os governantes? A população que a elas assistem, bem editadas, de fato dão crédito aquilo que veem? Tenho minhas dúvidas. Se para uns pode ser gratificante, para outros, é frustrante, sobretudo para aqueles que veem suas obras prometidas caírem no esquecimento. Este sentimento certamente é o que recai aos moradores do povoado de Itans, município de Matinha, que teve prometida a Estrada do Peixe, e até agora, só um enorme lamaçal separa o povoado da sede do município. Só pra lembrar, Itans é o maior polo produtor de peixes de criatórios do Estado.
Do mesmo modo frustrante, estão os moradores das cidades do litoral norte do Estado com a prometida e alardeada construção da ponte sobre o rio pericumã, ligando os municípios de Bequimão a Central do Maranhão e a todos os municípios do litoral norte, como Porto Rico, Mirinzal, Apicum-açu, Serrano, Cedral e outros. A população a ser beneficiada espera mais empenho na retomada destas obras por parte do governo Flávio Dino, e que tão logo elas posam integrar o “pool’ de obras concluídas a serem exibidas nas propagandas oficiais.

A MA-014

A população baixadeira espera ansiosamente que a recuperação da rodovia MA-014, que liga os municípios da Baixada Maranhense, de fato seja iniciada agora no mês de julho, como prometeu o secretário de Infraestrutura Clayton Noleto. As informações dão conta de que toda a rodovia que vai de Vitória do Mearim a Pinheiro precisa literalmente ser refeita, haja vista a intrafegabilidade. Não bastasse os reclames da população e de quem dessa estrada se utiliza, os políticos – alguns naturais de municípios da Baixada – podem comprovar a necessidade e urgência da recuperação dessa importante rodovia estadual.

De olho nos Deputado Federais e Senadores

O povo maranhense, não diferente de toda a população brasileira, assiste às peripécias dos seus deputados federais e senadores. Agora é a hora de mostrar que de fato representam o povo ou a uma elite empoderada. Nessa novela, cujos atores e coadjuvantes são os nossos políticos, a população assiste incrédula à postura cínica da maioria dos nossos deputados e senadores. A população manda avisá-los de que no próximo ano, tem-se a prestação de contas de suas ações de hoje. Nós, o povo, estamos de olhos atentos e vigilantes!

Recurso


Diante da decisão do juiz Ivis Monteiro da comarca de São João Batista, que cancelou o seletivo que a Prefeitura de São João Batista iria realizar para a contratação temporária de servidores, não caberia outra ação, por parte do Prefeito João Dominice senão entrar com recurso junto ao Tribunal de Justiça. A decisão do juiz é questionável, pois apenas para alguns cargos fora permitida a realização do seletivo, julgando assim indispensável. O que muitos se perguntam é: “e os vigias para as escolas, as zeladoras, as merendeiras, os auxiliares administrativos não são imprescindíveis para o funcionamento destes setores”? A população espera resposta para muitas desta indagações, como espera também que os doutos representantes do Ministério Público e do Juizado, possam pactuar com o poder executivo para uma plena governabilidade em São João Batista. Assim, todos ganharão com certeza e a cidade agradece. 

(Texto publicado na Edição de hoje (02.07.2017) do Jornal Pequeno, na Coluna do Jersan)

domingo, 18 de junho de 2017

E quase tudo virou saudades

Japeçoca
Há muito queria escrever sobre tudo que tinha na minha terra e hoje não tem mais, ou é muito difícil de se encontrar. E a penca de coisas é enorme. Para tanto tive de fazer uma verdadeira regressão psicológica. Um mergulho no tempo. E certamente não mencionarei tudo que o tempo guardou no esquecimento. Mas procurarei ser fiel às minhas lembranças: as veredas por onde andei, os frutos que saboreei e do muito que preencheu os dourados dias da minha infância.

Retrocedi no tempo e me vi nos meus dias de férias na casa de meus avós maternos no Boticário, - uma reentrância de campo onde se espalhava um extenso tapete verde de capim de marreca. Às primeiras chuvas o campo se enchia e logo vinham as vegetações imergindo do solo submerso. Eram as orelhas de veado, os pajés, as vitórias-régias, as gapeuas, os guarimãs que logo recebiam as primeiras japeçocas em seus acasalamentos e berçário. Nas primeiras horas daquelas manhãs ou nos fins daquelas tardes ouvia-se o cantar delas que cruzavam o estreito ressaco de enseada em direção à casa de Seu Doquinha ou lá pras bandas do Urucu. Era comum se vê singrando os campos nunca cercados, pessoas que faziam daquele habitat o seu próprio sustento e meio. As canoas e os marás eram utensílios de uso de todos que por ali moravam.

A parte alta de terra começava quase sempre por um rosário de quirizeiros, cujos frutos perfumavam o ambiente em suas épocas. Os tarumãs e as ingás também ganhavam aspecto em meio a plantação nativa. Mais no alto sobressaiam-se as casas dos moradores com seus quintais e roças.

A casa do meu avô Heráclito ficava em uma parte mais alta. À frente, um terreiro sempre limpo onde pastavam os animais e onde quase sempre era improvisado um campinho de futebol. Do lado a velha “casa-do-forno”. Mais para a direita ficava a casa de Seu José Castro, enquanto para o lado esquerdo morava o ranzinza Seu Zé Costa. Meu avô, de cuja lembrança me foge à memória, era um senhor severo, daqueles que empenhavam a palavra como a honra maior de um homem. Minha avó, Andrelina – a quem nós chamávamos carinhosamente de Delica - era extremamente dócil. Tinha nos seus pequenos olhos o profundo de um azul-mar. Era ela quem nos acolhia, quando das travessuras, do relho que era anunciado e quase sempre cumprido.

Bico-de-brasa
Afora a casa, quase sempre se tinha um poço no quintal, além, de uma sentina, um chiqueiro, um galinheiro e uma estrebaria. A primeira parte do quintal era quase sempre constituído de algumas árvores frutíferas, tais como, limoeiros, laranjeiras, tanjarineiras, algumas bananeiras e mangueiras. Sobressaia-se também um jirau e uma armação de paus que, fincados no chão, se cruzavam em xis para o suporte de canteiros suspensos, onde se plantavam as ervas e os temperos caseiros. Muito difícil vê-se quintal assim hoje em dia.

Do lado da estrada que vinha até a casa de meu avô uma frondosa mangueira nos presenteava com uma espécie rara de manga: a sapatinho. Confesso que nunca vi em outro lugar, acho que era o último exemplar. Era um tipo pequena, mas de um sabor agridoce sem igual. Era a preferida dos bezerros que costumavam por ali pernoitarem. Outras grandes árvores também compunham a beleza ímpar daquele lugar. Nelas costumavam se ver exemplares de tucanos, ainda que raros. Mas eram comuns naqueles tempos os bicos-de-brasa, os japis – estes tinham na grande árvore seus ninhos bem trançados que balançavam ao sabor do vento matinal. Por ali também visitavam as rolinhas “fogo-pagô”, e as pipirinhas pardas e azuis. Nas roças, nos arrozais, faziam algazarra os curiós, caboquinhos e bigodes. Todos livres, leves e soltos a grazinarem suas sinfonias nas manhãs de minha infância.

Entre as astúcias dos meninos daqueles tempos, uma era imprescindível. Menino que se prezasse valente, astuto e traquina, tinha que ter uma baladeira, uma cordinha, ou um pequeno cabresto, afim de campear os carneiros que pastavam soltos nos campos e capoeiras. Os machos nos serviam de montaria, enquanto as fêmeas quase sempre tinham outras utilidades.

Na volta pra casa, exceto as responsabilidades de ir para o Grupo Escolar e para a aula particular – coisa que sempre fomos obrigados a fazer, eu, meus irmãos e muitos da minha época – na casa de Dona Ubaldina, a vida seguia seu curso normal de menino. Uma pelada nos campinhos improvisados, o jogo de bolinhas, a bola de meia, o dinheiro de carteira de cigarros, os chevrolets feitos de latas de sardinhas com pneus de rolhas de vidros de penicilina, além de algumas tarefas caseiras, como o recolhimento crepuscular dos animas e o agasalhar de algumas poucas criações. Isto era muito comum nas famílias da época. Algumas vezes, em tempos já mais estios, os animais se afastavam pra mais longe e quase sempre não retornavam para casa no cair da tarde. Era certo que no dia seguinte tinha-se que ir atrás. O rumo era o Arrebenta, o Cazumba, o Jamari e o Candonga. As vezes se tinha êxito, mas quando não, a busca se repetia no dia seguinte.

Pipira azul
Nestas andanças por entre as capoeiras, uma fartura de frutos do mato sempre apareciam do nada, como se quisessem nos encantar com os seus sabores silvestres. Eram maracujazinhos-do-mato, murtas, goiabas-araçás, maria-pretinhas, cauaçus e os deliciosos tucuns-verdes. As amejubas eram raras, mas com faro apurado podia se achar. Das palmeiras diversas e em seu tempo também se achavam as macaúbas e os marajás. Nos campos, os bandos de graúnas-de-peito vermelho faziam seu balé de cores e cantos. Tudo ali existia naquele tempo diante dos nossos olhos...  Hoje, quase nunca mais se tem ou se vê essas maravilhas do interior.

A busca pelos animais de casa me rendia um prazer imensurável de liberdade e conhecimento. Em algumas vezes, eu, perdido entre as guloseimas do mato, esquecia até da razão de estar naquelas andanças, enquanto o burro e o cavalo faziam o caminho de volta pra casa e chegavam primeiro do que eu, me permitindo às vezes uma pisa pela vadiagem.

Já na boca da noite, era preciso tomar o banho às pressas, antes que os caburés começassem seu canto noturno. Morria de medo. Precisava estar preparado para ouvir as histórias de Dona Palica, que entre uma cachimbada e outra, contava pra a meninada da redondeza, as histórias de reis e rainhas de um reino distante, bem como as dos bichos, em especial as de Coelho e Tia Onça, as que mais me encantavam.

Assim caminhava a noite. A lua quase que constante nos céus daqueles tempos, nos convidada para as brincadeiras de “cair no poço”. Chegava a hora de dormir. O pai-nosso, a Ave-Maria nos guardavam e nos protegiam. E assim embalávamos nossos dias na pureza da vida.


Hoje tudo isso é filme na minha lembrança que um dia vivi e que o tempo não me deixa viver outra vez. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

Rui, Jorge e Damasceno: Os irmãos Figueiredo juntos novamente.

Os irmãos Rui, Jorge e Damasceno Figueiredo
Soube ainda há pouco, ao abrir minha rede social Facebook do falecimento de um grande amigo do meu pai, e por extensão também meu amigo. Refiro-me a Rui Gonçalves Figueiredo. Já era um senhor idoso. Vivera 84 anos. Natural de São João Batista, Rui, que segundo informações sofria do Mal de Alzheimer, faleceu na cidade de Parauapebas, Estado Pará.

O fato em si me comoveu, mas o que me chamou a atenção, além das muitas condolências manifestadas por muitos dos que o conheceram e por ele tinham alguma afinidade, ainda que a de simples conterrâneo, foi a foto postada por um dos seus sobrinhos. Na imagem ali estavam os três filhos de seu Artur Marques Figueiredo. Todos já falecidos: Rui, Jorge e Damasceno.

Fiquei a pensar como é de fato a vida. E como ela é de maneira frágil. Um dia estamos aqui, em outro dia não. Me fez reafirmar o que já passei a cultivar há um certo tempo: o tempo de hoje. Valorizar, respeitar e amar os verdadeiros amigos. Irmanar-se cada vez mais com aqueles que são o sangue do nosso sangue. Entendo cada vez mais que a vida é um permanente tecer de sentimentos bons, afinal, como diria o poeta, cada um compõe a sua história. Fazer o bem é mágica para se ter o bem.

Em pose de irmãos que se amavam, se respeitavam e se davam muito bem, os três aparecem abraçados. Comovente, sem dúvida. O registro se nos traz lembrança, aos familiares traz muito mais, pois era um tempo de vida e aqui eles estavam. Hoje não estão mais. Trouxeram consigo a marca familiar dos Gonçalves Figueiredo, ao lado de mais duas irmãs, Zinaura e Naura Gonçalves Figueiredo, ainda vivas.

João Damasceno o mais novo dos três foi o primeiro a se ir. Faleceu em 2004, vitimado por um câncer de próstata.  Era um boêmio. Poeta nas horas vagas. Convivi com ele alguns momentos de poesia. Vi-o recitar muitos dos seus poemas, infelizmente dispersos e levados consigo. De boa instrução, Damasceno sempre exercia funções cidadãs na nossa cidade. Foi funcionário público estadual. Serviu por muitos anos como vigilante do Colégio Acrísio Figueiredo. Sempre foi afeito ao trabalho, seja como lavrador, pois sempre tinha sua roça, seja como proprietário de olarias. Porém era com a função de açougueiro que mais se identificava. Era um exímio magarefe. Trabalhou por muitos anos nos mercados de nossa cidade.

Jorge Figueiredo tem destaque sobretudo na vida política de nossa cidade. E assim já tem seu nome na história joanina. Reservo em especial outros escritos sobre a vida e a obra política deste que foi de simples chofer de caminhão a ser uma das grandes lideranças políticas de sua terra. Um ano após a morte do seu irmão mais moço, o coração do ex-coletor estadual, ex-vereador e ex-prefeito não resistiu. Jorge faleceu em 2005. Era um homem por quem eu tinha um profundo respeito, cujo sentimento ele me retribuía com grande admiração.

Rui, o mais velho, foi-se hoje. Foi pra mim, o mais hábil dos velhos cortadores de carne do antigo mercado municipal, que ficava onde hoje é a praça de eventos. Foi lá que o conheci, nas minhas primeiras responsabilidades de rapazinho, quando ainda de madrugada era preciso estar no mercado. Naquela época de pouco provimento, era preciso ser astuto, pois o mercado era um lugar também de barulho. Era preciso gritar alto para se fazer ouvido. Talvez por isso o velho Rui fora aos poucos perdendo a audição. Tinha que se falar alto para que ele nos ouvisse. E nem se zangava quando a gente o chamava de “surdo”.   Foi também funcionário público estadual. Era vigia. Foi lotado por muitos anos até se aposentar no Colégio Acrísio Figueiredo.  Sempre que nos encontrávamos, ele perguntava pelo meu pai, e fazia questão de dizer que eram amigos. E isso, como se fosse uma missão, me fazia mais amigo dele.

Hoje os três filhos-homens de seu Artur não estão mais aqui, mas a fotografia agora se repete, só que em outro plano, o dos céus. O de Deus. Se aqui no plano dos homens, pairam as dores, as lembranças, as lágrimas, no plano celestial, os irmãos se reencontram. E certamente abrirão sorrisos ao se abraçarem, afinal, a vida segue, e a morte é só passagem. E o céu é um lugar de plena felicidade.

Aos familiares o nosso profundo pesar.



quinta-feira, 1 de junho de 2017

Ex-prefeita Maria Raimunda começa a pagar caro pela sua desastrosa administração

Ex-Prefeita Maria Raimunda
A ex-prefeita Maria Raimunda que ficou conhecida pelos seus impropérios e muito mais pela desastrosa administração à frente da Prefeitura de São Vicente Férrer, começa a pagar pelos seus "pecados" administrativos. Ela que afirmava que a "alegria vem das tripas", terá certamente agora motivos para chorar. E a razão segue-se abaixo. 
O juiz Bruno Barbosa Pinheiro, titular da comarca de São Vicente Férrer, condenou a ex-prefeita do município, Maria Raimunda Araújo Sousa – também conhecida nas redes sociais como “prefeita caloteira” – por atos de improbidade administrativa praticados na sua gestão . Entre as penalidades à ex-gestora, a suspensão dos direitos políticos por cinco anos; multa de 20 (vinte) vezes o valor da remuneração mensal, quando chefe do executivo, e proibição de contratar com o poder público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócia majoritária, pelo prazo de três anos.
A sentença foi proferida em Ação Civil Pública por Ato de Improbidade Administrativa movida pelo Ministério Público Estadual em desfavor da ex-prefeita. Na ação, o MPE cita o inquérito civil nº 001/2013, instaurado no âmbito da Promotoria de Justiça do Município (São Vicente Férrer), que constatou como condutas improba atribuídas à ex-gestora a não realização de concurso público; manutenção de servidores em desacordo com a lei; utilização de critérios pessoais para contratação e exoneração de servidores; impedimento aos servidores concursados/estáveis de exercerem seus cargos, sem a instauração de procedimento administrativo; não pagamento regular dos salários dos servidores e prática de nepotismo na administração municipal.
Em vista dos fatos, à época da ação (2013), o autor requereu o afastamento liminar da requerida e a exoneração dos parentes da mesma do quadro da Prefeitura.

Em contestação, a ré sustentou ter verificado, no início da gestão, a existência de servidores contratados e concursados que não trabalhavam, mas apenas recebiam salários, motivo pelo qual teriam sido exonerados. Ainda segundo a ex-prefeita, a gestão entendeu que a realização de concurso público no início do exercício do cargo seria uma medida demasiadamente complexa, razão pela qual somente no fim do primeiro mandato enviou à Câmara Municipal projeto de realização de concurso.


Sobre o atraso de salários, Maria Raimunda alegou que o problema vinha da gestão anterior ao seu mandato, mas que estava adotando medidas para regularizar o pagamento. Em relação ao nepotismo, a ex-prefeita afirmou à época que a contratação de parentes não constitui violação à Súmula Vinculante nº 13, do STF, mas, ainda assim, garantiu, exonerou todos os parentes de cargos políticos.
Tentativa de ludibriar o Poder Judiciário

Sobre essa última afirmação, o juiz frisa, em suas fundamentações, que, embora constem dos autos portaria de exoneração da filha da ex-prefeita, Linda Sousa Penha, do cargo de secretária municipal de saúde, e datada de 20 de novembro de 2013, provas juntadas pelo autor da ação atestam que a mesma continuou a exercer livremente o cargo, pelo menos até o dia 17 de junho de 2014.
Linda teria, inclusive, assinado parte da prestação de contas do Município no exercício de 2014, bem como ofícios encaminhados à Promotoria de Justiça do Município e datados de dezembro de 2015, além de janeiro, fevereiro e março de 2016.

Imenso dolo 

Sobre o atraso no pagamento de salários de servidores, o juiz destaca que no dia 10 de março de 2016 o MPE informou que a irregularidade continuava. O juiz ressalta que a irregularidade culminou no bloqueio de 60% dos recursos das contas do Município de São Vicente Férrer, e o posterior bloqueio integral de todas as contas municipais durante a última semana da gestão da ré.


“Salta, pois, aos olhos, o imenso dolo da prática dos atos relacionados, com interferência na vida dos munícipes, indo além do dolo genérico, consistente na vontade livre e consciente de agir em desacordo com a norma, que já é suficiente à configuração de cada uma das condutas descritas como ato administrativo que atenta contra os princípios da administração”, conclui o juiz.
(Com informações do Blog da Silvia Teresa)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

O triste fim de um bando de canalhas

Por Caio Fernandes
Francis Bacon é autor de uma frase que costumo usar em momentos históricos como o de hoje, 17 de maio de 2017. Dizia ele que a verdade é filha do tempo e não da imposição.
Nada mais apropriado para o dia em que caiu por terra, definitivamente, a máscara de soberba e hipocrisia que encobria a decrepitude de um sistema político dominado por uma escória que foi capaz de arruinar uma democracia inteira em defesa dos mais inconfessáveis interesses.
Ironia das ironias, foi por medo do mais atual instrumento de tortura da idade moderna, a prisão preventiva indefinida, que os donos da JBS, Joesley e Wesley Batista, proporcionaram a mais avassaladora delação premiada de toda a operação Lava Jato.
Não deixa de haver nesse episódio uma espécie de justiça providencial.
Utilizados como ferramentas medievais na insana busca de argumentos minimamente aceitáveis para incriminar Lula, Dilma e o PT, prisão preventiva e delações foram exatamente os recursos que acabaram por provar a escandalosa conspiração que depôs uma presidenta honesta e perpetuou uma caçada jurídica e midiática de décadas ao maior líder popular desse país. 
Iniciada desde os primeiros minutos em que Dilma Rousseff foi reeleita em outubro de 2014, o conluio capitaneado pelo projeto de poder derrotado nas urnas utilizou-se de todos os meios, instituições inclusive, para minar e inviabilizar o governo reconduzido pelo povo ao poder.
Munidos com o capital do alto empresariado, do jornalismo de guerra da mídia familiar e da justiça cooptada da primeira instância até a mais alta corte, a nata da corrupção política brasileira enganou descaradamente uma parcela significativa da população buscando a desestabilização do governo.
Nada representa melhor o que significou o golpe de Estado sofrido pelo país do que a aceitação do processo de impeachment ter sido feita por um criminoso como Eduardo Cunha. O mesmo que, agora está provado, confabulava com o vice decorativo e sua quadrilha, a tomada violenta do poder.
Poucos messes após uma das mais vergonhosas sessões já vistas na Câmara dos Deputados, o Senado dava cabo de um projeto vitorioso de inclusão social e redução da desigualdade que perdurou por mais de uma década.
Entrou em cena a mais pavorosa malta já reunida no Palácio do Planalto. A truculência, o machismo, a misoginia, a incompetência e a falta de diálogo foram postos em ação para ruir a soberania brasileira em pagamento dos relevantes serviços prestados pelos grandes interesses internacionais.
Em apenas um ano de governo, o Brasil retrocedeu décadas. Ficamos mais pobres, mais desiguais, mais desempregados. Fatiamos e doamos a Petrobrás a empresas internacionais. Condenamos a educação e a saúde a décadas sem investimentos. Perdemos todo o prestígio internacional que conseguimos a duras penas.
Em resumo, um escândalo num dia, um desastre no outro. Quando não os dois. 
A delação dos donos da JBS vem pôr fim a um dos mais obscuros momentos políticos de nossa história. Restou desmoralizado todo o governo Temer, o Supremo Tribunal Federal que foi incapaz de impedir os atos de Eduardo Cunha e a operação Lava Jato que terá agora que lidar, fatalmente, com aqueles a quem tanto tentou proteger. 
Escrevi em 7 de julho de 2016, pouco antes da votação do impeachment no Senado Federal, um artigo intitulado “O desfecho de Temer será ainda pior do que o de Cunha”. 
Não resta dúvidas que esse medíocre que ora rasteja no lamaçal de imundície que ele próprio criou, entrará para a história do Brasil como o político mais odiado de todos os tempos. 
Que a profecia seja cumprida e que este seja o triste fim de uma canalha.

Caio  Fernandes - Economista com MBA na PUC-Rio, Carlos Fernandes trabalha na direção geral de uma das maiores instituições financeiras da América Latina.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

“ O cala-boca”

A carne e a Unha (Temer e Cunha)
Era sintomático o silêncio de Eduardo Cunha. Principalmente depois que ele ameaçou jogar “farofa” no ventilador. Disse que derrubaria a República. E está cumprindo, calado ou não.
Como bem indagou o jornalista Ricardo Noblat, por que o silêncio de Eduardo Cunha custa tão caro a Temer? Entre os tantos segredos guardados por Cunha e que, se revelados, seriam capazes de derrubar toda a República, há muito que se desvendar.
“Tem que manter isso, viu?” – disse Temer a Joesley Batista, dono do JBS, depois de ouvi-lo contar que pagava mesada a Eduardo Cunha e ao doleiro Lúcio Funaro, presos em Curitiba, para que não abrissem o bico.
Certo dia, quando Cunha ainda presidia a Câmara dos Deputados e Temer era vice-presidente, os dois se reuniram no Palácio do Jaburu com uma alta autoridade do Banco Central.
Depois dos cumprimentos iniciais e de uma troca de comentários desimportantes, Temer saiu da sala deixando a sós Cunha e a tal autoridade. Só voltou quando a conversa dos dois havia terminado. Sobre o que falaram Cunha e a autoridade do Banco Central? A Lava Jato quer saber.
A preocupação de Temer em manter Cunha calado, mesmo que atrás das grades, deixa bem claro que o ex-presidente da Câmara é um arquivo vivo e sabe de muitos fatos escabrosos da política brasileira, que podem transformar a República num verdadeiro colapso. Acredite, pior ainda que os dias atuais…
Autor da reportagem que revelou a existência de gravações feitas pelo empresário Joesley Batista contra o presidente Michel Temer (PMDB) e o senador Aécio Neves (PSDB-MG), a coluna de Lauro Jardim, do Globo, informa nesta quinta-feira (18) que o dono da JBS contou ter pagado propina de R$ 60 milhões ao tucano em 2014.
https://t.dynad.net/pc/?dc=5550003218;ord=1495116611035Os pagamentos, conforme a coluna, foram feitos por meio de notas fiscais frias a diversas empresas. Joesley também contou que comprou o apoio de vários partidos políticos para apoiar a candidatura de Aécio à Presidência da República naquele ano. O senador chegou ao segundo turno, mas acabou derrotado pela presidente Dilma Rousseff (PT), então reeleita.
Aécio e Zezé Perrela
O Supremo Tribunal Federal (STF) vai analisar pedido de prisão do senador e do deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR). Joesley gravou conversa com Aécio em que o tucano lhe pede R$ 2 milhões. O dinheiro foi entregue em quatro parcelas de R$ 500 mil a Frederico Pacheco de Medeiros, primo do senador. Além de Frederico, foram presos nesta manhã Andréa Neves, irmã de Aécio, e Menderson Souza Lima, assessor do senador Zezé Perrella (PSDB-MG).
As residências e os gabinetes de Aécio, Perrella e Rocha Loures foram alvo de mandados de busca e apreensão.
Gravações
De acordo com o jornal O Globo, Rocha Loures foi flagrado recebendo R$ 500 mil de Joesley para tratar de assuntos da JBS. Perrella é pai de Gustavo Perrella, apontado como o dono da empresa que recebeu os recursos destinados a Aécio. Um assessor do senador foi identificado como a pessoa que transportou os valores.
Em negociação para acordo de delação premiada, Joesley e seu irmão Wesley entregaram documentos e gravações à Procuradoria-Geral da República e ao ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato. No encontro, segundo o jornal O Globo, Joesley contou a Temer que estava dando a Eduardo Cunha e ao operador Lúcio Funaro – presos em Curitiba – uma mesada para ficarem calados. Diante da informação, Temer incentivou: “Tem que manter isso, viu?”.
Após a revelação do caso, dois pedidos de impeachment foram apresentados contra Temer na Câmara.  Na presença de Joesley, o presidente indicou o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) para resolver um assunto da J&F (holding que controla a JBS). Em seguida, segundo a reportagem, Rocha Loures foi filmado recebendo uma mala com R$ 500 mil enviados pelo empresário goiano.
(Com informações do site Congresso em Foco.)