quarta-feira, 13 de junho de 2018

A história de São João Batista: A educação no começo


Quem vê São João Batista hoje com uma rede escolar, digamos, suficiente, nem imagina como foi difícil no início, antes da emancipação e nos primeiros anos de ter se tornado município. Tentaremos diante de algumas poucas informações enredar essa história.

Como de todo a educação no Maranhão estava a cargo do Estado como instituição. Reconstruir os passos da educação pública em solo joanino durante o período da primeira metade do século XX e as duas primeiras décadas da segunda metade, anos em que se consolidam nossas homenageadas e será o nosso enfoque, não será tarefa fácil.  Esta atividade torna-se ainda mais desafiadora quando essa reconstrução é elaborada por meio do confronto de esparsas informações e de fontes históricas que, ao serem inquiridas em um contexto específico, retratam de forma (in)certa, ou não, de como esta história foi sendo construída. Além disso, essas fontes demonstram o papel que a educação, ou simplesmente o ensino, foi assumindo em uma cidade onde, a exemplo de outras, a escolarização era considerada um privilégio de poucos.

Assim pensando, se aprender era privilégio para os mais aquinhoados, ensinar também não era para qualquer um, mesmo que para estes poucos lhes coubessem a nobreza, o respeito, e a profunda admiração de seus discípulos. Ao menos isto tinham os nossos nobres mestres e mestras do passado.

O contexto do ensino, nesse período, marcado pela precariedade e altos índices de analfabetismo precisava ser encarado e isso não seria tarefa fácil. A dificuldade de escolas e de professores somava-se à própria dificuldade do distrito de São João Batista. Poucos se aventuravam na arte de ensinar. Na região de Boticário, Pedras e adjacências era notável os ensinamentos do Professor Raimundo Firmo, que apesar das dificuldade de toda ordem, alfabetizava e ensinava toda uma geração a ler e escrever. Notável também o trabalho alfabetizador de Artur Marques Figueiredo, homem culto, de caligrafia estilizada e bela, fundamentais na função de Escrivão por ele desempenhada anos mais tarde. Professora Anita Costa foi outra mestra que marcou as primeiras gerações. Ensinou a ler e escrever a muitos meninos numa escola que ficava nas imediações onde hoje é o Fórum da Justiça. Para tanto, neste tempo, com a devida permissão, a temida “palmatória” era coadjuvante instrumento de trabalho do professor.

Na sede do então distrito sabe-se que a Professora Onezinda Castelo Branco, umas das primeiras normalistas, esposa do comerciante Martinho Castelo Branco, também ensinou a muitos. A escola pública onde ela ensinou ficava onde hoje é o Centro de Convenções, denominada Escola Rural Getulio Vargas, construída por Francisco Figueiredo quando prefeito de São Vicente Férrer.  A figura do professor leigo, ou seja, aquele que apresentava conhecimentos mínimos já era uma realidade naqueles tempos. O que mais valia era aprender a ler e escrever e saber fazer contas.

O incremento maior de normalistas em nossas escolas estaduais só se deu após a emancipação do município em 1958. Vale lembra que a demanda reprimida nas séries do antigo primário era cada vez maior a proporção que se passavam os anos. A rede estadual dispunha de um único estabelecimento denominado Grupo Escolar Clodomir Milett. Anos depois fora construído o Grupo Escolar Estado de Santa Catarina. Neste, brilhou o talento de professoras que foram trazidas para a missão de ensinar além do ler e escrever. Iracema Ferreira de Araújo foi precisa nessa arte e disciplinamento. Muitos que, como eu, iniciaram seus estudos na década de 60 passaram pela mão firme de Dona Iracema.  

Mas era preciso muito mais. Expressões linguísticas, cálculos matemáticos, iniciação de uma Língua Estrangeira. A idealização de um curso ginasial também se fazia necessário. Para tanto uma cooperativa buscou parceria com a Campanha Nacional de Educandários Gratuitos (CNEG), depois denominado de Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC). Assim, por volta de 1965, foi fundado o Ginásio José Maria de Araújo que passou a contar com os préstimos profissionais das normalistas e de professores com formação secundarista, como Zeca de Neco, Matilde Gomes, Antônio Marques Filho e, mais tarde Luis Lílio Saraiva, José Guilherme, Jucelino Lindoso, e tantos outros. Para este início foi também de fundamental importância a gestão precisa e a autoridade dos padres Heitor Piedade e Dante Lasangna.

Nos anos da administração do prefeito Achilles dos Santos Jacinto algumas professoras normalistas chegaram em solo joanino. Em 1964 chegaram as notáveis professoras Carmelita e Maria Creusa, ambas recém-formadas. Depois chegara a professora Lourdes Frazão. Anos mais tarde, a professora Carmelita retornou para sua cidade natal, Caxias, ficando apenas dona Creusa que aqui contraiu matrimônio e continuou a prestar os mais relevantes serviços a toda uma geração. A professora Loudes Frazão também fez de São João Batista sua morada, uma vez que aqui casou com o comerciante Procópio Meireles Filho. Também registre-se a presença de dona Penha, esposa do coletor Dário, que era professora normalista e que fundou à época o primeiro Jardim de Infância; do professor Eliurdes Vieira  e da professora Josefina Martins.

A presença de professoras normalistas vindas de outras localidade se fazia necessária, uma vez que as nossas primeiras normalistas, egressas do nosso ginásio e formadas na Escola Normal de São Luís, só começaram a retornar com a formação em magistério, nos primeiros anos da década de 70. A esta época, o Estado brasileiro implantava muitos projetos que visava uma diminuição dos altos índices de analfabetismo. São desse tempo o Projeto João de Barro, o Mobral, o Curso Madureza, e até as iniciativas da igreja católica com a “Escola Paroquial Pé no Chão”. Em 1971, o governo do Estado implantava um incremento na educação com o chamado “Projeto Taurus” e com ele, o município recebeu outro grupo de normalistas. Desta feita vieram as professoras Jocelene Luz, Ana Maria (Aninha), Maria Frazão, Florita Bitencourt e Maria de Jesus Viana (Dona Viana), que aqui também constituiu família e se tornou cidadã joanina.

O grupo maior de professoras normalistas eminentemente joaninas, aquelas que primeiro concluíram o ginasial na CNEG/CNEC só chegaram por volta de 1974. Era prefeito à época Jorge Figueiredo, Assim chegaram Gracinha Ferreira, Francinete Melônio, Ana Márcia Ferreira, Vilma Figueiredo, Dalva Câmara, Mariana Penha e Silva, Ruth Meireles, Olímpia Penha, Telma Araújo, Edinete Alves, e muitas outras que, em se formando a posteriori e  somadas às que aqui estavam, aos poucos foram contribuindo na educação de muitas gerações.  Já entre as muitas professoras que exerciam a regência de sala de aula na rede municipal, mas sem a habilitação em magistério, através do Programa Logus tornaram-se habilitadas.
Em meio a esse processo, o nosso ginásio evoluiu para Escola Normal Ginasial José Maria de Araújo, e então os nossos e as nossas normalistas passaram a ter essa formação aqui mesmo, em solo joanino.


segunda-feira, 11 de junho de 2018

A história de São João Batista: O velho porto da Raposa


Dando sequência às postagens que faremos toda esta semana sobre São João BatiDando sequência às postagens que faremos toda esta semana sobre São João Batista e sua história, publico hoje uma crônica que integra o nosso livro de crônicas que estamos produzindo e que deverá ser publicado em breve. Ela trata sobre o Porto da Raposa. Um espaço responsável, no viés economia, pela emancipação de São João Batista. Os fatos aqui mencionados são só um recorte das muitas histórias vividas naquele lugar. Nos dias que se seguem haveremos de falar do poder legislativo e das nossas primeiras normalistas entre outros assuntos. Para hoje o texto é: O velho porto da Raposa.


 é: O velho porto da Raposa.
O VELHO PORTO DA RAPOSA


Não sei ao certo quando surgiu o Porto da Raposa. Quando me entendi, ele já existia. Mas só vim conhecê-lo de fato quando vim para a cidade pela primeira vez. Tinha que se passar por ali. Era lá o embarque nas lanchas que nos trazia até a capital.

Encravado às margens de extenso Igarapé que rasga continente adentro, o antigo Porto da Raposa ficava no povoado campestre de mesmo nome, a poucos quilômetros do Golfão Maranhense (Baia de São Marcos) e do estuário do Rio Mearim. De um lado uma extensa cortina verde formada por manguezais, de outro, mais para dentro do continente, extensas áreas de campos e tesos.

Ao longo de muitas décadas foi a única porta de entrada e saída de muitos municípios da baixada, especialmente São João Batista, São Vicente Férrer, Matinha, entre outros. Estamos falando de mais de meio século. Naquele tempo não havia estradas que ligassem estes municípios à Capital do Estado. O porto cumpria assim então a sua primordial finalidade. Era ponto de escoamento de mercadorias que iam e vinham e de embarque de passageiros que se destinavam rumo a São Luís e vice-versa.

Ainda lembro vagamente de algumas particularidades daquele lugar. Eram dois os principais atracadouros, exatamente para duas lanchas que costumavam fazer o transportes de cargas e passageiros. Eram dois pares de extensas passarelas, construídas de achas e mourões de mangue que nos levavam até ou a parte baixa, ou à parte alta da lancha, o convés, onde ficava o timoneiro, ou mestre, e onde ficavam os passageiros.

Às vezes três ou mais lanchas ancoravam por ali.  Todas bem nomeadas. Maria do Rosário. Santa Teresa, esta, pequenina e valente, boa de navegação. A Proteção de São José, que sucumbiu na maior tragédia náutica ocorrida naquela travessia. A Ribamar. A Fátima. A Nova Estrela e a Imperatriz foram as últimas dos tempos auge do transporte marítimo. Nestas últimas fiz a maioria das minhas viagens.

A Raposa era um lugar como muitos outros numa área de campo. As casas de jirau, mostravam que ali em épocas de inverno costumava ser úmido e encharcado. Eram habitações de madeiras, desde o assoalho até as paredes. As cobertas, algumas eram de telhas de barro, outras de pindobas. Naqueles tempos de plena atividade do velho porto, Raposa devia ter umas cinquenta casas. A maioria eram de pessoas que viviam em função do porto. Pequenos comerciantes, estivadores, donos de pequenas embarcações e até mesmo ambulantes que viviam da compra e venda de mercadorias e produtos. Eram todos hospitaleiros. Lembro de Seu Dominguinhos, sempre cortês, atencioso, mas, dizem os que mais o conheciam, de uma astúcia e malícia sem precedentes.

Entre as muitas peripécias atribuídas a Seu Dominguinhos está a de ter dado um pernoite ao Padre Dante que certa vez se deparou numa noite escura e não quisera voltar pra sede. Fora aconselhado a ficar por ali. Após acomodar o Padre em uma rede, contam que Seu Dominguinhos acendeu uma fogueira de pau de siriba, uma espécie de mangue que ao queimar expele uma fumaça ardente aos olhos de qualquer cristão, ainda mais a quem não era acostumado, como o sacerdote italiano. Contam que o Padre passou a noite em claro, rezando para que logo amanhecesse, enquanto Dominguinhos se contorcia de risos. Ao amanhecer os olhos do reverendo pareciam duas bolas de sangue.

As principais casas de comércio e pequenos restaurantes estavam ali em redor do armazém. Um velho prédio de alvenaria que servia como uma espécie de alfândega. Era lá que trabalhavam os fiscais da receita estadual. Ali eram expedidas e pagas as guias de impostos sobre o que era embarcado, fossem cofos de farinha, cofos de banana, cofos de criações, pequenos e grandes animais. Quase nada passava sem as vistas dos coletores de impostos. Nos dias de embarque e desembarque era bastante intenso o movimento de pessoas por ali. Fossem os que viajavam, os que ali trabalhavam, e os que apenas buscavam estar no meio do vai e vem das pessoas. Não faltavam também os donos de bancas de jogo de caipira. Mas era uma alegria só. O povoado era tão movimentado que ganhou até um gerador de luz para garantir a permanência das pessoas que por ali transitavam e trabalhavam até o zarpar das lanchas.

Nos dias que não se tinha esse movimento proporcionado pelas lanchas, o povoado de Raposa mantinha um quotidiano normal. Moradores em suas tarefas diárias preparavam-se para o dia seguinte. O incremento maior do porto fora sem dúvida quando da construção da “barragem da Raposa”. Esta grandiosa obra - tanto pela extensão como na forma de como fora construída, realizada pelo então prefeito Luiz Figueiredo - permitiu um tráfego maior de veículos por mais tempo ao longo do ano.

A partir da abertura da Estrada da Beta, nome que fora dado inicialmente pela população para o ramal São João Batista – Bom Viver, que ligou a sede do município à MA -014, começaram ainda que com muitas dificuldades por conta das condições da estrada, os transportes de cargas e passageiros por via terrestre, fato este que atingiu frontalmente o cerne da economia gerada no Porto de Raposa por conta do transporte marítimo. Os primeiros ônibus a fazerem linha para São João Batista e até mesmo para outros municípios da Baixada foram os da Expresso Florêncio, que inúmeras vezes não completavam o trajeto da viagem.

Hoje, com poucas casas e sem aquele fervilhar de pessoas que faziam dali um marco da economia do município, o Porto da Raposa precisa se redescobrir com um outro propósito. A rodovia nos leva até a capital São Luís, ou a terras além do estado.

Sempre defendi que o antigo e outrora próspero Porto da Raposa deveria absorver em tempos atuais outras finalidades. Ao que parece, por obra e graça do tempo e pela resistência de alguns poucos moradores que ali ainda residem, esta é uma realidade próxima das novas gerações. Por conta de sua aprazibilidade e beleza natural, o velho Porto de Raposa ressurge como uma ponto de lazer rústico.


domingo, 10 de junho de 2018

São João Batista e sua história

Ao longo desta semana São João Batista completará 60 anos.  Como marco desta data iremos publicar postagens que ficarão também na história. Serão textos que falam da nossa história, fatos que marcaram a nossa gente. Estaremos ao mesmo tempo receptivo a outras contribuições. No nosso endereço eletrônico aqui no blog (jb.azevedo@hotmail.com) receberemos as contribuições em forma de textos ou manifestações diversas.
Começaremos a desmontar fatos que muitas vezes são contados ou escritos de forma equivocada. Para tanto procuramos pesquisar em tantas fontes. Conversar com alguns conterrâneos que plenos de lucidez colaboraram com informações preciosas a cerca de nossa história. 


São João Batista: 60 anos ( A verdadeira história)

Neste dia 14 de junho, próxima quinta-feira, a cidade de São João Batista, distante 288 quilômetros da capital, completará 60 anos de emancipação política. Naqueles tempos de política ferrenha, onde os comandantes políticos mandavam e desmandavam, a cidade experimentara, antes de 1958, um curto período de emancipação. Antes em divisão territorial datada de 01/07/1950, o município de São Vicente é constituído de 2 distritos: São Vicente de Férrer e Ibipeuara, este mais tarde São João Batista. Mas em 1952, por força de Lei Estadual, o então distrito de Ibipeuara é elevado à categoria de município com a nova denominação, São João Batista. Neste período esteve como intendente o comerciante José Ribamar Martins. Esta emancipação dura até dezembro de 1954, quando por força do Acórdão do Superior Tribunal Federal, retorna São João Batista à condição de distrito de São Vicente Férrer, com a denominação de Ipipeuara, novamente. Somente pela Lei Estadual de nº 1608 de 14 de junho de 1958, o município é criado em definitivo. Nesse mesmo ano houve eleições municipais, em outubro, elegendo-se como primeiro prefeito, Merval Marques Figueiredo, que tomou posse em 15 de dezembro de 1958.


São João Batista: 60 anos

Nos primeiros anos da vida emancipatória de São João Batista merecem destaque duas personalidades políticas: José Maria de Araújo e Francisco Figueiredo. Estes dominavam a política que se fazia no município de São Vicente Férrer, e depois no município de São João Batista. Ambos, inclusive, chegaram a ser prefeitos de São Vicente Férrer e deputados estaduais. Nesses sessenta anos, o município elegeu 13 prefeitos, mesmo tendo sido governado por 16, por ocasião de cassação temporária ou em definitiva de seus titulares. Atualmente é prefeito o Engenheiro João Cândido Dominice.
Ao longo de toda essa existência, a terra-mãe-gentil, São João Batista, gerou incontáveis inteligências para o estado do Maranhão, para o Brasil e para o mundo. Um plêiade de talentos cunhados em homens e mulheres que espalhados pelo mundo levam a pujança e a força de ser joanino. 

Parabéns a todos os joaninos! 
Parabéns, minha terra querida!


sábado, 2 de junho de 2018

A CRÔNICA DO DIA




HOJE É DIA DE... 


VALDENEZ, O PARCEIRO E CONSELHEIRO DE VADIAGEM

Nonato Reis (*)

Em tempos remotos o Ibacazinho formou uma comunidade genuína pelos laços de sangue. Primos casavam com primas numa espiral de parentesco que varava gerações. Nesse contexto, o coletivo assumia o formato de uma enorme família e mais do que parentes, primos eram como irmãos. Eu, filho único de homem, posso dizer que tive dezenas de irmãos, mesmo que nascidos de pais e mães diferentes, e a todos devoto um carinho especial.
Porém com um deles tive uma convivência maior e as marcas dessa relação carrego até hoje com um misto de cumplicidade e reconhecimento. Valdenez, o Vadico, era filho de Marcos e Mendoca, três anos mais velho do que eu. Foi o meu dileto parceiro de vadiagem e peripécias pelo universo feminino. Éramos como unha e carne. Estávamos sempre juntos em alguma empreitada.
Muito mais experiente com o sexo oposto do que eu, atribuía-se o direito de me dar conselhos e indicar os caminhos que eu devia seguir para conquistar o coração de uma mulher.
Foi ele quem, certa vez, olhando-me com gravidade, corrigiu em mim um grave defeito: “Para com esse negócio de usar palavras melosas, porque isso não cola. Mulher gosta é de homem com atitude. Um pouco cafajeste, mas sem deixar de parecer correto”.
Eu achava que Vadico sabia tudo sobre as mulheres, e isso fazia com que sempre se desse bem em suas incursões. Quando, feliz da vida, dizia-lhe que “ganhara” uma menina, há muito cortejada, ele ria de um modo superior e confidenciava para o meu desencanto: “ah, essa eu já peguei”. Eu só não o mandava à puta que o pariu em respeito a Mendoca, que eu tinha como uma segunda mãe.
Para ele, em assuntos de mulher eu era bobo e inexperiente, no que estava absolutamente certo, e isso o fazia julgar-se no direito de determinar quando e quem eu devia namorar. Ele engatou um flerte com uma bela morena, que apelidou de “Lapiseira Bic” (acho que pelas suas formas longilíneas). Aí cismou que eu tinha que namorar a irmã dela, muito mais bonita. “Vai ser bom, porque a gente faz uma dobradinha, com direito a rodízio”.
Eu ouvia aquelas coisas como se não fosse comigo, interessado que estava em uma de suas irmãs. Era um troço complicado, uma espécie de chove-não-molha, um nó que não atava e nem desatava nunca. Eu não sei por quê, Valdenez não via a relação com bons olhos. Sempre que tocava no assunto com ele, cortava a conversa imediatamente, com um argumento vago: “Cara, esquece minha irmã, ela não é mulher para ti”. Eu insistia: “mas por que, não?” E ele, evasivo: “Por que não, vai por mim”.
Um dia, já cansado daquele samba de uma nota só, decidi agir como homem e selei o namoro com a irmã dele. Não durou uma semana, porque o primo, agindo de forma subreptícia, tratou de “jogar água no chope”. Colocou na minha frente, como isca, uma menina linda, e eu caí feito um peixe. Ele dizia:
- Cara, pega essa garota, que é um colosso; outra igual tu não vai encontrar. Já falei com ela, está tudo certo. É só você chegar e tomar posse do banquete.
Eu argumentava que aquilo não era correto, eu estava comprometido com a irmã dele e queria seguir com o namoro. Ele insistia, como a apaziguar a minha inquietação.
- Fica tranquilo, ela não precisa saber de nada. Vai por mim, mulher não gosta de homem certinho.
Eu fui na dele e quebrei a cara. No dia seguinte, após ‘ficar’ com a garota, a irmã dele já sabia de tudo e me mandou às favas, para o meu desconsolo.
Ele botou na cabeça que eu devia fazer uma incursão pelas casas de luz vermelha da cidade, para ganhar "cancha". 
- Todo homem precisa passar por esse aprendizado entre as coxas de uma puta.
Fomos parar no "Luz da Serra", o maior cabaré de Viana na época, onde ele batia ponto toda semana e tinha a mulher que quisesse. Arranjou-me uma negra, que dizia ser um assombro na cama. Uma noite em claro com ela em um quarto caindo aos pedaços, eu saí de lá mais morto do que vivo.
Fui parar no comércio de Marcos, o pai dele, que quando me viu, ficou espantado.
- Rapaz, o que foi isso? Por onde tu andou?
Respondi que passara a noite com uma mulher, e ele concluiu rápido.
- Na certa tu foste para lá com o bonito lá de casa.
Nem precisei responder. A resposta estava na cara.

Em que pese o vasto leque de conquistas com a mulherada, Valdinez casou ainda jovem e formou uma bela família. Teve três filhos, dois homens e uma mulher, e a maior alegria e prova de amizade ele me deu, quando um certo dia, ao anunciar a concepção do segundo filho, segredou-me ao ouvido. “Te prepara porque esse moleque será teu afilhado”. 
Eu jamais batizei o menino, mas daquele dia em diante seria tratado como “compadre”, além de primo e irmão.
(*) Nonato Reis é Jornalista e Escritor. Natural de Viana, Maranhão.


segunda-feira, 21 de maio de 2018

A CRÔNICA DO DIA


HOJE É DIA DE... 



O rei da mentira

Dizem que passamos a metade da nossa existência mentindo. E que, com muita frequência, a mentira é necessária. Tão antiga quanto a humanidade, ela faz parte da nossa vida. Está presente nos jornais, nos livros da melhor literatura, em documentos de governo, nos discursos de políticos e, dizem, até na Bíblia.

Há um certo tempo uma pesquisa mostrou que os políticos são os maiores mentirosos. Depois, pela ordem, vieram os jornalistas, os comerciantes e os publicitários. Hoje  por certo teria os mesmos resultados. Certamente ao menos o maior percentual incidiria sobre os políticos. Em São João Batista, apesar de se ter muitos políticos mentirosos, tem-se também mentirosos que não são políticos.

Na maioria das vezes, a mentira não passa de uma bobagem. Mesmo assim, o maior teólogo da Igreja Católica, São Tomás de Aquino, deu-se ao trabalho de classificar a mentira em três espécies ou graus: a divertida, a utilitária e a daninha, capaz de causar graves prejuízos.

O nosso personagem se enquadra na primeira das espécies. Aprígio mentia com arte. Mentia de maneira cômica. Quem o via mentindo, morria de ri, enquanto ele contava de maneira séria suas lorotas. Quando o conheci ele beirava uns sessenta anos ou mais. Já era idoso. Mas sagico o bastante para montar num cavalo e ir até a sede de São João fazer suas compras. Ele se aviava no comércio de meu pai, Zé de Félix. Mas por onde passava deixava a sua marca registrada.

Morava pras bandas do Capim-açu. Era conhecido por demais nas redondezas. Constantemente era requisitado para contar das suas. De maneira que poucos sabiam quando ele de fato estava falando algo que não fosse, gabolice, sofismas, mentiras. Dizia ser amigo íntimo de Fidel Castro, ditador de Cuba, e que até o teria sido companheiro de luta na revolução cubana. Desta amizade e gratidão, o presidente cubano vez por outra mandava buscar e deixá-lo de helicóptero só para prosearem nos jardins do palácio do governo em Honduras. Também contava em suas pilhérias que visitava muito a Guatemala. Tinha também relações internacionais com seus governantes.

Aprígio ganhou fama de mentiroso. Mas nunca ligou pra isso. Quem o contrariasse nas suas falações estaria perdendo tempo, pois aquilo era a sua arte.

Contava que certa vez em andanças pela região amazônica, arrumou serviço numa empresa que abria a Transamazônica, a estrada que ligaria a região ao resto do país. Estava ele ali no acampamento em plena floresta na companhia de mais alguns serviçais, quando foram atacados por uma onça pintada grande e muito feroz.

Seus companheiros foram logo abatidos pelo feroz animal enquanto ele, valente, passou a lutar com a onça. Quando a onça já cansada, afastou-se um pouco, Aprigio se pôs a correr desesperadamente até buscar abrigo dentro de um tronco de uma enorme árvore. Entrou por entre a enorme árvore sempre subindo até acomodar-se. Lá recuperou as forças e quando já imaginava estar livre da onça, ouviu um esturro macabro e ameaçador que vinha da entrada da grande fenda do tronco da árvore. Era a onça que subia devagarinho para seu ninho, exatamente no oco da árvore. Segundo ele, Aprígio, respondera com um grito tão grande ao mesmo tempo em que segurou-se com força em algo que lhe parecera uma corda ou ponta de um cipó que rentia sobre sua cabeça. Ao mesmo tempo sentiu seu corpo ser arremessado para cima em direção a uma claridade que se avistava sobre a copa da grande árvore. Como um furação viu seu corpo ser arremessado ao ser puxado por aquilo em que se segurava. Aquilo lhe tirou do oco dá árvore e das garras da velha onça. Caído a léguas de distância, percebera que fora salvo ao se agarrar ao rabo de uma outra onça, provavelmente um filhote da velha pintada. Dizia que após esta aventura, pediu demissão do serviço e voltou pra casa.

Mentirosos desse grau podem desenvolver múltiplas personalidades. O nosso herói parecia ter muitas. De uma outra vez, o vi no comércio de meu pai. Estava com um filete de sangue a sair pelo canto da sua boca. Perguntei o que teria provocado aquilo. Prontamente respondeu: “Estava eu a descer apressadamente de um helicóptero em meu terreiro, após uma das viagens a Cuba, quando tropecei e caí, ferindo a boca”. Era simples assim.

Também é celebre aquela em que se encontrava numa missa pras bandas de Cajapió. Já era umas quatro horas da tarde. No horizonte formou-se um temporal. Escureceu de repente. Um vento forte anunciava que a chuva vinha com força e sem demora. Aprígio fora aconselhado a tirar os arreios do cavalo e que deixasse a chuva passar. Confiante no seu cavalo, rejeitou o convite. Montou-o e partiu ao mesmo tempo em que já se precipitavam os primeiros pingos da chuva. Aprígio disparou num galope para a sua casa que ficava a cerca de uns dez quilômetros do lugar da missa. A chuva com vento forte também corria atrás do cavalo e do cavaleiro. Por fim após desafiar a natureza, o nosso herói chegara em casa e apenas a garupa do cavalo estava molhada. A chuva continuou o seu curso, derrotada pela rapidez do cavalo de Aprígio.

Não há como negar, o mentiroso é um sujeito inteligente. Aprígio deixou nome na história. Hoje, virou até adjetivo com significação de mentiroso. A muitos que costumam inventar coisas, dá-se logo o nome de Aprígio ou Apriginho. Conheço muitos, mas nenhum com a sagacidade narrativa do velho contador de lorotas.

Como se vê, em qualquer caso, a mentira precisa ser bem contada. Ele era único em nosso lugar. Haverá sempre alguém que vai contar uma que ele contava.

De outra vez, inquiri-lo a contar uma rapinha.
- Não posso – respondeu ele.
- Por que? Perguntei meio preocupado com o semblante sério que ele fizera.
- Estou sem tempo. Vim aqui na sede só comprar um hábito para um criancinha que morreu.
Curioso, perguntei de que então teria morrido a tal criança. Ele respondeu-me já em retirada.
- A menina estava num aniversário e foi encher um balão desses de aniversário e o balão espocou causando a morte na criança.
Fiquei pasmo. Vi ali o quanto ele era mestre na arte de mentir.

Hoje Aprígio não está mais entre nós. Deve estar contando das suas em outro plano, mas ficou na história. E isto é uma verdade!

 (*) Crônica que integra o nosso primeiro livro em fase de construção a ser publicado em breve.


domingo, 20 de maio de 2018

Da Coluna de Jersan

João Batista Azevedo (Interino)


O tiro que saiu pela culatra

Quando o PSDB armou a cama de gato para o PT, após as eleições presidenciais em que o derrotado Aécio Neves, inconformado, começou a questionar na justiça a vitória de Dilma Roussef, que se reelegeu para o segundo mandato, certamente não imaginou que quase quatro anos depois seus alcaides também estivessem com as vísceras à mostra. Certamente imaginaram que forçando a barra e se estruturando nas mídias sociais, colocando aos poucos a população contra o ineficiente governo da presidenta Dilma, estivessem pavimentando a derrocada do PT, como em parte aconteceu, mas que sobretudo ressurgiriam como o maior partido do Brasil, e que seus expoentes da vez seriam realmente capaz de colocar o cambaleante Brasil nos trilhos do desenvolvimento. Enganaram-se redondamente. Colocaram tanta pólvora que o tiro saiu pela culatra. O Aécio Neves tão sujo como pau de galinheiro é hoje carta fora do baralho. Alckmin que posava de homem correto, anda atrapalhado com algumas denúncias também de corrupção no seu governo no Estado de São Paulo. O seu nome como o púlpito dos tucanos não ata nem desata, mesmo no estado que foi governador por quatro mandatos. O PSDB não somente errou no que arquitetou como fez ressurgir a figura de Lula, que se fez candidato, mesmo contra as ameaças e a consolidação de sua prisão. Hoje mesmo preso, Luiz Inácio Lula da Silva, contrariando todas as expectativas, continua imbatível nas pesquisas.


Que tiro foi esse?

O golpe engendrado por Aécio Neves e seus culiados tomou outro rumo e fez ser parida a figura estapafúrdia de Jair Bolsonaro. Na esteira de um discurso moralizador, a figura coronelesca de Bolsonaro foi quem ganhou vida diante da guinada à direita dada pelos tucanos.  O blablabá contra o “bolivarianismo”, o financiamento de “movimentos de rua”, “o sentimento anti-PT”, “anti-Lula” só fez crescer a mais bizarras das criaturas políticas do Brasil moderno. O bumerangue lançado por Aécio atingiu-lhe de morte. Fê-lo descer do céu ao inferno em tempo recorde. Por outro lado, para quem gosta desse estilo de político, Bolsonaro parece ser a coisa autêntica. Representa o antipetismo. É a extrema direita que o PSDB tentava esconder no armário. Para isso, claro, teve-se uma boa ajuda da imprensa e sua demonização contra o PT. De certo é que estamos na iminência de mergulhar num fascismo, não fosse o desbanque e a sistemática desconstrução das figuras de Lula e do PT, cuidadosamente orquestrada por parte daqueles que pensaram o poder para si.


Cafeteira: a fibra de um lutador

O ex-senador Epitácio Cafeteira foi desses políticos que os tempos atuais não produz mais. A exemplo de figuras emblemáticas da nossa política, ele foi mais um que deixou muitas histórias. Cafeteira entrou na política como deputado federal, candidato que foi nas eleições de 1962. Não se elegendo. Ficara na suplência. Assumiu ainda na mesma legislatura por ocasião de licença de seus titulares, neste caso específico José Sarney. Nesta condição, Cafeteira cuidou de propor uma emenda constitucional, dando autonomia política a São Luís e outras capitais. Os prefeitos eram nomeados pelo governador. A proposta foi aprovada e ele já terminou a interinidade na Câmara como candidato a prefeito sob o lema “Prometeu e Cumpriu”, que virou marca de sua gestão na capital.


Cafeteira, o político (I)

Eleito com esmagadora votação, Cafeteira, que assumira papel de opositor e que tinha um discurso hilário e ferino, tratou de impor sua marca. Construiu inúmeros postos de saúde e costumava andar em suas obras e repartições. Ficou célebre também a distribuição de brinquedos pelo Natal para as crianças nos bairros. Sempre simpático Cafeteira caiu no gosto do eleitor da capital e reinou imbatível sempre com esmagadora votação nas eleições a que concorreu. Como Governador, reaproximado desta feita com o então presidente José Sarney, Cafeteira fora eleito com cerca de 80 por cento da votação. Assim que assumiu o cargo de governador do Maranhão, em 1987, Epitácio Cafeteira encontrou um estado falido, devendo o funcionalismo público, fornecedores e prestadores de serviços. Cafeteira chamou inicialmente para a mesa as folhas em atraso e descobriu que a pior situação era dos funcionários lotados no interior. Com a ajuda do governo federal ajustou as finanças do estado, regularizou o calendário de pagamentos dentro do mês e com aumentos reais, progressões e vários outros benefícios. Nesta trajetória também lhe coube os mandatos de deputado federal nas eleições de 1974, 1978 e 1982. Foi senador de 1991 a 199, e de 2007 a 2015.


Cafeteira, o político (II)

O político carismático que arrastava multidões também teve seus momentos inglórios. Quando prefeito logo no início do mandato Cafeteira proibiu a realização de baile de máscaras, o que causou um alvoroço na cidade. Segundo o historiador Nascimento Moraes, muitas damas da alta sociedade   valiam-se   do anonimato e aproveitavam para tirar a desforra e cair na gandaia. Os bailes eram tradicionais e muitos não gostaram, sobretudo os frequentadores da “Gruta de Satã”, do “Bigorrilho”, e do “Berimbau”. A justificativa de moralidade do Cafeteria causou mesmo uma revolta dentre os carnavalescos. Segundo diziam, a proibição do uso de máscaras era para facilitar a identificação de subversivos pelas autoridades policiais. Este fato lhe rendeu sérias dores de cabeça inclusive no trato com a câmara de vereadores que instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar eventuais “irregularidades” em sua administração. Rendeu-lhe também o apelido de “Cafeteira da família dos bules”, dado pelo cronista Stanislaw Ponte Preta que o citou no livro Fepeapá (O Festival de besteiras que assola o país).
Como governador Cafeteira também foi acusado de enterrar 60 milhões numa obra mal entendida até hoje: o aterro do Bacanga.
Para alguns, Cafeteira foi “um déspota esclarecido dos tempos modernos”. Concentrador. “Reluzia o seu incontrolável estrelismo pessoal”, disse Buzar em um dos seus artigos. Em suas gestões nada saia do seu controle. Esse era o jeito sui generis de ser Cafeteira.

Em viagem

Estaremos a substituir o titular desta coluna, o amigo Jersan Araújo, no tempo em que ele estiver ausente de São Luis. O ilustre jornalista estará em breve “tour” pelos Estados Unidos. De volta ao Brasil, também passará alguns dias em sua aprazível Olinda dos Aranhas, em São João Batista. Boas férias, companheiro!

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Cafeteira, uma lenda da política


(*) Ribamar Corrêa

Uma foto divulgada na internet reacendeu o interesse pelo lendário ex-deputado federal, ex-prefeito de São Luís, ex-governador do Maranhão e ex-senador Epitácio Cafeteira, já entronizado na galeria dos mais ativos e mais importantes políticos do Maranhão nos últimos 60 anos, visto por muitos como o grande adversário do ex-presidente José Sarney. A foto mostra Cafeteira no que parece ser um leito hospitalar, sorrindo, tendo ao lado as duas pessoas mais importantes da sua vida: a esposa Isabel Cafeteira e a filha Janaína. O ar de descontração num ambiente tão formal causa a impressão de que, apesar dos problemas de saúde que vem enfrentando na última década seu estado de ânimo continua como sempre, muito elevado e dominando a postura de cidadão, chefe de família e de líder político vitorioso, apesar de alguns tropeços eleitorais.
O agora político aposentado Epitácio Cafeteira Afonso Pereira é uma figura ímpar, não apenas pelo seu desempenho político, mas principalmente pelas adversidades que teve de superar para construir uma carreira incomparável no cenário político do Maranhão, na maior parte do tempo em confronto aberto com José Sarney. Orador ferino com uma incrível capacidade de se comunicar com  a massa, foi suplente de deputado federal em 1962, conseguiu assumir a vaga e, de pronto, apresentou emenda à Constituição Federal restabelecendo a eleição para prefeito de capital, que na época era nomeado pelo governador. Fez uma campanha tão intensa dentro do Congresso Nacional que sua proposta foi aprovada por larga maioria. Essa vitória o colocou no centro da disputa para a Prefeitura de São Luís em 1965 e da qual saiu com uma vitória acachapante sobre o ex-prefeito Ivar Saldanha, apoiado pelo então governador Newton Bello.
O Maranhão vivia uma onda de euforia com a eleição do jovem governador José Sarney. Mas as idiossincrasias da política acabaram por colocar o prefeito de São Luís e o governador do Estado em situação de confronto. Com forte apoio popular e pesando bem cada movimento, Cafeteira se manteve de pé no embate com o governador. A briga chegou a tal ponto que Sarney teria sugerido aos militares a cassação de Cafeteira, que passou um período de duas semanas dentro do Palácio de la  Ravardière disposto a só entregar o cargo num conflito armado. Não aconteceu nem uma coisa nem outra e o prefeito saiu da guerra politicamente mais forte do que entrou.
A oportunidade de dar o troco em José Sarney (Arena) veio na eleição de 1970 para o Senado. Cafeteira (MDB) se candidatou exatamente para disputar a vaga com o ex-governador. A derrota para o Senado foi um golpe duro, que o deixou sem mandato por quatro anos. A reabilitação veio em 1974, 1978 e 1982, três eleições seguidas para deputado federal e com votação crescente a cada pleito.
O grande “pulo do gato” se deu em 1984, quando Sarney, rompido com o regime militar, criou a Frente Liberal e se aliou ao MDB em torno da candidatura de Tancredo Neves a presidente da República. A cúpula do movimento quis Sarney como candidato a vice, mas para isso ele precisava do aval do comando do PMDB no Maranhão. Hábil, Cafeteira não deixou que o então deputado federal Cid Carvalho e o futuro ministro Renato Archer, que junto com ele formavam a trindade pemedebista maranhense, criassem problema e antecipou seu apoio à filiação de Sarney ao PMDB maranhense, saindo do episódio com o compromisso de que, se Tancredo e Sarney fossem eleitos, os dois dariam apoio incondicional à sua candidatura do Governo do Estado. Tudo aconteceu como ele imaginou. Sua candidatura a governador uniu a sua forte liderança pessoal e o prestígio de Sarney no embalo do Plano Cruzado. A campanha o transformou num fenômeno eleitoral, pois pela primeira vez um candidato a governador no Maranhão bateu o patamar de 1 milhão de votos, o que representou quase 80% da votação, deixando o seu adversário, o então senador João castelo, com apenas 20%.
Cafeteira e Sarney conviveram harmonicamente até o último dia do mandato presidencial, tanto que fez questão de descer a rampa do Palácio do Planalto junto com Sarney em meio a vaias e aplausos. As divergências e o novo rompimento vieram com as eleições de 1990, sob a presidência de Fernando Collor, com quem Cafeteira flertou no primeiro momento. Sarney queria ser candidato a senador pelo PMDB do Maranhão. Cafeteira também, e se juntou a Renato Archer e Cid Carvalho, que o apoiaram. Sarney, que previra a reviravolta, usou o Plano B montado no Amapá. Os dois foram eleitos e se mantiveram em campos opostos.  Nos anos 90, Cafeteira amargou duas derrotas eleitorais, ambas para Roseana Sarney. A primeira em 1994, quando os dois foram para o segundo turno e ela o venceu por uma diferença de apenas 18 mil votos, o que ensejou uma briga judicial que não mudou o cenário. A segunda em 1998, quando Roseana Sarney se reelegeu no primeiro turno. Sofreu outra derrota em 2002, quando disputou vaga de senador com João Alberto.
As derrotas seguidas deixaram a impressão de que o caminho do político genial seria a aposentadoria. Ledo engano. Em 2006, surge uma nova aliança com Sarney, que o convidou para ser candidato a senador porque no seu grupo não tinha nome com força para enfrentar João Castelo, este aliado a Jackson Lago. Resultado: Jackson venceu a eleição para governador, mas Cafeteira derrotou Castelo, numa reviravolta espetacular. Cumpriu seu mandato enfrentando sérios problemas de saúde, entre eles um derrame que lhe tirou os movimentos das pernas e o obrigou a usar cadeira de rodas. Mesmo assim, participou da maioria das sessões do seu mandato de oito anos, sendo apontado como um dos senadores mais regulares daquela legislatura.
Político solitário, que sempre confiou mais na sua relação direta com o eleitorado por atos e gestos que muitos identificam como populistas, Epitácio Cafeteira deixou marcas fortes por onde passou como detentor de mandato. Na Prefeitura de São Luís, cuidou de atender a demandas da população mais pobre, o que reforçou a visão quase messiânica de largas faixas do eleitorado. Mas também tomou decisões polêmicas que ensejam críticas até hoje: suspendeu os bailes de máscara durante o Carnaval, uma tradição de São Luís e retirou os últimos bondes que circulavam, na Capital.
Como governador, Cafeteira realizou uma obra, que se não foi grandiosa, também não sofre críticas. Uma das mais importantes foi o Projeto Reviver, no qual foi realizada a grande base que, anos mais tarde, garantiria o título de Cidade Patrimônio Cultural da Humanidade. O governo Cafeteira foi movido por um claro senso de Justiça, pois nele as pessoas mais pobres se sentiram mais seguras, exercitando a cidadania. Para citar apenas um exemplo: como governador ele não permitiu que a Polícia Militar fosse usada para garantir o cumprimento de reintegração de posse em áreas de propriedade duvidosa.
Cafeteira também enfrentou denúncias e acusações, que tentaram colocá-lo no banco dos políticos de trajetória rasurada. Uma reportagem publicada pela revista Isto É em 1990 relatou uma situação que, se verdadeira, ligaria o então ex-governador e candidato a senador a um esquema de corrupção. Cafeteira reagiu com indignação, respondeu politicamente em tom agressivo e, para muitos, demonstrou que estava sendo vítima de uma armação. Enfrentou também o nebuloso Caso Reis Pacheco, que foi acusado de ter mandado dar fim a um funcionário da Vale que num acidente automobilístico matou o seu sogro e grande amigo, vereador Hilton Rodrigues. Localizado no interior do Pará, Reis Pacheco está vivo até hoje e afirma categoricamente que não foi vítima de uma tentativa de assassinato. Também do Caso Reis Pacheco Cafeteira saiu ileso, mantendo intacta sua história pessoal e política.
Além da família, Cafeteira tinha uma paixão: o xadrez, que joga com um grupo fechado de amigos. Seu fascínio por esse jogo é tão forte que ele em alguns momentos bancou, do próprio bolso, temporadas de Mequinho, um dos maiores enxadristas de todos os tempos, no exterior. Era também um homem  de gosto refinado, gostava de roupas bem talhadas, tinha sempre um pente ao alcance da mão e jamais relaxava o nó da gravata. Gostava também de carros de marcas europeias, como a alemã Mercedes. Nunca, porém, foi visto em atitude esnobe.
É esse Cafeteira que saiu da cena política e agora vislumbrava outra conquista: driblar os problemas de saúde para completar um século de vida. Não conseguiu, porém. Morreu aos 93 anos. Sua luta traduziu o clássico refrão da sua música de campanha para governador: “Cafeteira tem a fibra de um lutador. Cafeteira é povo unido, meu governador”.
 (*) Ribamar Corrêa é jornalista e editor do Blog Repórter Tempo. Este texto foi publicado em 06 de Junho de 2015. Republicamos hoje com adaptações.


sábado, 12 de maio de 2018

Carta para minha Dona


Hoje tive coragem para escrever algo sobre você minha mãe, e mais do que isso, escrever para você. E o faço com o coração apertado, os olhos marejantes e inundados num pranto que derrama pra dentro de mim. Mas também estou alegre, pois vi na tua partida, minha mãe, como era uma esposa honrada e justa para com o seu José, meu pai. Aquele 30 de agosto de 2014 nunca mais será esquecido por nenhum de nós teus filhos, familiares, amigos e demais pessoas que os conheceram. Afinal estava ali a partida de vocês. A prova do amor que ultrapassou a própria vida terrena e continuou nas dimensões celestiais. Pois estava escrito nas estrelas...

Vê-la ali naquele leito de UTI, entregue aos cuidados dos médicos, cortava-nos o coração. E já se passavam alguns dias e a sua reação era lenta. Como se a senhora quisesse esperar o desfecho da também cruciante situação de nosso pai, o nosso José, seu esposo. Logo a senhora, sempre atenta à presença de todos que estivessem em sua volta, estava ali aqueles dias num coma calmo, como se dormisse um sono merecido após um dia de muita lida, como nos velhos tempos na nossa velha casa do interior.

Naqueles dias de sucessivas dores, estavas ali separada de nosso pai, por força das circunstâncias, e ele, também naquela UTI, por certo reclamava a dor desta separação momentânea. Escondemos o quanto foi possível a dor de cada um. Mas por certo, o espírito que os unia, com certeza os mantiveram informados de tudo, sem que nós, meros mortais, soubéssemos dos desígnios de Deus.

E assim se fez o mistério da vida e da fé. E o que pra nós fora dor e imensa saudade, para a vida e para os céus fora a prova de que o amor existe e ele é sublime. Nosso pai, chamado às 0ito horas da manhã, certamente não quisera partir sozinho. Teria sido assim? Ou fora avisada pelos anjos e assim também quiseste acompanhar o seu José? O que por certo aconteceu nunca saberemos, mas foi a inconteste prova de uma amor que sobreviverá além desta vida, após à morte.

A dor foi muito grande, imensurável. Não me via perdendo nenhum de vocês, nem a meu pai, nem a senhora. Mas perder os dois assim no mesmo dia, era inacreditável. Mas fora assim a escolha de Deus...

Hoje minha mãe, te escrevo estas palavras para te homenagear neste dia. Para te confortar e te dizer que por aqui, as coisas vão indo como Deus quer. A dor de perdê-los nunca passou e não passará, mas nos refizemos na fé em Deus e na certeza de que tudo fora feito como assim estava determinado, com uma pitada de magia e encanto. Nós, os teus filhos, mantivemos o compromisso de estarmos unidos na fé, e na esperança. E estamos levando a vida, sempre pautados nos ensinamentos que vocês nos deram: o respeito, a honradez, a gratidão e a humildade.

Sabe mãe, tenho muitas outras pra te contar, mas falaremos em oração. Sei também, que como sempre foste bondosa, cuidadosa, estás a cuidar do nosso pai. Não se preocupem em demasia, mas cuidem daí dos nossos destinos aqui na terra. E que a senhora e o nosso pai tenham a luz eterna.

Um grande beijo, minha mãe.
                                                                       Teu filho
                                                                                              João.