quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

CARTA ABERTA A DAMARES ALVES, EXCELENTÍSSIMA MINISTRA DA MULHER, FAMÍLIA E DIREITOS HUMANOS

Márcia Friggi
Senhora Ministra, ontem eu também fiz brincadeiras em decorrência do seu polêmico vídeo. Brincadeiras e deboches também são formas de resistência. Sua postura e suas falas, entretanto, exigem uma análise séria e demandam respostas.

        Há tempo observo seus vídeos que circulam na Internet e, como professora, sinto-me profundamente ofendida e humilhada. Venho percebendo seu empenho em colocar a sociedade contra a educação brasileira e seu magistério. Para ilustrar o que afirmo, além dos links de dois vídeos que seguem abaixo deste texto, vou citar algumas das suas afirmações que me têm deixado triste e profundamente revoltada. Sobre o famoso “Kit Gay”, Senhora Ministra, que jamais existiu e a senhora sabe disso, tratava-se na verdade, do “Projeto escola sem homofobia”, que seria voltado para os professores, não para os alunos. Nesse projeto, sequer havia o livro “Aparelho sexual e Cia”. Projeto esse que foi vetado pelo governo federal em 2011, devido ao fato de ter sido alvo de críticas dos setores conservadores, os quais a senhora faz parte. Aproveito para alertar que muitas das escolas brasileiras, sequer possuem biblioteca, a minha é uma delas. O que temos, no momento, é uma Kombi doada pela comunidade escolar e transformada em biblioteca através de um projeto meu.

        Frequentemente a senhora usa suas falas, nos púlpitos das suas igrejas, para denegrir o trabalho dos professores e para nos colocar como responsáveis pelos problemas de uma geração, inclusive nos ataca como agentes de “perversão” e “doutrinação”.

        Em um dos seus vídeos, a senhora menciona um material que supostamente faria apologia ao sexo com animais. Senhora Ministra, talvez a senhora não conheça muito bem a regulamentação do exercício do magistério. Nós, professores, somos fiscalizados pelos nossos superiores: coordenação, direção e secretarias de educação. Os materiais que utilizamos, os livros escolhidos e até mesmo as nossas provas, são analisadas e aprovadas pelas instâncias superiores antes que cheguem aos os alunos.     

        Nesses vídeos a senhora também se refere a um “suposto projeto” de 2004 e com tom irônico, a senhora fala: “Não posso falar o nome da prefeita, não posso falar que ela é do PT e também não posso falar que foi esposa do Suplicy, mas juntamente com o grupo GTPOS, ela gastou mais de dois milhões de reais num programa”. Programa esse, ao qual a senhora afirma ter sido atribuída a função de promover, nas creches, o incentivo a ereção e masturbação de bebês de sete meses. Com essa sua fala, a senhora coloca os pedagogos e pedagogas que trabalham com a educação infantil na condição de criminosos, mais do que isso, na condição de doentes pervertidos. Meus colegas pedagogos, senhora ministra, que tão atenciosamente cuidam das nossas crianças e neste momento abro um parêntese para lembrar a heroica professora Helley Abreu Batista que morreu, com 90% do corpo queimado, após retirar seus alunos de um salão em chamas e de lutar contra o vigilante que ateou fogo à creche, em Janaúba, norte de Minas Gerais, em 2017. Meus colegas pedagogos, senhora ministra, jamais cometeriam esse crime, nem mesmo sob tortura. 

          A senhora, nos seus ataques, sempre focou a educação e o magistério brasileiro, esse foco não é inocente, é estratégico. Desmoralizar, humilhar, deslegitimar e demonizar os professores, colocar a sociedade contra nós e contra a educação, só nos enfraquece ainda mais. Como se já não bastassem nossos baixos salários, a falta de condições estruturais, a ausência e a falta de incentivo a bons cursos de formação continuada. Como se já não bastasse o desrespeito e a violência com que somos tratados em nossos atos de protesto, paralização e greve, enquanto políticos protegidos e aquartelados, debocham das humilhações das quais somos vítimas. Ao nos enfraquecer, a senhora enfraquece a educação e isso lhe é extremamente útil e providencial. Um povo sem acesso à educação de qualidade é muito mais fácil de “doutrinar”, de transformar em “ovelhas”, em “inocentes úteis” e nós sabemos muito bem onde, verdadeiramente, vem ocorrendo a “doutrinação” no Brasil e sob que circunstâncias e métodos.

        Vou falar brevemente, Senhora Ministra, sobre o que fazem os professores para muito além das suas atribuições. Somos nós que, na maioria das vezes, descobrimos quando um aluno possui deficiência visual, porque na sala de aula temos parâmetros de comparação. O aluno está sentado na mesma distância do quadro em que estão seus colegas, mas franze a testa, comprime os olhos. Somos nós que chamamos os pais e alertamos.

         Muitas vezes, Senhora Ministra, somos nós que percebemos um problema mais grave. Nossos olhos treinados e experientes conseguem detectar o aluno ou aluna que se isola, nega-se a realizar trabalho em grupo, não participa do recreio, tende a ficar no mesmo lugar e realizar movimentos repetitivos com o corpo. Somos nós que alertamos os pais e depois da avaliação médica, enquanto a família vive o luto de um diagnóstico de autismo, por exemplo, nós professores seguimos trabalhando métodos e estratégias para incluir esse aluno da melhor forma possível.

         Somos nós, Senhora Ministra, que muitas vezes percebemos a automutilação em alguns alunos e ela não se deve ao nosso trabalho de “doutrinação” como a senhora tenta afirmar, ao dizer que confundimos nossas crianças com a “ideologia de gênero”. Os adolescentes que chegaram até mim com automutilação, viviam um cotidiano familiar desestruturado. Desestruturado no seio da “família tradicional” que a senhora tanto defende. O que a senhora propaga e demoniza como sendo “ideologia de gênero”, na realidade do chão da sala de aula, Senhora Ministra, é a exigência do respeito, é o cuidado para com todos os alunos, é a luta contra o bullyng que pode destruir emocionalmente um aluno e até levá-lo ao suicídio, é a educação contra a cultura do estupro e do machismo. Nós enfrentamos salas de aulas superlotadas, lidamos com as particularidades de cada aluno e incentivamos o respeito para com todos, sem o qual, não seria possível ministrar uma aula.

       
Somos nós, Senhora Ministra, que percebemos pela postura corporal, pelo silêncio, pelo olhar triste de quem suplica por socorro, quando uma criança ou adolescente é vítima de violência sexual, violência essa, normalmente sofrida no seio da “família tradicional”. Somos nós, Senhora Ministra, que conversamos com essa criança, que ouvimos o relato do seu sofrimento, que tomamos as providências, que chamamos o conselho tutelar e somos nós que acompanharemos essa criança ou adolescente com atenção e cuidado redobrados.

        Finalmente, Senhora Ministra, são inúmeras as nossas atribuições, as quais nos entregamos com amor e seriedade, respeito para com nosso diploma, para com nosso juramento e para com a instrução conquistada através da disciplina, do estudo e da leitura que, certamente, não foi adquirida no espaço do whatsapp.

        Somos nós, professores, que olhamos, cuidamos, educamos, instruímos e ensinamos as crianças e jovens deste país. Somos nós que protegemos essas crianças e jovens quando a família falha e quando o Estado falha.

        Esta minha carta aberta tem dois objetivos: pedir-lhe mais respeito para com a classe do magistério. Venho também, oferecer-lhe um conselho, desça dos seus delírios fakes, Senhora Ministra, pise no chão e encare a realidade. Porte-se com a seriedade que a importância do seu cargo exige. Deixe assuntos fúteis como cor de roupa adequada para seus colóquios no púlpito da igreja, No exercício da sua atual função como ministra, olhe para o magistério brasileiro com olhos da verdade. Olhe pelos quase seis milhões de crianças sem o nome do pai nos seu registro. Encare a quinta maior taxa de feminicídio no mundo e que vem aumentando assustadoramente, alimentada pela cultura do machismo e da violência. Olhe para os milhões de mulheres que, longe da família tradicional, criam seus filhos sozinhas e com dignidade. Olhe para as crianças e jovens que estão nas ruas, Senhora Ministra. Lembre-se que essas crianças não se perdem na rua, foram perdidas dentro de casa, no seio das famílias tradicionais ou não e negligenciadas pelo Estado, as ruas apenas as adotam. Olhe para os LGBTs e às violências que têm sido vítimas. O Brasil é o país quem mais mata LGBTs no mundo e temos visto esse número aumentar, incentivado pela cultura da intolerância.

        A senhora deve estar se perguntando: “Quem é essa professorinha petulante que me escreve essa carta aberta?” Vou facilitar para a senhora, vou me apresentar. Sou Marcia Friggi, poeta e professora de Língua Portuguesa e Literatura do Estado de Santa Catarina. Exerço meu cargo após ter sido aprovada em concurso público, submetida a rigorosos exames médicos periciais, além de ter passado pelos três anos de estágio probatório. Sou aquela professora que foi violentamente agredida por um aluno em 2017, caso que teve repercussão nacional e internacional. Sou a professora que, após violência física, sofreu linchamento virtual por parte dos que comungam das suas ideias. A professora que teve sua imagem com o rosto ensanguentado, usada sem autorização, pelos mesmos que me atacaram virtualmente, para promover a campanha política eleitoral do seu candidato.

         Naquele período, visitei o inferno e sobrevivi. Sobrevivi à depressão, à fobia social, a crises de ansiedade, à insônia e à vontade de morrer. A tudo isso, talvez se deva a minha ausência de medo. Eu não tenho medo porque sou uma sobrevivente, porque na minha casa não há uma agulha sequer que não tenha sido comprada com o suor do trabalho honesto. Não tenho medo porque não ocupo e nunca ocupei cargo comissionado. Não tenho medo porque nunca dependi de favores políticos. Não tenho medo porque pelas minhas mãos jamais passou dinheiro público. Finalmente, Senhora Ministra, não tenho medo porque se ao seu lado está o governo atual e suas “ovelhas”, do meu está o mundo. Do meu lado está um mundo inteiro que não aceita mais retrocesso. Um mundo que deseja respeito para com todas as pessoas. Um mundo que não aceita mais discriminação, intolerância, preconceito, machismo, homofobia, xenofobia. Um mundo que deseja que uma mulher possa terminar uma relacionamento sem ser agredida ou morta. Um mundo que respeita a vida e a natureza. Um mundo que se pretende mais humano, justo e igualitário. Não tenho medo, Senhora Ministra, porque minha militância pelas causas que considero justas sempre foram exercidas nas ruas e no espaço virtual, nunca na sala de aula. Não tenho medo, Senhora Ministra, porque sou adepta da paz e minha única arma é a palavra e é dela que venho me utilizando como um instrumento de amor à vida, à liberdade, à arte e à resistência. Já participei de algumas coletâneas como escritora, minha última participação foi no “Mulherio das Letras”, o que muito me honra. Neste ano de 2019, lançarei meu primeiro livro de poesia, no qual estão muitos dos meus poemas de cunho social e resistência. Está também, entre meus projetos mais importantes, o livro sobre “denúncia dos flagelos que sofre o magistério brasileiro”, o qual percebo de suma importância, considerando os constantes ataques e humilhações a que somos submetidos.
Ainda nos veremos, Senhora Ministra, nas batalhas pacíficas da vida, das quais eu jamais fugi.

Marcia Friggi
Poeta e professora de Língua Portuguesa e Literatura do Estado de Santa Catarina

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

A CRÔNICA DO DIA


O DIA EM QUE O MARANHÃO ENCHEU AS MALAS DE DÓLARES


Por Nonato Reis

Nonato Reis
A arte de contar histórias se perde no tempo. É provável que tenha surgido com os sumérios, a primeira civilização de que se tem registro, isso há cerca de 5.000 anos antes de Cristo, ou até a uma época mais recuada no tempo, quando, segundo a Bíblia, os anjos do Senhor habitavam a Terra. Como não dava para imprimir a palavra e os meios então disponíveis eram precários e pouco acessíveis, o jeito foi transmitir oralmente as experiências acumuladas. Assim, de geração em geração, os relatos vividos chegaram aos dias atuais, muitos deles no formato de causos.

E o que seriam causos? Na definição mais inteligíveis, histórias contadas de forma simples e direta, porém com leveza e senso de humor. Os causos podem ser inventados ou não e, independente da veracidade, o que conta mesmo é a versatilidade com que são narrados.
No Brasil, os mineiros ganharam a fama de exímios contadores de histórias, mas em todas as regiões do País o gênero se disseminou e contagiou gênios da Literatura, como o poeta Mário Quintana, gaúcho, e Graciliano Ramos, alagoano, que publicou uma obra memorável, “Histórias de Alexandre”, livro protagonizado por um vaqueiro contador de causos.
No Maranhão, esses artistas da palavra vicejam aos magotes, especialmente no meio rural, e sobre eles escrevi uma crônica, reunindo os mais destacados com quem tive o privilégio de conviver. 
Um deles, um tio-avô meu, de nome Levi, que reunia plateias para ouvir suas histórias, quase sempre envolvendo espíritos e pescadores. Também o Zé Branquinho, que gostava de se exibir nos velórios, atraindo para si a atenção de um público marcado pela dor da partida do ente querido. Cumpria assim o papel importante de desanuviar o clima de opressão que marcam as cerimônias fúnebres.
Domingos Dutra
De Domingos Dutra ouvi uma história engraçada, mesmo que difícil de acreditar. Era o início dos anos 90, Edison Lobão vencera as eleições para o Governo do Maranhão, numa eleição aguerrida com o senador João Castelo. Governador, deu de cara com os cofres vazios. O dinheiro mal dava para pagar as obrigações legais. Como fazer os investimentos que se faziam inadiáveis, para garantir a retomada do desenvolvimento?
Lobão correu a Sarney, seu mentor político, e ambos tiveram uma ideia mirabolante. Articular uma grande reunião com chefes europeus e tentar convencê-los a investir num Estado que, mesmo falido, tinha enorme potencial estratégico. Lobão imaginava sensibilizar os governantes usando a figura emblemática de Sarney que, mesmo com enorme rejeição interna, pela gestão desastrosa no exercício da Presidência, gozava de prestígio internacional, onde era visto como estadista e homem de letras, responsável por conduzir o País de volta ao regime democrático.
A reunião teve lugar no parlamento francês, em Paris, e foi marcada pelo sentimento de comoção, em face do quadro dramático do Maranhão, que ostentava a condição de unidade mais pobre da federação, berço da fome e do analfabetismo. A França, como colonizadora do Estado e fundadora da única capital brasileira não lusa, tomara a iniciativa de liderar uma ajuda emergencial ao Estado, em dinheiro vivo, por meio de doações. 
Diante de um plenário lotado, que aguardava com ansiedade a chegada do governador maranhense, uma enorme sacola corria de mão em mão entre os chefes de Estado, para que depositassem nela somas em dólares, a moeda forte da época.
Passou-se meia hora, a sacola abarrotada de dinheiro sobre a mesa solene, e nada de Lobão. Mais outra meia hora, todos já à beira de um ataque de nervos, sem saber o que acontecera com o mandatário maranhense, e eis que adentra o recinto aquela figura esquálida, “um caniço em forma de gente, vestido de paletó e gravata”. 
Foi um espanto geral! O governador do Estado era a própria imagem da desnutrição que assolava o Estado. Alguns chefes de Estado, tocados de emoção, não conseguiam conter as lágrimas. Aquilo constituía uma hecatombe.
Lobão, então, ao perceber o clima de solidariedade da plateia, caminhou, passos trôpegos, até a tribuna, situada do lado esquerdo da mesa, sacou uma fotografia do bolso do paletó e a exibiu diante daquele amontoado de câmeras e flash apontados sobre ele. 
Pegou o microfone e anunciou: “Minha gente, este é o homem que me faz oposição no Maranhão”. Então irrompeu nos telões a imagem longilínea do deputado Domingos Dutra que, de tão magro, parecia o faquir das Américas.
De dor, o plenário veio abaixo. A situação do Maranhão era devastadora, e uma única sacola de dinheiro mal daria para abastecer por uns tempos a mesa dos políticos famintos. Faltava contemplar o povo, resgatar o distante berço irmão da ignomínia. E assim, sob as ordens do governo francês, deu-se início ao ritual de malas gigantes, que entravam vazias e saiam do plenário abastecidas de dólares.
...
Integra o livro de contos e crônicas "Domingos Dutra, o homem que desafiou o Futi", previsto para 2019.


domingo, 30 de dezembro de 2018

O Passar dos Anos


Por José Sarney

É difícil fugir a um tema quando ele se impõe avassalador. Pensei em escrever sobre flores ou sobre Trump e seu labirinto. Logo 2019 chegou à minha frente e não tive como afastá-lo.

Meu pai teve um vaqueiro, Ludgero, que contava os anos pelos bezerros: 1948, 50 bezerros, e assim por diante — era como listava todos. Outra amiga nossa, dona Anicota, que tinha uma questão sobre umas terras do Engenho da Anta que durara mais de 20 anos, já falava deles pelos eventos do processo: 1953, “ano em que saiu a sentença que deu ganho de causa a meu irmão, mas em 1954 teve o acórdão do tribunal que botou abaixo tudo”.

A marcação dos anos foi uma invenção do homem. O Padre Vieira, com esse sentimento, não via o ano, mas os anos, e pregava desejando “bons anos“, não só o vindouro, mas todos. Para mim, a cada ano saúdo o Ano Novo, mas minha gratidão se volta para o Ano Velho. Quando transpomos a marca do tempo, recordo que, nos 365 dias que vivemos, nosso coração a cada dia bombeou 343 litros de sangue por hora, 8.000 litros por dia e 3 milhões no ano, para oxigenar os 10 trilhões de células do nosso corpo, no milagre da vida, na harmonia dessa máquina que nos distingue dos outros animais pelo pensar. É a graça da vida, que Deus nos deu. Ela alimenta o nosso sonho de sonhar, os sentimentos do amor, da fraternidade, da paixão, da solidariedade humana. Todos os que vivemos e estamos aqui na Terra podemos louvar o ano que passou e renovar esperanças sobre o que vem, porque somos vitoriosos.

Na evolução, somos produto de uma linhagem em que tudo deu certo. Stephen Jay Gould, o principal estudioso da evolução do século XX, pensando sobre isso, observou: “Nossa espécie nunca se rompeu nenhuma vez em bilhões de momentos em que poderia acabar.” E quantas espécies acabaram!

Mas, para mim, esse mistério é tão grande e tão inexplicável quando compreendemos que toda ciência é inevitável, mas ela só se completa na plenitude da fé. É a presença de Deus na obra da criação que fecha e acaba o ciclo da dúvida.

Ao meditar sobre a vida na contagem dos anos, a expressão que me ocorre é de Hannah Arendt, que fala da obrigação de nossa “gratidão pelo mundo”.

Os gregos pensavam que na amizade residia boa parte da felicidade e esse era um dos requisitos “fundamentais para o bem-estar da cidade” e, assim, ligavam a filantropia ao “amor dos homens”. Os romanos já caminhavam na noção de “humanidade” como sentimento de solidariedade entre os homens: sermos humanos.

Fim de ano nos leva a meditação. Agradecer o ano que passou. Ter esperança de dias melhores no futuro. Quanto estamos precisando de temperança, de solidariedade, de estender a mão à humanidade toda, de amor ao próximo, da proteção divina. Mas o que mais quero hoje é desejar a todos, principalmente meus leitores, um bom ano novo e BONS ANOS.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A CRÔNICA DO DIA


HOJE É DIA DE... 



O NATAL NO IBACAZINHO E O PATO AMALDIÇOADO

Nonato Reis

Era véspera de Natal e o Ibacazinho parecia viver um dia como outro qualquer, marcado pela monotonia do seu cotidiano. Naqueles anos dominados pela luz do querosene, um dos raros sinais da aproximação do nascimento do Cristo eram as músicas típicas da época, que as emissoras de rádio reproduziam à exaustão, martelando o cérebro das pessoas com aquele som mágico e nostálgico das harpas.
Outro indicativo da presença do Messias entre os homens, ironicamente, constituía uma transgressão às leis cristãs, porém atenuada com o que hoje poderia ser classificado como indulto. 
À meia-noite do dia 24, no limiar do Natal, diante da mesa posta, algum morador recebia seus convidados para tomarem parte na famosa “Ceia da Meia-Noite”. O banquete tinha uma aura de subversão, já que a iguaria oferecida, geralmente um pato ao molho pardo, tinha que ser necessariamente roubada, sob pena de apagar-se o encanto.
Véspera de Natal, Pedro Castro, Eugênio, Maroto e Sebastião Xoxota – amigos inseparáveis - caminhavam distraídos na estrada que divide o Ibacazinho ao meio, a MA-014, principal elo entre os municípios da Baixada. De repente avistaram um casal de patos a nadar na Baixa de João Cidreira. Pedro olhou para Tião, o mais experiente do grupo, ele entendeu o sinal e advertiu em voz baixa: “são de Bornó”.
Bornó era conhecido pelo gênio intragável. Andava mancando e inclinado para um lado, como se carregasse um peso além da sua capacidade, seqüela, provavelmente, de uma poliomielite jamais diagnosticada. Os moradores do Ibacazinho, no entanto, sempre chegados a uma superstição, tinham outra explicação. 
Ainda menino um sapo todo amarrado de linha preta cruzara o seu caminho. Deu-lhe um chute de bico e o arremessou para longe do seu caminho. Logo depois sentira uma dor aguda que o fizera cair enfermo. 
Resistiria ao veneno ou ao feitiço do bicho, mas dele jamais se esqueceria. Ficara com uma perna atrofiada, menor do que a outra.
Esse, porém, era um detalhe físico, apenas. Bornó chamava mesmo a atenção pelo seu jeito calado e irritadiço. Durante muito tempo morou com a mãe, que já tinha idade avançada. Numa brincadeira de Serra Velha, botou os moleques para correr, armado com um facão velho, enferrujado. Nunca esqueci o episódio por causa da penicada que levamos com urina dormida misturada com alho, cebola e pimenta do reino. O mau cheiro perdurou por dias, mesmo tomando banhos diários com sabonete e até detergente. 
Difícil roubar as frutas do pomar que Bornó cultivava ao redor da casa. Eu mesmo tentei algumas vezes e me dei mal. Numa delas, tive que fugir às pressas, açoitado pelo cão vira-latas, repleto de pulgas, que cumpria à risca a honrosa função de guardar a casa e os interesses domésticos.
Noutra, tentei escapar por entre um vão e outro da cerca de arame farpado e nela deixei metade da camisa, que ficou a tremular entre as pontas afiadas do metal.
O casal de pato surgira ao acaso, e Tião, prevendo complicações, tentou demover o grupo daquela aventura. Voto vencido, porém, ainda se viu obrigado a aceitar, por sorteio, a missão de apanhar a ave, cuja escolha recaíra sobre o macho, devidamente amarrado e escondido dentro do mato. A ceia da meia-noite estava garantida e dela tomariam parte, além do quarteto, mais seis parentes, incluindo os donos da casa onde o banquete seria preparado.
Só que no meio da festa, o “Sangue de Boi” correndo de mão em mão e os pratos já postos à mesa, eis que surge Bornó, os olhos faiscando e o velho facão enferrujado na mão direita, pronto para ser usado.
Foi um pandemônio, neguinho tentando se esconder em baixo da mesa ou escapar pela porta dos fundos. Bornó queria o pato de volta, que a essa altura jazia na panela, imerso em caldo borbulhante. Olhou nos olhos de cada um, colocou o facão em cima da mesa, e deu o ultimato. 
- Ou vocês me dão o meu pato de volta ou não sai nenhum daqui para contar estória.
Ninguém sabia o que fazer, nem o que dizer. Na esteira da indecisão Eugênio tomou a palavra e sugeriu a única saída possível. “Bornó, o pato não pode ressuscitar, mas nós podemos pagar o teu prejuízo. Quanto você quer por ele?”. 
Os olhos de Bornó brilharam e dessa vez não foi de raiva. “O pato é de estimação”, avisou, ensaiando o discurso do bom vendedor, que sabe valorizar o produto.
Cobrou um preço muito acima do que a ave realmente valia. Resignado, o grupo aceitou, e ainda o convidou para participar da ceia, que aceitou de bom agrado.
Serenados os ânimos, todos sentaram novamente à mesa, e deu-se início à celebração do estômago. Tião ficou em silêncio, assim como os demais, mas o arroz lhe pareceu meio cru, como se tivesse cozinhado às pressas. De tão crocante, parecia farinha de mandioca torrada ao forno. 
Já era madrugada alta, quando o banquete terminou e todos retornaram para casa. Na saída, porém, Bornó se voltou para o grupo, e o falcão em riste, advertiu em tom profético: “Isso não vai ficar assim. Esse pato vai sair caro para vocês”.
Tião Xoxota viu aquilo como uma mera repetição, já que o preço cobrado pelo pato era exorbitante. No dia seguinte, porém, ao ver a turma toda no estaleiro, entrando e saindo do matagal a toda hora, ele pode enfim compreender o alcance daquelas palavras. Tião desidratou, perdeu peso, ficou parecendo “um aracu desovado”, como diria a avó dele, a Dona Emergulina. Nunca mais participou de “meia-noite” de Natal no Ibacazinho. 
Até hoje, quando o chamam para comer pato, ele faz o sinal da cruz, dá uma cusparada de fumo de rolo e, de pronto, rechaça o convite. “Deus me livre de pato. Isso é comida amaldiçoada”.

(*) Nonato Reis é jornalista, poeta e autor dos romances "Lipe e Juliana" e "A saga de Amaralinda". É natural de Viana-MA.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Os Bolsonaros e os outros


Vendido como um homem acima de qualquer suspeita, Bolsonaro elegeu-se Presidente do Brasil, mesmo depois de ter uma atuação pífia nas quase três décadas como deputado federal. Sempre integrou o chamado baixo clero e ficou mais conhecido pelos destemperos verbais e pelas muitas confusões em que se meteu do que por qualquer outra atitude louvável. Mesmo assim fora visto como novidade. E deu no que deu. 

Eis que agora ele se vê em meio a um redemoinho até então inexplicável e controverso, às vésperas de sua posse. Trata-se do caso em que um ex-assessor de seu filho, o deputado estadual, Flávio Bolsonaro, eleito agora senador pelo Rio de Janeiro, foi identificado pelo Coaf como alguém que movimentou mais de 1 milhão de reais em um ano em sua conta pessoal, sem que tenha proventos suficientes ´para isso.

Estas relações entre familiares do ex-assessor e os Bolsonaros chega também até o presidente eleito, Jair Bolsonaro, uma vez que uma filha do ex-assessor também esteve lotada nos gabinetes do filho e do pai, inclusive sem a devida comprovação de que realmente dava expediente.

A suspeita é de que uma velha prática que ocorre nas casas legislativas também fora praticada pelo clã de quem sempre se disse impecável e estritamente correto, a de empregar funcionários em seus gabinetes e reordenar salários desses servidores, ou seja, o funcionário recebe o salário pago em contracheque e repassar metade para o parlamentar, via algum assessor de confiança.

Se nisto não há ilegalidade, no mínimo tem imoralidade e como se vê, Bolsonaro é só mais um, igualzinho a muitos políticos por este país afora.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Jânio, Collor e Bolsonaro: eis as semelhanças...


Por Renato Rovai


Jânio Quadros ganhou a eleição com uma vassourinha que seria usada para varrer a bandalheira. Era um moralista sem moral que desafiou o sistema e derrotou os grandes partidos da época.

Fernando Collor saiu de Alagoas para caçar os marajás e combater a corrupção. Seu programa de governo, aliás, era muito parecido com o de Bolsonaro. Privatizações, diminuição do Estado, fim da estabilidade do servidor público, sanha moralista e criminalização dos movimentos sociais e sindical. Collor também derrotou os grandes partidos e favoritos na primeira eleição pós-democratização. Na primeira eleição pós fim de um regime militar motivado pela renúncia de Jânio Quadros.

O fato é que ambos foram substituídos por seus vices em curto espaço de tempo e derrotados pelo discurso que os levou ao poder. Os vices de Jânio e de Collor eram muito melhores do que eles, João Goulart e Itamar Franco. O primeiro acabou sofrendo um golpe militar. O segundo, de alguma maneira, uma rasteira civil. Itamar apoiou FHC para a sua sucessão, mas este o traiu logo no início do mandato implementando uma agenda neoliberal, que Itamar, convicto nacionalista, era contrário.

O que impressiona neste momento é que Jair Bolsonaro, que se elegeu com a mesma agenda e narrativas de Jânio e Collor, vive antes mesmo de sua posse um desgaste tão grande que sequer terá a famosa lua de mel, que quando curta, dura até a semana santa.

O bate-cabeças no PSL, partido do governo, as caneladas do general Mourão no presidente e em seus filhos, a dificuldade em criar uma base para eleger os presidentes da Câmara e do Senado e a nomeação de uma série de ministros inexpressivos e caricatos, indicam que Bolsonaro começa seu mandato já com cheiro de mofo. Em começo de mandato, governantes costumam ter paz e capital político para se impor. Mas isso não está acontecendo com o futuro presidente. Ao contrário, ele está completamente perdido e já começa a ser visto como um estorvo a ser retirado do cargo.

A questão que vai se colocar em breve se o caso do "esquema laranja" de Flávio Bolsonaro não vier a ser solucionado e se, por exemplo, o assessor Queiroz vier a abrir a boca e dizer que a grana que depositou na conta de Michelle não tem nada a ver com dívida com Bolsonaro, é que se iniciará a fase "como se livrar do presidente". Porque o capital financeiro e os agentes políticos não estarão dispostos a viver mais quatro anos de crise político-econômica, que será ainda maior com a perseguição do Estado, via Moro, a todos aqueles que incomodarem.
Quando isso acontecer, Mourão, que já está se mostrando bem assanhado para o cargo, estará sambando em articulações para armar um impeachment rápido e indolor contra o seu cabeça de chapa.

O Brasil parece estar prestes a mais uma interrupção de governo por impeachment ou golpe. A forma como a Globo está cobrindo o caso do "esquema laranja", as entrevistas de Mourão e o jeitão como estão se movendo as raposas políticas mais astutas é que apontam para isso.

Bolsonaro, o jacaré banguela, pode estar prestes a se tornar bolsa. Nunca antes da posse um governo em primeira eleição esteve tão desgastado. Nunca antes na história deste país. Dilma e FHC viveram algo semelhante, mas nas suas reeleições.


domingo, 9 de dezembro de 2018

Caldeirão de interesses


Ferve em alta temperatura o caldeirão dos aliados do presidente eleito Jair Bolsonaro, notadamente com os neófitos eleitos pelo seu partido, o PSL. Para o senador eleito Major Olímpio (PSL-SP), a responsável pelos desentendimentos na bancada do partido que vieram à tona na última quinta-feira (6) é Joice Hasselmann (PSL-SP), jornalista que se elegeu em outubro como a deputada mais votada da história da Câmara.  Nesta sexta-feira (07), a deputada eleita rebateu o desafeto desde as épocas de campanha eleitoral e o acusou de ser o responsável pela confusão. Sem nenhuma experiência no trato com a política, a deputada quer chamar pra si os holofotes que a tornaram conhecida no jornalismo político e nas redes sociais.
O clima já era notado na primeira reunião dos recém-eleitos parlamentares do PSL.  Joice Hasselmann se apresentou como principal articuladora com as demais legendas, sem ser designada para isto, citou explicitamente que vários parlamentares do próprio partido estariam incomodados com a inacessibilidade de Jair Bolsonaro e do futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), e garantiu que estaria neutralizando a situação com a ajuda de Jair Bolsonaro.
A briga ficou mais séria quando o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro também entrou no meio da confusão. Embalada pela expressiva votação que teve, Joice pensa que isso a credencia para assumir a liderança do partido na câmara na frente de deputados já experientes. O angu está formado. 

Magno Malta: o decepcionado 

Considerado o “vice dos sonhos” no início do pré-campanha eleitoral, o senador Magno Malta (PR-ES) ficou de fora do primeiro escalão do presidente eleito, Jair Bolsonaro. O senador pelo Espírito Santo Magno Malta foi figura marcante desde antes da campanha. Defensor ardente da campanha a presidente do Jair Bolsonaro, o até então senador Magno Malta esteve presente nas andanças e foi o responsável por alianças significativas de setores das igrejas evangélicas à candidatura do presidente eleito. Alguns analistas, e o próprio Malta, alegam que este dera mais importância à campanha presidencial do que a sua própria reeleição a senador. Atingido também por denúncias de ter forjado denúncia a uma pessoa de ter cometido crime de pedofilia no Espírito Santo, mas que fora inocentado, o senador viu a sua reeleição escapar-lhe por entre os dedos.
Sobrou então a esperança de que pudesse ser convidado para assumir um Ministério. Resultado: Nem mel, nem cabaça. Perdeu a chance de se tornar vice-presidente da República e também não se reelegeu. O apito final nessa questão foi dado pelo próprio Bolsonaro que disse que o amigo não seria anunciado ministro pois não atendia ao perfil de ministeriável. Mui amigo! 

Vice não manda

Pra não fugir à regra no meio político, o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), impôs uma “lei do silêncio” ao seu vice, general Hamilton Mourão. A recomendação é para que o militar adote uma postura mais discreta e deixe que Bolsonaro seja o centro das atenções, sendo o único porta-voz do futuro governo.
Além da trava verbal sugerida, o general da reserva não deverá ter espaço para atuar no governo. “Pelo desenho atual da estrutura, a vice-presidência não terá nenhuma secretaria subordinada ou atribuição predefinida. Após a vitória em segundo turno, chegou-se a especular que Mourão teria um papel de ‘gerente’ do governo, coordenando os ministérios. Porém, a recomendação é que o vice só responda às demandas específicas de Bolsonaro, quando for solicitado”.
Como se vê, as coisas não começam muito bem no governo Bolsonaro. É visível a autofagia e a ciumeira entre os membros do governo em formação. 

Presente de grego

Não caiu muito bem o projeto de lei enviado pelo governo Flávio Dino e que foi aprovado pela Assembleia Legislativa em regime de urgência que aumenta as alíquotas do ICMS no estado. Para muitos foi um presente de grego à população maranhense, principalmente aos que o elegeram para um segundo mandato, de um governo que acabou de ser reeleito ainda em primeiro turno. Esse aumento incidirá notadamente sobre os preços dos combustíveis, dos refrigerantes e cervejas. Os comentários foram os mais negativos possíveis, sobretudo em um Estado que tem as piores estradas, quase ou nenhuma indústria e tem a sua população ativa trabalhando, em grande maioria na informalidade. Ficou mais nebuloso ainda quando, recentemente o governo foi acusado de meter a mão no caixa dos aposentados, o FEPA, gerando uma ameaça de que o governo não teria como honrar compromissos salariais com os aposentados para o ano de 2019. É esperar pra ver.

Confraternizações

Como de regra no mês de dezembro acontecem as muitas confraternizações dos amigos e familiares, das instituições, repartições, ou mesmo dos que costumam dividir as mesas de bares nos finais de semana. São as festas do Natal. Registramos duas confraternizações marcantes ocorridas ontem, sábado. A do Fórum da Baixada Maranhense ocorrida na cidade de Viana e a dos professores de cursinhos pré-vestibulares, que se uniram a partir de um grupo de whatsap denominado Feras dos Cursinhos, ocorrida na chácara do professor Jorge Passinho. Para o próximo final de semana os amigos da cerveja pretendem se reunir em mais uma confraternização na churrascaria do Roberto, na curva do 90.  A todos, boas e alegres confraternizações!


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Os filhos do capitão


Por Marli Gonçalves

Marli Gonçalves
Os três filhos do Capitão. Eles não são três; são quatro os meninos. Mas o quarto, Jair Renan, ainda não preocupa e não aparece muito – é imberbe, 20 anos, e de qualquer forma vamos vê-los crescer, ele e a sua irmã mais novinha, às nossas vistas, nos próximos quatro anos. Os três que estão na política já dão trabalho e o que falar. Flávio, Carlos e Eduardo me fazem lembrar de certas reinações, as dos Sobrinhos do Capitão, uma HQ histórica do século passado. Lembra?

Os dois molequinhos (na história dos Sobrinhos, sim, eram dois, Hans e Fritz, gêmeos), levadíssimos, infernizavam a vida do Capitão, que não era propriamente tio, era aquela coisa de tio, tia, que a gente chama qualquer um mais velho que nós. Atazanavam na verdade tudo e todos os que estavam à sua volta, e apanhavam, apanhavam muito. Pouco adiantava.

Aqui no nosso caso real que também certamente vai render história, os três irmãos parecem combinar entre si é mais como aterrorizar a vida da outra banda, a que não votou no pai deles, não necessariamente por ser petista, ressalte-se, por favor. Foram quase 2/3 da população, 61,8% dos aptos a votar que, ou sumiram, ou anularam, branquearam ou estrelaram seus votos. É muita gente.

Flávio, 37 anos, Eduardo, 34 anos, e Carlos, 35 anos, são filhos de Rogéria, a primeira ex-mulher do presidente eleito. Pensam o que? Michelle, a nossa jovem futura primeira dama, é a terceira esposa do Capitão. Olha só – também poderia haver outra série: “As esposas do Capitão”.

Voltando aos três que não são mosqueteiros, mas estão se saindo excelentes marqueteiros, inclusive de si próprios, veja que Flávio e Eduardo tiveram votação recorde, respectivamente para senador pelo Rio de Janeiro e deputado federal por São Paulo. Carlos já é vereador no Rio de Janeiro. Assim ocupam todas as Casas com a mais nova marca da política nacional. Um carimbo. Radicais e empinados.

E opinam sobre tudo. Quando não vêm com suas opiniões fresquinhas que disparam principalmente pelo Twitter, a rede onde acharam seus reinados de poucos caracteres, toda hora aparecem vídeos de suas opiniões e feitos que deve ter gente cavoucando até a marca e a cor das cuecas deles todos.

Já pitacaram sobre fechar o Congresso, aquecimento global, Direitos Humanos, Educação, áreas sobre as quais destilam desinformação e preconceitos, assim como sobre a História recente do Brasil que devem ter aprendido em livros com páginas arrancadas, só pode ser.

Adoram arrumar uma briga. Suas falas e aparições estão criando é ainda mais muitos outros problemas para o pai, que até parece estar tentando montar um governo razoável enquanto lida com uma equipe boquirrota, começando a já gostar de ser fonte “confiável” dos jornalistas cativados que ganham declarações logo desmentidas. É rápido, gente: os caras estão gostando do poder, de Brasília, dos segredos dos caminhos e corredores, de soltar balões de ensaio com nomes que se valorizam imediatamente após aparecerem em lista de indicados. Notícias chegarão sopradas pelos ventos.

Os garotos de Bolsonaro, não. Esses não são novatos. Já vivem isso tudo praticamente desde que nasceram, já que o pai tem quase 30 vividos na política. Só houve uma mudança importante, do baixo clero ao mais alto cargo da República.

Isso sobe pra cabeça. Tomara que o pai deles cuide disso também. Nem precisa dar palmadas; só puxão de orelhas. Para não virarem Os Três Patetas.

(*) Jornalista formada pela FAAP, em 1979. Diretora da Brickmann&Associados Comunicação, B&A